A WOMEX ficou a conhecer o homem por trás do ministro Mário Lúcio Sousa – galardoado com o prémio da Excelência Profissional 2014. O menino que começou a imaginar que tocava piano na mesa da cozinha. O jovem que cresceu entre militares. O homem místico que se formou em direito e que fez da cultura a sua casa. No final da World Music Expo de Compostela, Mário Lúcio Sousa falou, em exclusivo, com o Expresso das Ilhas, numa conversa que foi da política, à cultura, passou pelos sonhos e terminou na vontade expressa do ministro da Cultura em regressar ao seu espaço favorito: a criação.
Expresso das Ilhas — Durante o encontro sobre a música africana aproveitou para pedir o apoio dos países para que Cristina Duarte fosse eleita para o BAD. Que me lembre, foi das primeiras vezes que misturou política com cultura. Porquê?
Mário Lúcio Sousa —Trata-se de um cargo de Cabo Verde e nós devemos, pelo nosso país, solicitar a envolvência de todas as nações. Tratando-se de um cargo de uma instituição africana, achei que o African Music Fórum era o lugar ideal para pedir às pessoas influentes nos seus países que influenciassem os seus governos para elegermos a cabo-verdiana Cristina Duarte para a presidência do Banco Africano para o Desenvolvimento. Mas também porque ela é uma pessoa que tem apoiado muito a cultura em Cabo Verde e só não dá mais porque o país não tem. Se ela estiver à frente de uma instituição forte como o BAD, acredito que poderá também transformar a cultura em Cabo Verde e em África, por isso solicitei para que fizessem soar a nossa música.
Provando também que a cultura afinal tem poder para influenciar.
Tem, sempre teve, muitas vezes menosprezada, muitas vezes não se dá o valor extraordinário que a cultura tem, mas basta ver o impacto que os artistas e os embaixadores da cultura têm nas suas acções. Nós não estamos alheios ao que se passa no mundo. Se pudermos pegar na cultura para lutar contra a pobreza, combater a violência, estaremos a fazer aquilo que para melhor a cultura serve.
Já na sua conversa com o jornalista holandês Posthumus [sábado, um encontro que serviu para dar a conhecer o vencedor do Prémio de Excelência Profissional da WOMEX, atribuído a Mário Lúcio Sousa] assistimos quase a uma lição de filosofia à volta da crioulidade e da vontade de partilhar essa crioulidade com o mundo. Que exemplo, afinal, pode dar Cabo Verde?
Acho que nós, como crioulos, temos uma grande lição a dar ao mundo em termos de convívio na diversidade, da sintetização das influências, o que fizemos do encontro de culturas, como fizemos o luto das coisas dolorosas, como reciclamos as coisas negativas e projectamos o futuro e dizemos que sim é possível habitarmos um espaço do tamanho do planeta sem termos a tentação de mandar cada um para o seu canto. Todos temos de participar nas questões que nos são comuns, como as alterações climáticas, ou as guerras religiosas. O que eu entendo é que somos o berço da crioulização do mundo.
Como disse, como crioulos temos várias raízes.
Sim. Nós somos crioulos e esse é o nosso substantivo e o nosso adjectivo. A crioulização é um processo dinâmico e não precisamos de mais adjectivos para isso. Importante é que os crioulos são cidadãos do mundo, deste milénio, capazes de sair dos confins territoriais, sair dos confins da cor da pele, para assumirem que podem ter várias raízes, várias origens e assumir isso também como uma identidade.
E nesse contexto qual é o papel do AME?
O AME situou-se como mercado no Atlântico, é o único mercado até agora que não tem um território como referência mas sim o oceano. Mas também porque somos conscientes que existe uma cultura atlântica, que não é uma cultura só ligada ao oceano, mas que teve a sua fecundação nos circuitos do Atlântico, pelas várias rotas que passaram por lá. Abrir Cabo Verde para receber o mundo nessa base, não dizendo que é o mercado de música de Cabo Vede, ou de África, mas sim abertos para uma acção maior, fazendo com que as pessoas entendam que o AME não é só de Cabo Verde. É feito lá, pelas pessoas de lá, com outras pessoas do mundo e esse tem sido o grande chamariz do AME: esse espaço aberto, mais do que um mercado de negócios, é uma construção de espaços onde possamos habitar sem exclusões.
Como disse na sua intervenção, entre o mercado e o sonho, prefere ficar com o sonho.
Com certeza. A mim dizem-se que sou um sonhador e eu respondo “é por isso que estou acordado”. Quando vou dormir é para descansar. Sonho acordado, sim senhor. Os nossos sonhos não são quimeras, são construções. Nós projectamos a nossa alma e o nosso coração para as coisas que gostaríamos de construir. Se é para termos um mercado como um espaço capitalista, de trocas e lucros, preferimos não ter mercado e guardar o sonho de um mercado de troca de experiências, intercâmbios culturais e de economia solidária e colaborativa.
Nas várias intervenções que teve passou essencialmente a mensagem do artista enquanto promotor da paz. O que o preocupa?
