A batata-doce de polpa alaranjada tem benefícios nutricionais enormes que ainda são pouco conhecidos em Cabo Verde. Maria Isabel (Ivone) Andrade, especialista em genética de plantas, mais concretamente no melhoramento da batata-doce, trabalha desde 1995 no Centro Internacional da Batata, em Moçambique, onde tem vindo a desenvolver diferentes variedades deste alimento. Em entrevista ao Expresso das Ilhas, fala-nos das qualidades, das campanhas intersectoriais, e das correntes investigações deste “doce que dá saúde”. A especialista lança ainda um olhar sobre agricultura em África e as suas mal aproveitadas potencialidades.
Depois de uma especialização (um PhD) bem concreta no melhoramento de raízes e tubérculos, em especifico a batata-doce, a geneticista cabo-verdiana Ivone Andrade viu surgir a oportunidade de ir trabalhar para Moçambique. Interessada na agricultura em áreas grandes, e face a um emprego num dos Centros de investigação do CIP (Centro Internacional de la Papa), aceitou o desafio e foi.
Estávamos no ano de 1995 e Moçambique apresentava uma elevada taxa de desnutrição crónica: cerca de 69% das crianças sofriam de défice de vitamina A. Nessa altura, recorda Ivone Andrade, a UNICEF financiava cápsulas com essa vitamina para colmatar a falha, mas devido à vastidão do país tornava-se muito difícil que a ajuda chegasse a todos.
“Foi então que juntamente com outros colegas e cientistas na área foi lançada uma ideia: pegar na batata-doce de polpa alaranjada e intervir a nível desse país”.
Sabia-se que a cor laranja representa uma fonte de Betacaroteno que no organismo humano se converte em vitamina A e a introdução desse alimento na agricultura e locais, pensaram, poderia ter efeitos positivos no combate à malnutrição.
Não sendo um produto agrícola autóctone, tratou-se, em primeiro lugar, de trazer genótipos (isto é, batata-doce com determinadas características genéticas) da América latina, EUA e Quénia. De seguida a sua adaptação foi estudada e avaliada, até que, em 1999, a geneticista conseguiu seleccionar “nove variedades que entraram no sistema de cultivo” do país.
“O Doce que dá saúde”
Arrancou-se, nesse ano, com uma campanha para promover a Batata-doce de Polpa Alaranjada (BDPA): concebeu-se material gráfico de divulgação, distribuiu-se material de plantio e venderam-se tubérculos. Fizeram-se programas na TV e na rádio também com vista à divulgação e informação. “O doce que dá saúde”, foi o slogan da campanha, devido às qualidades deste alimento.
Tudo foi minuciosamente estudado, pois acreditavam que a BDPA fosse lançada no sistema de produção sem acompanhamento, o impacto seria nulo. A intervenção, que visava o uso da BDPA como forma de combate à deficiência da Vitamina A juntou, pela primeira vez, agricultura (ministério da agricultura) e nutrição (ministério da saúde) e essa intersectorialidade do projecto rapidamente chamou a atenção de doadores internacionais.
Entretanto, não bastava lançar a BDPA no sistema. Interessava obter provas concretas que comprovassem que o nível nutricional melhorara com a introdução da BDPA. Para isso foi feito um estudo de caso.
“Fomos para a Zambézia, centro de Moçambique, onde tivemos um projecto-piloto e onde queríamos provar que se uma criança come batata-doce de polpa alaranjada o seu grau nutricional aumenta”, conta Ivone Andrade.
O estudo foi feito em 500 crianças, e – confrontando-se os resultados com um grupo de controle que ainda não tenha recebido o produto – comprovou-se que o nível de retinol, que é o indicador da vitamina A no sangue, aumentou, de facto.
Com essas evidências, provou-se pois o impacto que a BDPA pode ter na vida dessas crianças uma vez que a vitamina A é fundamental na saúde, ajudando por exemplo a melhorar o sistema imunitário e capacidade visual.
Além dessas evidências, sabe-se por exemplo, que a BDPA é boa para os diabéticos, uma vez que o índice hipoglicémico é baixo, e não engorda.
Outros estudos efectuados têm provado aspectos como o peso da BDPA ideal ou a área de cultivo. Por exemplo, o tamanho ideal de batata-doce para os requisitos diários da vitamina A, numa criança menor de 5 anos é uma batata de 125gr.