Preocupa-me este ano de 2014 especialmente violento. Estamos a ver o que acontece na Síria, no Iraque, no Irão, na Somália, em Melilla, no Porto de Itália e vemos a violência gratuita na palavra, permanentemente, entre os políticos, entre os inimigos, na troca de opiniões, e a minha preocupação é essa: se semearmos a violência hoje, colheremos a hecatombe amanhã. E nós não queremos legar isso aos nossos filhos e aos filhos dos nossos filhos. A arte é um habitat pacífico e qualquer mexida que não seja harmónica inquieta-nos. Eu não faço mais do que pelo menos pedir todos os dias que tenhamos bom coração, que sejamos construtivos e que pensemos na humanidade e não só na nossa esquina. Como dizia Bertold Brecht, enquanto estão a levar os outros, nós não nos preocupamos, mas o mal bate à porta de toda a gente e devemos ser solidários com os outros para que eles sejam solidários connosco. Temos que pensar no mundo.
E o papel da world music é importante nessa mensagem integradora e multicultural?
Pois. Veja-se a WOMEX, fez agora 20 anos, e tínhamos lá o mundo todo: a China, a África do Sul, Marrocos, Noruega, Colômbia e todas as pessoas alegres e felizes, a tratar de assuntos referentes à música. Essa harmonia não se vê nas Nações Unidas. Por isso é bom que, pelo menos uma vez por ano, as nações se encontrem sem ataques umas às outras, ou fazendo lobbys para defender os seus interesses. O que acontece na WOMEX é a partilha daquilo que temos e é um bom exemplo. Acho que se os governantes planetários derem mais atenção e investimento na cultura, criando mais espaços, mais liberdade, se os criadores forem ouvidos nas mais altas instâncias, tenho a certeza que poderemos dar um grande contributo. A cultura não é só entretenimento, trabalhamos profundamente com a alma, a mente e o coração das pessoas.
E fazem sonhar. É por isso que cantar o Imagine de John Lennon se tornou quase uma imagem de marca de Mário Lúcio? [Foi assim que encerrou o discurso na cerimónia do WOMEX aos premiados deste ano, no domingo]
É uma música que me surge com frequência. A primeira vez foi no AME e repetiu-se no segundo ano. É um hino à humanidade. Imagino que os anjos o tenham soprado a John Lennon e não precisamos de inventar outro. Sempre que sonhamos um mundo melhor, que as nossas crianças podem viver juntas, fazendo uma roda à volta do planeta de mão dada, há uma tentação hiper-realista de sermos considerados os loucos, mas, exactamente como diz a canção, você pode pensar que sou um louco, mas não sou o único, espero que amanhã se junte a nós para que o mundo seja um sonho.
O AME também nasceu de um sonho, agora já vai para a terceira edição, e pode-se dizer que esta foi a WOMEX do AME?
Sem dúvida. Na Dinamarca, há três anos, quando apresentei esse sonho à WOMEX, eles disseram claramente que não lhes interessava. Em nome de Cabo Verde arranjei uma briga, uma briga séria, porque lhes disse que agora a África já não lhes interessava depois de a terem saqueado durante cinco séculos. O homem na altura ficou chocado, uma semana depois ligou-me a dizer que lhe tinha batido na consciência e que íamos ser parceiros. A primeira apresentação do AME foi na Grécia e havia muita desconfiança e pouca gente na sala. Vendemos o nosso peixe e o nosso oceano todo e mesmo assim foi difícil. Graças ao sucesso da primeira edição, quando estivemos em Cardiff, a sala já estava cheia e toda a gente queria saber o que era esse AME que as pessoas estavam a falar. A segunda edição do AME foi à altura do sonho de todos nós e neste WOMEX já nem precisámos de fazer muito, o AME passa de boca em boca e é já um mimo, um exemplo. Sinto que Cabo Verde, no seu todo, conseguiu colocar um grão de areia na construção do planeta.
O AME que foi muito elogiado pelo modelo. Como analisa este reconhecimento?
Eu acho que por mais que façamos algo, se não for para a felicidade das pessoas a obra não terá grandes resultados. O facto do AME ter sido pensado para que as pessoas tivessem acesso gratuito, tanto aos shows como às conferências, isso acabou por ser uma marca. Como se viu aqui, a WOMEX é um espaço fechado, só para mercados, e o AME é feito na cidade e de portas abertas. O povo cabo-verdiano, com a sua alegria e o seu afecto, também ajudou a construir o AME. E hoje isso é um atractivo. Acho que é um reconhecimento ao povo cabo-verdiano. Temos a esperança que a terceira edição seja uma grande surpresa.
Ia perguntar-lhe isso, apesar de saber que provavelmente não vai adiantar-me grande coisa, que novidades haverá no próximo AME?
Claro que ainda é cedo, ainda as estamos a construir. Mas, conseguimos grandes parcerias neste WOMEX, principalmente com a China, a Índia e o Japão. No ano passado já tivemos a Malásia…
E poderemos ver esses países com promoções mais fortes, como aconteceu com a Malásia?
Já estamos a trabalhar nisso. Para conseguir levar esses profissionais a Cabo Verde e levar Cabo Verde a esses países. Já seria uma grande novidade para o AME.
Para o final desta entrevista regressamos à política. Já cumpriu mais de metade do seu mandato enquanto ministro da cultura. O que falta fazer no tempo que resta?
Nós estamos na fase da consolidação. Foram lançadas várias sementes e foram lançadas com a consciência clara de que são sementes, não são frutos. É preciso um longo caminho de amadurecimento, de consolidação, de correcções, mas globalmente, daquilo que projectámos fazer, já lançámos 90 por cento das sementes e já nos damos por muito felizes. São sementes muito imperfeitas, mas é importante que elas existam e cresçam. Saber que há a semente da orquestra nacional, que há a semente da companhia nacional do bailado, a semente da certificação do artesanato, das casas do artesanato, das salas de espectáculo, da galeria nacional de arte, de eventos ligados ao cinema, dos vários museus, o banco da cultura, uma sementinha que ainda tem muito para crescer. A nossa perspectiva é que não é com a perfeição que se começa nada, pelo contrário. E também temos a humildade de saber que devemos fazer a continuidade e isso caberá a várias gerações. O que sei é que estou feliz de ter dado a minha contribuição.
Gostava de cumprir mais um mandato ou cinco anos é suficiente para lançar todas as sementes?
(longa pausa) Como lhe digo isto… (pausa) Eu já estou no final do meu mandato. Vim para ficar, no máximo, quatro anos no governo. Devido à minha compreensão do que é lealdade, não abandonei nem abandonarei o barco, mas já fiz saber ao senhor Primeiro-Ministro que, logo que for possível, me soltasse, para eu voltar à criação, aos palcos, aos livros, à família. Como disse, por lealdade, fico a aguardar, mas quando houver condições, espero regressar à vida civil e dar o lugar a outro. Que Deus me dê vida, saúde e força para esperar e concluir as coisas da melhor maneira.
Gugas Veiga; “Ainda falta divulgar muitos géneros da música cabo-verdiana”

Augusto “Gugas” Veiga, disse ao Expresso das Ilhas que esta participação na WOMEX superou todas as expectativas. O empresário e dono da AV Produções, que representa, por exemplo, os Ferro Gaita há 18 anos, sublinhou ainda a importância de ter à frente do ministério da Cultura alguém que é também artista, alguém com uma visão que ultrapassa a mera política e que percebe as necessidades e os desafios do sector.
Expresso das Ilhas – Começamos pela pergunta básica, como está a correr este WOMEX?
Augusto Veiga – Está a correr muito bem para nós. Posso mesmo dizer que as expectativas foram ultrapassadas. Desde o primeiro dia conseguimos já fazer alguns negócios – concertos e festivais – por isso é que digo que, para nós, já estão ultrapassadas as expectativas e ainda vamos a meio, digamos assim.
Tudo o que vier agora é sempre melhor.
É sempre melhor, mas também já tínhamos contactos estabelecidos previamente, porque isto vem de trás, já há mais de um ano, outros há dois e alguns desde a realização do AME e realmente este WOMEX tem sido muito bom.
Hoje é mais fácil vender a música cabo-verdiana?
Acredito que sim, porque hoje há mais conhecimento da música cabo-verdiana. Do meu ponto de vista, havia um conhecimento da música cabo-verdiana que se resumia aquilo que a Cesária fazia. Mas, hoje, não só pelas formas de divulgação – porque todos têm acesso via online – e também a existência da AME, nos últimos dois anos, fez com que mais profissionais e mais pessoas conhecessem Cabo Verde e a sua cultura. Acho que neste momento há uma maior abertura para se difundir a cultura e a música de Cabo Verde e não tenho dúvidas que é mais fácil divulgar essa mesma música.
De resto há também uma curiosidade notória entre os presentes neste WOMEX, como é que um país tão pequeno e com tão pouca gente tem tantos géneros musicais?
É verdade e que muda muito. Inclusive há muito género musical que ainda não está divulgado. Realmente, é uma riqueza musical enorme e há muita gente a ficar admirada. Notando sempre que ainda só conhecem o básico, os géneros mais ouvidos como a morna, a coladeira, o funaná, o batuko, mas há ainda muito mais a descobrir.
Esta aposta do ministério da cultura de fazer da actividade cultural um meio de exportação, esta ligação à parte económica, é importante para vocês produtores?
Muito. Nós sempre defendemos essa vertente e ter alguém com essa visão no ministério, alguém que acredita na economia cultural, é muito importante. Ainda não está totalmente quantificado, mas nós sabemos que a música gera dinheiro para Cabo Verde e para os cabo-verdianos. E acredito que se houver uma aposta virada para esse lado da economia da cultura, como aliás o Brasil já fez, os resultados serão palpáveis e será mais um estímulo para continuar a trabalhar.
Inclusive para os músicos que vêem o seu trabalho a ser recompensado e o seu talento a ser reconhecido.