“Também calculamos que não é preciso uma área muito grande nem um grande investimento para o cultivo. Uma área de 400 m2 por família com 6 elementos já é suficiente para eliminarmos esse problema a nível do meio rural”, diz.
Neste momento, o programa de melhoramento conta com financiamentos importantes como o da USAID, Fundaçao Bill e Melinda Gates ou Irish Aids, que se interessaram pelos resultados deste projecto que envolve saúde e agricultura, com base em evidências.
Desgraças e oportunidades
Recuando ao ano 2000, este ficou marcado por fortes cheias que atingiram que mataram centenas de pessoas e destruíram diversas infra-estruturas, causando danos estimados na ordem dos 500 milhões de dólares. Foram as piores cheias já registadas em Moçambique.
No entanto, das tragédias também surgem oportunidades de recomeço e desenvolvimento. Como a batata-doce se cultiva nas baixas e, com as chuvas, toda a que existia (a normal, de polpa branca), desapareceu.
A campanha para promoção da BDPA, iniciada na conversação intersectorial de Julho de 1999 ganha deste modo um novo fôlego. Mas não bastava tentar substituir a batata-doce de polpa branca pela de polpa alaranjada. O objectivo era informar sobre todos os seus valores nutricionais, ensinar a preparar pratos de BDPA permitindo o seu uso diversificado e ao mesmo tempo, criar pequenos postos de comércio onde as mulheres, em particular, poderiam vender o produto e utilizar o dinheiro para comprar outros alimentos, material escolar, etc.
Ou seja, a visão era holística e nesse sentido, sempre com base na promoção da BDPA, diligenciaram-se várias campanhas. “Nós provamos também que, para que a intervenção seja sustentável, é necessário ver a questão da educação nutricional, do agroprocessamento em si, desenvolver a cadeia do mercado e intervir na área da agricultura”, diz Ivone Andrade.
Em Moçambique são já treinadas cerca de cem mulheres por ano “para desenvolverem pequenas empresas, como transformar [o produto] e como angariar algum dinheiro para a sua própria família”, conta ainda.
Cruzamento genético
A seguir às cheias vieram as secas. Tudo parecia estar encaminhado mas as secas de 2003 e, principalmente, de 2005 vieram mostrar que a BDPA era pouco tolerante à seca, menos resistentes do que a variedade local de polpa branca. Isso trouxe novos paradigmas. Procuraram-se financiadores que apoiassem a ideia de fazer o melhoramento genético – até então feito na América Latina - em África e pelos africanos. As agências de desenvolvimento apoiaram a ideia e financiaram um programa de melhoramento genético para resistência à seca, liderado por Ivone Andrade e estabelecido em Moçambique.
Não são alimentos transgénicos. Todo o melhoramento é feito de forma natural, convencional. No âmbito do programa de melhoramento genético, Ivone Andrade e a sua equipa andaram por todo Moçambique “em busca de material do agricultor local, que trazia alguma resistência à seca” para cruzar com o outro material de polpa alaranjada que vinha de fora.
Quando se faz esse cruzamento, o tempo de espera até uma nova variedade seja libertada no sistema é de cerca de oito anos. Ivone Andrade modificou a técnica e, em conjunto com outros colegas, conceberam um novo método, “que se chama método de melhoramento acelerado que hoje todos eles estão a usar”.
Assim, e ao fim de quatro anos, Ivone Andrade conseguiu trazer para o sistema 15 variedades de BDPA tolerantes à seca: “seis com adaptação ampla, vão adaptar-se a qualquer sítio em que se plante e outras nove com adaptação específica”.
Essas variedades estão a ser disseminadas por vários países africanos, inclusive Cabo Verde.
“Agora, no meu trabalho em Moçambique, estou a tentar libertar uma batata-doce de polpa roxa, que é antioxidante. Tenho já 36 variedades.”, avança Ivone Andrade. Esta batata, com propriedades anticancerígenas deverá sair para o sistema no próximo ano, “mas também terá de vir com uma campanha e uma estudo que reúna evidência a provar que na verdade pode evitar o cancro”, acrescenta.
Em expansão
À medida que as variedades de BDPA são apuradas, o Centro Internacional da Batata em Moçambique vai enviando o material para outros países para avaliação.