E têm um retorno financeiro, o que é muito importante. Como sabemos, há muitos músicos a viver com muitas dificuldades e assim terão a oportunidade de viver com outra dignidade.
Esse reconhecimento voltou a ser visível, por exemplo, num grupo que trabalha consigo, os Ferro Gaita, que voltaram a dar concertos no estrangeiro. Houve alguma estratégia?
Houve. Veja que o grupo há já seis anos que não tem um trabalho novo, vai agora em finais do ano ter um disco novo cá fora. O grupo tem dado espectáculos por todo o lado. Não de forma tão intensa fora de Cabo Verde, mas dentro do arquipélago o grupo está sempre presente nos festivais e outros eventos. No estrangeiro, houve actuações mais esporádicas, mas agora a estratégia é clara: CD novo, temos de estar no mercado, há potencial, há já um mercado pré-estabelecido porque as pessoas gostam do grupo, por isso há esta estratégia de entrar em força para a partir de 2015 recomeçarmos os espectáculos fora do país, aproveitando, por exemplo, estes mercados proporcionados pela WOMEX.
E a sensação que dá é que eles estão novamente a divertir-se a tocar juntos.
Exacto. Houve uma altura de alguma paragem, de algum cansaço, mas depois da participação deles no AME voltaram a sentir o bichinho, digamos assim, e estão mais motivados. Não podemos esquecer que são 18 anos, não é pouco (risos).
AME para o qual já se está em contagem decrescente. Ficaram surpreendidos que em apenas duas edições se tenha transformado o AME num marco para a música cabo-verdiana?
Sem dúvida que é uma surpresa. Mas, desde o início, quando me foi apresentado o projecto, eu acreditei. E na minha opinião temos uma vantagem fundamental, porque estamos em casa e recebemos as pessoas. E depois o AME tem uma situação diferente: nós vemos aqui no WOMEX o que temos de andar para cá chegar, e depois cá dentro o outro tanto que temos também de nos deslocar, e o AME, talvez por ser ainda pequeno e mais familiar proporciona mais contacto entre as pessoas e estando em contacto há mais trabalho, há mais negócios e há mais amizade. Essa é que é a fórmula – a morabeza – que nos dá uma exposição diferente e que tem todas as características para crescer ainda mais.
Em relação à sua produtora, houve dois fenómenos recentes que surgiram no panorama nacional e também internacional, o Michel Montrond e o Jay. Foi sorte ou muito trabalho?
Muito trabalho, muito trabalho. O Michel Montrond é uma produção muito bem feita pelo Hernâni Almeida, uma música que sai para promover o disco e que se transforma logo num sucesso nacional, além disso, o Michel é um excelente artista e compositor. Já fez alguns festivais em Cabo Verde, já fez a sua primeira tournée internacional, já conseguimos um agente a nível mundial e acredito que as coisas vão melhorar ainda mais. Mas, tanto ele como a banda são muito bons. Claro que o factor sorte conta, mas se não tiveres qualidade não vais a lado nenhum. Em relação ao Jay é um estilo completamente diferente, música mais urbana, que pode ter impacto a nível mundial e há uma curiosidade, o Jay vive fora mas explodiu em Cabo Verde e agora está a aparecer fora. Já assinámos com uma empresa que vai ser a representante dele para o mundo, uma empresa estabelecida em Portugal, Londres, Paris e também Espanha e acreditamos que virão mais coisas boas para ele. Depois do AME também fez espectáculos fora do país e no seu estilo, muito próprio, é também muito bom.
Paulo Bettencourt: “Estou fascinado com todo este mundo”

Paulo Bettencourt, 24 anos, é o caloiro dos produtores cabo-verdianos que participam na WOMEX. À frente da At Smile Music Entertainment and Smile Eventos, quer continuar a promover os seus artistas e também que os concertos com nomes internacionais passem a fazer parte da agenda cultural do arquipélago.
És o mais jovem produtor cabo-verdiano aqui presente, começaste aos 19 anos, como chegaste aqui, o que te deu para seres produtor musical?
(risos) É um percurso que já vem da família. O meu pai era um dos líderes dos Simentera, tenho um primo que é uma referência na técnica, o Russo, e acho que estava a faltar um produtor (risos). Eu já fazia festas, mas, no fundo, só comecei no lado da produção e do management quando dei conta que os produtores da noite eram banalizados, desrespeitados por todos, ou seja, não éramos considerados uns profissionais iguais aos outros. Toda a gente criticava. Foi então que decidi que queria ser um empresário aceite, um empreendedor. Ainda não vivo a 100 por cento deste mundo, porque é muito difícil e o mercado cabo-verdiano não permite ter uma sustentabilidade. Além de um mercado pequeno, a concorrência aumenta cada vez mais. Mas, estou optimista. E foi isso, para ter o respeito dos outros segui o caminho da produção e hoje acredito que sou visto como um jovem empreendedor, talvez como um jovem empresário de música, e chego a um banco e sou respeitado de igual forma como se fosse um empresário da construção civil, ou outro qualquer.
Entretanto já estás a representar nomes como o Batchart, o Dany Santoz, Uziel Sança, o Beto Dias, isto funciona como, é o produtor que tem de ter ouvido? Ou tem de haver uma relação prévia de confiança? Como surgiram estes nomes no teu portefólio?
Quando comecei fui mais para o mercado tradicional da World Music. Mas, devido à explosão de música urbana esta começou a invadir as feiras de World Music. Por exemplo, aqui [Compostela] falei com o pessoal do Festival de São Paulo, que é um festival mais de música urbana, como o rap. Mesmo o AME apostou em dois palcos, o de música mais tradicional e o Urban Stage, para uma música mais alternativa, uma música que começa a invadir o mercado.
Ou seja, tem de haver sempre uma certa agilidade por parte do produtor.
Sim, claro. Quando contratamos um artista tentamos sempre ver o seu potencial e os benefícios que pode trazer aos outros.
Dá-me um exemplo.
O Beto Dias. Vamos usar uma estratégia para que ele facilite a abertura de portas aos outros artistas em mercados mais complicados como Angola, Moçambique, onde o Beto já está afirmado. Assim ganhámos a confiança para levar outros e mostrá-los. Eu faço sempre essa análise, qual é o benefício que uns artistas podem trazer aos outros.
Ao mesmo tempo, vocês têm também de antecipar tendências.
É verdade. A minha empresa não é muito especializada nisso porque ainda não temos recursos. Mas, numa produtora das grandes existe um departamento que cuida só disso.
Em relação ao WOMEX, com que expectativas vieste até cá?
Primeiro que tudo estou fascinado com todo este mundo, é mesmo aquilo que eu sonhava. Felizmente, o ministério da cultura está a dar-nos esta oportunidade para internacionalizar a indústria musical cabo-verdiana. Conseguimos assim participar neste trabalho colectivo, vender os nossos artistas e, além disso, a minha empresa quer também comprar artistas de qualidade. Ou seja, levar concertos para Cabo Verde.
E vamos também falar disso, mas, há pouco, em conversa informal, disseste-me que vieste também e essencialmente para aprender. De qualquer forma, já foram feitos contactos?
Yá. É algo inevitável. É verdade que vim para aprender, mas entretanto fui falando com muita gente a quem já tinha mandado emails, que nem abriam, e agora já sabem quem sou (risos).
Construíste pontes.
Isso.
Como é o dia de um produtor nesta feira, a maior do mundo de World Music?
(risos) É acordar às 9h, ir dormir às 3h, mas, os melhores negócios são os que se fecham à noite, porque depois dos showcases os produtores vão até às discotecas ou aos bares e como é um ambiente mais tranquilo, com menos gente, é mais fácil falarmos uns com os outros. Ontem mesmo, calhou-me algo do género e em princípio consegui um negócio para levar um artista a Cabo Verde.
Pois, porque voltando ao tema da compra de artistas, pergunto-te se viste projectos interessantes para levares a Cabo Verde.
Vários. A minha produtora tem um projecto ambicioso para 2015: introduzir concertos ao vivo de forma sistemática, que ainda não temos em Cabo Verde porque o poder de compra é baixo e a logística ainda é cara. Como se consegue isso? Arranjando parceiros para assegurarmos que todos ganhamos. Por isso estamos a preparar para começar em 2015, primeiro mais devagar, mas levando alguns nomes a Cabo Verde.
Vamos ter bons concertos em Cabo Verde no próximo ano?
Estou a sonhar que sim. Os contactos estão praticamente todos feitos. Ou seja, as coisas estão a andar e (suspiro) eu sonho muito com isso e acho que chegou a altura de Cabo Verde sentir outro vibe. Queremos criar algo que tenha um começo, um meio e que nunca tenha fim.
Hoje é mais fácil vender a música cabo-verdiana?
Hoje é mais fácil vender música. Qualquer tipo de música. Porque estamos concentrados no mundo virtual, no online. Por outro lado, a competitividade também aumentou. Ter só qualidade já não chega, é preciso fazer todo um investimento muito forte para conseguir um retorno.
Ou seja, marketing, e aí entra o produtor.
Mas não apenas o produtor. Felizmente os meus artistas, como o Batchart, que é alguém que participa muito, que pensa as estratégias em conjunto, aparece sempre com ideias e isso é fantástico, porque discutimos e é mais fácil trabalhar assim e alcançar o sucesso.
Djô da Silva: “A Orquestra Cesária Évora foi uma aposta de risco”

José da Silva, ou Djô da Silva, como é mais conhecido, é o produtor cabo-verdiano mais influente. Representou Cesária Évora e hoje tem um portefólio que inclui nomes como os de Neuza, Cordas do Sol, Tcheka, Lura, Princezito, ou Bau, só para referir alguns. Esteve na primeira edição da WOMEX com Cesária Évora e daí para cá já foram mais treze participações na maior feira de World Music a nível mundial, um mercado que domina como poucos. Após trinta anos nesta vida, diz que é altura de começar a desacelerar.
Expresso das Ilhas – Mexe-se neste mercado como peixe na água. Como acontece toda esta caminhada?