“Por exemplo, neste momento já trabalhamos com 17 países africanos, nomeadamente Nigéria, Quénia, Benim, Gana, Uganda, Tanzânia, Malawi, Zâmbia... Estamos a trabalhar na África Ocidental, África Central e do Leste e África Austral e criamos três plataformas de investigação no continente: uma com base no Gana, em Kumasi, outra com a base em Moçambique, que cobre toda África Austral, e outra na África de Leste, com a sua base no Uganda.” Em todos estes centros trabalha-se pois no melhoramento da batata-doce.
Cabo Verde já recebeu as 15 variedades conseguidas no Centro Internacional de Moçambique, trazidas pela própria Ivone Andrade, em Outubro de 2012.
“Já houve colheitas dessa batata-doce e já verificaram que o material tem potencial”. Neste momento essa batata apenas está a ser plantada em Santiago mas a ideia é que se expanda também às outras ilhas.
Entretanto, Ivone Andrade acredita, que tal como em Moçambique, em Cabo Verde a disseminação da BDPA deveria ser feita através de uma campanha de promoção alargada, que explique os atributos deste alimento.
“Quando algo novo entra no sistema tem de ser acompanhado para poder ter impacto. Não gostaria de ver a BDPA entrar sem um pacote para informar as mulheres dos seus atributos nutricionais. As pessoas não sabem, temos que tentar ver como é que esta informação pode chegar até elas”.
África: a fome, os terrenos e os investimentos necessários
Ivone Andrade é peremptória: o melhoramento e introdução de um qualquer alimento devem ser acompanhados de medidas alargadas que garantam o seu impacto junto às populações.
Quando se ouve falar de tantos progressos a nível de produtos agrícolas (resistentes às secas ou às pragas, por exemplo), surge a ideia de que o espectro da fome em África pode realmente ser erradicado.
Mas “a fome é uma questão complicada” e tem de passar por outras apostas que não apenas a dos melhoramentos genéticos. Um dos problemas apontados por Ivone Andrade prende-se com a falta de condições de transporte, em vários países africanos, que não permite o escoamento dos produtos para zonas onde não há produção.
“Muita produção é desperdiçada porque não existe um bom plano, um agroprocessamento à altura. Não é que não haja os conhecimentos de como o fazer, mas terá de haver muitos investimentos nessa área: infra-estruturas, transportes, estruturas para conservar a frio”
Ora isso vai levar o seu tempo, e cada guerra – momento em que a atenção é “desperdiçada para defender o próprio território” – é mais um passo atrás nesse processo.
Um outro problema que “África vai ter de pensar” é o destino que pretende dar aos seus terrenos de cultivo. Há cada vez mais terra arável compradas por outros países, para cultivo próprio, ou por empresas para outros usos (por exemplo, para exploração de carvão). No entanto, tudo isto retira às populações africanas espaços de produção.
E o continente terá também de ver qual a importância que quer dar à “riqueza” da produção agrícola. Tomando o exemplo da Nigéria, este país, voltou-se nos anos 60 para a exportação de petróleo, acabando por negligenciar a produção agrícola, que começaram a ter de importar. Anos depois, verificaram a necessidade de desenvolver a agricultura local, e lançaram um conjunto de incentivos que tem aumentado exponencialmente o rendimento agrícola do país.
“Mesmo Cabo Verde, que diz que não tem vocação [agrícola,] tem de produzir”, alerta.
“Investimento e investigação são essenciais”
“Eu não acredito numa agricultura de sequeiro”, afirma Ivone Andrade. Para ser viável o sector agrícola deve envolver investimento: material e equipamento apropriados, sistemas de regra eficientes e eficazes, espécies melhoradas… E nesse aspecto tem de haver um plano ao nível do próprio governo.
Em 2003, os Estados-membros da União Africana (UA) acordaram destinar 10% do seu Produto Interno Bruto (PIB) à agricultura, como forma de desenvolver o sector e combater a pobreza no continente. Uma década depois, “os países estão atrasados porque não foi cumprido”.
E “qualquer país que queira que a sua agricultura se desenvolva tem de investir na investigação”, acredita. Só assim será possível escolher e desenvolver as sementes, produtos e variedades mais adaptadas às condições locais… mas sempre com uma visão holística, que envolva as diferentes vertentes da agricultura e verdadeiro impacto nas populações.
Nota:
Há 15 centros de internacionais de pesquisa para melhoria de produtos alimentares, como o feijão, a mandioca, o peixe ou os cerais. Um deles é o Centro internacional de la Papa, com sede no Peru, que se dedica a melhorar a Batata-doce, a batata e a batata andina, ao qual está afecto o centro de Moçambique.
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