Djô da Silva – Foi feita com muito trabalho. Participei no primeiro WOMEX com a Cesária e até hoje já estive em 14. Os primeiros tempos foram difíceis, porque é um mercado que tem de se entender, saber o que querem, por isso foram dois anos para o conseguir entender e depois as coisas tornaram-se mais fáceis. É um meio que funciona muito através dos conhecimentos que se têm e hoje já faço parte da família e por isso é muito mais fácil. As pessoas já me conhecem, os projectos chegam-me mesmo sem os procurar. Agora, estou a ver se consigo que outros cabo-verdianos vejam a importância disto tudo para que não percamos este espaço que fui conquistando ao longo de todos estes anos. Porque estou mais com um pé fora do que dentro.
Já está a pensar na reforma?
Não é reforma, as pessoas também se cansam. Já estou com mais de trinta anos nesta vida. Não é reforma, é fazer menos, dar espaço aos mais novos e não estar eu presente em todos os mercados. Quero fazer coisas com mais calma e descansar um pouco.
Esteve aqui há 20 anos com a Cesária, que de facto foi quem abriu as portas para o mercado musical cabo-verdiano.
Claro. Tudo o que fizemos com a Cesária abriu as portas para a música, a cultura, o país, para os jovens artistas. No início, é claro, que ela própria precisou de ganhar esse espaço, o que levou alguns anos, quando o conseguiu, ela própria fez questão de ter artistas cabo-verdianos com ela. Fizemos uma tournée por catorze cidades da Europa com o Ildo Lobo, Ferro Gaita, vários artistas. Chamava-se mesmo Cesária and Friends (Cesária e amigos) e era uma forma de mostrar outros artistas de Cabo Verde. Além que sempre teve artistas cabo-verdianos a fazerem as primeiras partes dos seus concertos em Lisboa, em Paris, em Londres, e isso deu resultado e hoje em dia a música cabo-verdiana é muito conhecida. Há mesmo muitos países aqui no WOMEX com ciúmes de nós (risos), que me dizem: “vocês, um país tão pequeno e conseguem ser tão falados”, ou como me disse um brasileiro: “cara, vocês são os star do mercado’ (risos). Mas, isso conseguiu-se com muito trabalho.
No WOMEX tivemos a Orquestra Cesária Évora e foi visível que as pessoas continuam a querer ouvir a sua música, mesmo cantada por outras vozes.
Criar esta orquestra teve muita reflexão por trás. Nós ganhámos um espaço com a Cesária e com o seu desaparecimento ou conseguíamos ter alguma coisa ligada a ela que contentasse o público ou íamos perder esse espaço. Começámos a fazer alguns tributos e homenagens, pedidos por alguns países, e depois decidimos continuar a manter a banda, procurar vozes que pudessem integrar essa banda e continuar a divulgar o repertório que levou muitos anos de trabalho e que não se podia perder assim. Foi um risco, podia funcionar ou não, mas estou muito contente com o resultado. Mesmo muitos profissionais amigos disseram-me que estava doido em arriscar assim.
Provavelmente, seria mais fácil optar por reedições dos discos de Cesária.
Pois, mas assumi o risco porque conhecia os artistas. Para mim é uma das melhores bandas de África. São muitos anos a tocarem juntos, há uma simbiose perfeita em palco. Aliás, quando convidamos artistas brasileiros ou africanos e dizemos que vão actuar com a banda da Cesária eles vêm com confiança. E isso não se podia perder.
Agora já não há Cesária, mas há a voz doce da Nancy Vieira e o vozeirão da Jennifer Soledad, foram as escolhas ideais?
Eu escolhi essas meninas porque queria guardar o espírito de Cesária naquelas mornas e naquelas coladeiras que são ideais para a voz doce da Nancy Vieira, mas queria também algo mais contemporâneo, para chegar a um novo público, e a Jennifer tem uma voz muito interessante que consegue ir ao jazz e ao blues. Conseguimos misturar o clássico e o contemporâneo sem perdermos o espírito de Cesária.
O Atlantic Music Expo foi também muito falado neste WOMEX. O AME é um produto cada vez mais apetecível?
O AME funcionou muito acima das nossas expectativas, para falar francamente. Ainda o Mário não era ministro e já me falava de criarmos um mercado. Sempre achei impossível porque não tínhamos mercado para isso. Quando entrou para o ministério eu já tinha iniciado o Kriol Jazz, onde havia encontros de artistas. Foi na altura que lhe disse que podíamos aproveitar os encontros que havia no Kriol Jazz para desenvolvermos a ideia dele de mercado. Foi quando surgiu o fórum da cultura, com 15 profissionais, entre eles o presidente do WOMEX. A força do AME é essa, não se fez de um dia para o outro, houve toda uma caminhada que vem desde o Kriol Jazz. Na altura falei com a Câmara da Praia, a quem propus que retirássemos os encontros do Kriol Jazz e os passássemos para a AME e, felizmente, a autarquia e o ministério puseram-se de acordo e isso foi formidável. Tudo funcionou porque o próprio presidente da câmara é alguém que gosta muito de cultura e teve a inteligência de conseguir separar a cultura da política.
Uma das coisas que todos falam é do modelo do AME, de uma exposição de música aberta ao público e ao povo cabo-verdiano. Isto foi pensado desde o início ou surgiu por acaso?
Foi pensado e é uma ideia tripartida do presidente da WOMEX, do Mário e de mim. Sempre soubemos que não podíamos fazer um WOMEX em Cabo Verde porque não tínhamos profissionais suficientes. Foi aí que pensámos: as conferências e os encontros seriam entre nós, entre pessoas que falam a mesma linguagem, mas, os showcases teriam de ser levados para o povo. A história dos stands foi igual, porque se só os cedêssemos a profissionais teríamos uns cinco, por isso resolvemos abri-los a todos. A ideia não foi bem entendida no primeiro ano, mas no segundo já houve uma adesão forte. E este modelo já está hoje a ser copiado por outros. Eu estive há pouco na Malásia e eles perguntaram-me o que deviam fazer para que o mercado funcionasse e eu disse para abrirem ao povo. Em Abidjan também já acontece a mesma coisa, abriram o mercado para o público. Por isso, penso que o nosso modelo é o futuro dos mercados.
O futuro do mercado, foi também referido em várias conferências, será o continente africano. Cabo Verde já tem uma estratégia para entrar nesse mercado?
Ter, temos, mas, será que o governo entende isso? Não tenho a certeza. Sei que o ministro da cultura também tem essa ambição, mas duvido que os outros políticos pensem assim. E este é o momento. Basta ver que a Universal vai ter novos escritórios no Senegal, a Sony vai também para o continente, e estão a fazer isso porque sabem que lá está o futuro. Hoje fala-se em mais de 600 milhões de smartphones em África.
Aí já falamos do mercado online. Os produtores cabo-verdianos estão preparados para concorrer nessa plataforma?
Ainda não chegamos lá. Bem, eu, na Harmonia, estou preparado. Aliás, toda a nossa promoção está nas plataformas online desde o início. Os outros produtores estão a trabalhar de forma mais lenta. Estou farto de lhes dizer para apostarem no online.
Porque uma das queixas que mais se ouve em Cabo Verde é que o mercado é pequeno, mas através da Internet pode-se ter acesso ao mercado mundial.
Pois.
Duas últimas questões. Para o Djô produtor como está a correr este WOMEX?
(risos) Está a correr bem. Principalmente porque tenho aqui muitos amigos que também fazem a promoção. Porque como tenho o stand de Cabo Verde, desde há três anos, tenho menos tempo para fazer o meu trabalho.
Além do Djô, temos aqui também outros produtores como o Paulo Bettencourt e o Gugas Veiga, vocês dão-se bem, apesar de serem concorrentes?
Sim. Esses dois que falaste são pessoas muito próximas e é bom que estejam aqui. Já tivemos outros produtores que vieram, não entenderam, nem pediram para entender. Eu, quando me pedem, ajudo sempre. Como disse, ganhámos já um espaço e não o devemos perder.
Todos os caminhos foram dar a Santiago

Pode-se afirmar, sem exageros, que esta edição da WOMEX foi a edição do AME e da Lusofonia. O festival de música do mundo de Cabo Verde (AME) foi largamente elogiado e dois dos três prémios atribuídos foram para falantes de português: o ministro da Cultura cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa (Prémio de Excelência Profissional) e a fadista portuguesa, nascida em Moçambique, Mariza (Prémio de Melhor Artista). E Compostela foi o palco gigante do evento mais importante da World Music, como o considera a UNESCO.
Três raparigas, mochilas carregadíssimas às costas e amparadas nos bastões de caminhada, passam pelo centro histórico. De uma mesa na esplanada irrompem aplausos. Uma delas saúda os desconhecidos. Sabem que a peregrinação está a cinco minutos de terminar, logo à frente fica a Catedral de Compostela, o destino dos vários caminhos de Santiago com diversas origens pela Europa fora. Atrás, numa loja que vende quase tudo (de isqueiros a espadas), ouvem-se os sons célticos naturais da Galiza. À frente, num café/bar/restaurante, Elvis Presley uiva o “Only youuuu’. Num beco ali ao lado uma cantora de rua, olhos fechados e vestido vermelho, entoa o “Piensa en mi” com uma perfeição que encheria de orgulho Luz Casal e sentado a uns metros um rapaz de rastas dedilha com mestria o Concerto de Aranjuez na guitarra.
Esta é a cidade que recebe a vigésima edição da WOMEX – Santiago de Compostela, no noroeste de Espanha, a meio caminho entre Vigo e a Corunha, seguindo pela estrada da Costa da Morte, nome que recorda os numerosos naufrágios que aconteceram nos seus escolhos (também se pode ir pela auto-estrada, mas não tem metade da piada). Compostela, a cidade onde o sagrado e o profano convivem porta a porta. Cidade ela própria fisicamente dividida pela Praça da Galiza, a fronteira entre a Santiago moderna e o casco histórico e medieval. Que melhor cenário para acolher a feira internacional da música que faz do multiculturalismo a sua imagem de marca?
A noite de abertura mostrou logo ao que íamos. A actuação da galega Mercedes Péon talvez seja a forma mais fácil de explicar o que é isso da World Music: tradição e modernidade lado a lado, pandeiretas e tambores, guitarra, tudo ligado através de loops e batidas electrónicas que envolvem aquela senhora pequenina, de calções, botas da tropa e cabelo rapado. E a voz, senhoras e senhores, a voz. Só pode ser esta a voz das sereias que enlouquece os marinheiros e faz com que estes arrombem os costados dos navios para irem ter com elas. Seguiu-se a festa canarina com o tocador de timple (uma espécie de cavaquinho) Germán López, o fado pós-moderno do português António Zambujo, o jazz/flamenco de Jorge Pardo, o tradicional galego de Xabier Díaz (com as adufeiras de Salitre numa percussão atordoadora que deve ter acordado o Santo Yago), o delírio com os bascos Oreka TX a tocarem as Txalapartas (uma espécie de xilofone vitaminado feito de ripas de madeira ou pedra e em que as baquetas se usam na vertical e não na horizontal) e o regresso dos sons galegos na gaita-de-foles de Budiño e no Bouzouki (parecido com a guitarra portuguesa) de Fernando Barroso.
Os sons de Cabo Verde ouviram-se na noite a seguir, quinta-feira, quando a Orquestra Cesária Évora subiu ao palco do Auditório Abanca, em pleno centro histórico, às 21h30 em ponto. Sala cheia para acolher as mornas e as coladeiras da Diva dos Pés Descalços, agora interpretadas por Nancy Vieira, naquele tom doce como mel quente, e por Jennifer Soledad, com aquele vozeirão que até faz tremer as paredes do teatro. Quando soam os primeiros acordes de “Carnaval de São Vicente” o público salta das cadeiras, incapaz de segurar o corpo por mais tempo, e enquanto se canta “São Vicente é um brasilin/Chei di ligria chei di cor/Ness três dia di loucura/Ca ten guerra ê carnaval/Ness morabeza sen igual” já a frente do palco se transformou numa festa desenfreada (e, diga-se, ligeiramente desengonçada, que aquela malta não tem o requebro crioulo). Em resumo, o legado de Cesária está em boas mãos, ou, no caso, em boas vozes.
Um dos espectadores mais atento, logo nas primeiras filas, era o basco Mikel Ugarte, um dos tocadores de Txalaparta dos anteriormente referidos Oreka TX, que só conhecia a música cabo-verdiana em disco e nunca a tinha ouvido tocada ao vivo. No final do concerto estava rendido ao grupo crioulo. “Fiquei encantado”, confessou ao Expresso das Ilhas, “é incrível como soam tão limpos, tão redondos, deixando espaço para cada um dos músicos”. E entre estes houve um que lhe despertou mais a atenção, o jovem pianista Kali. “Este rapaz só pode ser um santo”, disse.
Nancy Vieira, mais habituada a estes périplos internacionais, não evitou emocionar-se quando, em palco, recordou que Cesária tinha estado no primeiro WOMEX, vinte anos antes. Mais tarde, em conversa breve com os jornalistas, confirmou que tinha sido uma “emoção muito grande partilhar o palco com estes músicos e interpretar as músicas” que ouviu como espectadora. “O espírito de Cesária está sempre connosco”. Já Jennifer Soledad irradiava no sorriso o que aquela noite tinha representado: “é um sonho. Sentimos o público a vibrar e isso deu-nos força, foi uma troca fabulosa”.
Cabo Verde subiu a mais três palcos. Duas vezes na Cidade da Cultura – um conjunto de edifícios imponentes às portas de Compostela, que imitam o ondulado das colinas que o abriga – uma para apresentar o Atlantic Music Expo, cujo modelo foi muito elogiado pelo brasileiro Flávio de Abreu e pelo inglês Bryn Ormrod, que se confessaram encantados com a proximidade conseguida com o público cabo-verdiano, algo que não acontece em outras feiras de World Music, a segunda para que os presentes ficassem a conhecer melhor o ministro da cultura, que foi entrevistado ao vivo pelo jornalista holandês Bram Posthumus. A derradeira presença em cena serviu, no último dia do festival, para agraciar Mário Lúcio com o Prémio de Excelência Profissional da WOMEX. Galardão que o ministro da cultura dedicou a Cabo Verde e à delegação que o acompanhou.
Começou na quarta-feira, terminou no domingo. Pelo meio, a vigésima edição da WOMEX foi um fervilhar de encontros, workshops, concertos, conferências, showcases, apresentações, filmes e contactos entre jornalistas, produtores, músicos, programadores, promotores e agentes de noventa países. Movimentou cerca de três mil pessoas e foi uma plataforma de onde a “música emanou de Santiago para todo o mundo”, como disse Alberto Núnez Feijóo, presidente do Governo Regional da Galiza.
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