O fim da erupção no Fogo ainda é uma incógnita. Semanas, um ou dois meses talvez, aponta o geólogo Alberto da Mota Gomes. E agora que o pior, em termos de danos materiais, já terá passado, é altura de olhar pela saúde pública, criando equipas multidisciplinares para seguimento e minoração dos efeitos da actividade eruptiva. Em conversa com o Expresso das Ilhas, o primeiro geólogo cabo-verdiano fala-nos desta e de uma outra erupção, a de 1995, que seguiu desde a primeira hora. Recorda-se o passado, discute-se o presente e olha-se o futuro. Uma coisa é certa, depois de uma erupção, pouco ou nada fica igual.
O escritório de Alberto da Mota Gomes, figura incontornável da Geologia em Cabo Verde, mostra toda uma vida dedicada a esta ciência. Entre cartografias e tabelas destacam-se algumas fotos, memórias de uma outra erupção do Vulcão do Fogo, a de 1995, de cujo seguimento foi nomeado responsável pelo governo de Cabo Verde.
Mas essa não foi a primeira erupção que “viveu” durante os seus já longos 79 anos de vida. Comecemos pelo início. Alberto da Mota Gomes era ainda um jovem quando, em 1951, surgiram na Praia notícias e fotografias esparsas que davam conta do acordar do vulcão da vizinha ilha do Fogo.
“As informações eram pouquíssimas, praticamente era só fotografias e mais nada, porque não havia literatura alguma”, recorda.
Apesar da falta de informação, este fenómeno natural acabaria por ter uma grande influência na vida de Mota Gomes e determinar a escolha da sua área profissional. Conforme nos conta, ficou “apaixonado pela Geologia, onde está incluída a vulcanologia” e sobre a qual tinha já alguns conhecimentos.
“De modo que toda a minha vida foi sustentada por esse fenómeno,” revela. A par da erupção, tinha à sua volta muita gente que gostava da área, o que também acabaria por reforçar e definir este gosto.
O início da profissão
Mota Gomes terminou o liceu em Portugal e tirou o curso de Ciências Geológicas na Universidade de Coimbra. Seguiu-se um estágio sobre “Geologia de Cabo Verde”, no Centro de Geologia do Instituto de Investigação Científica Tropical (então designado de Junta de Investigação Científica de Ultramar) em Lisboa. Quando regressou a Cabo Verde, após a sua formação superior veio apetrechado de conhecimentos e documentação para pôr ao serviço das suas ilhas.
Mas não veio só. Contou com a presença regular, de dois colegas portugueses que ainda hoje admira e de quem diz terem tido grande influência na sua dedicação à geologia: António Serralheiro, professor catedrático da Universidade de Lisboa, e Celestino Silva, da Junta de Investigação Científica de Ultramar. São geólogos que fizeram um vasto trabalho em termos cartografia geológica de Cabo Verde, e cuja equipa Mota Gomes integrou.
“Tenho que dizer que aos três, efectivamente, Cabo Verde deve o conhecimento geológico em todas as ilhas”, frisa.
Ao longo do seu percurso profissional, acompanhou também diferentes etapas do país sempre sob a égide da ciência que o movia. Esteve “bem por dentro” da criação da Brigada de Águas Subterrâneas, ainda antes da Independência.
“Eu era o único geólogo na altura residente em Cabo Verde. Com o engenheiro de minas Jorge Querido fiz uma dupla” de trabalho em termos de recursos hídricos, área de suma importância para o país. A hidrologia é aliás a sua grande paixão e aquela em que se especializou.
Mota Gomes é também renomado professor, tendo formado uma série de jovens geólogos, geógrafos e afins. Primeiro, enquanto professor da Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário, uma das entidades que originou a Universidade de Cabo Verde, e depois como professor da universidade pública.
“Agora já estou reformado, mas continuo a apoiar sempre a Uni-CV e as repartições que trabalharam em geologia e recursos hídricos”, conta.
Continua pois atento a tudo o que se passa nas ilhas, observando com o olhar científico apaixonado os fenómenos pelos quais o arquipélago passa. Incluindo a actividade vulcânica. E 1995 foi um ano-chave.
O rugido de 95
O vulcão da ilha do Fogo é, como se sabe um vulcão activo, “que tem dado sinais de vida permanentemente”. De vez em quando, mesmo sem erupções, um ligeiro tremor de terra vem relembrar que ainda está vivo.
Em Abril 1995, Mota Gomes estava no Fogo numa das várias saída de campo para as ilhas que enquanto docente da então Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário costumava organizar. Era o titular de Geologia e todos as áreas relacionada, incluindo a hidrologia, mas também a vulcanologia e sismologia e usava os seus contactos pessoais (muitos dos quais conseguidos através do futebol - outra das suas grandes paixões) para levar os alunos a diferentes locais.
Dessa vez, o destino foi o Fogo. Cerca de 40 estudantes, de geologia, biologia, e geografia, tinham chegado há uns dias e as saídas/aulas de campo recorriam com normalidade. Hidrologia e acontecimentos vulcânicos eram os temas em destaque, mas ainda não sabiam que esta seria tudo menos uma saída de campo rotineira.
Na noite de 2 de Abril, alguém bate à porta do quarto de Mota Gomes. “Doutor, doutor, é bom que se levante porque ao que parece vai haver uma erupção vulcânica. Os mais velhos dizem que o vulcão está a acordar.” Mal o aviso foi proferido ouvem-se, em São Filipe onde os académicos pernoitavam, dois estrondos seguidos. Sentiam-se também pequenos abalos.
A sagesse não enganou. Cerca de uma hora depois, começava a erupção. As aulas de campo foram substituídas pelo seguimento da actividade eruptiva.
Rapidamente, o Governo “decidiu nomear-me oficialmente responsável pelos trabalhos, como mandatário do governo da República de Cabo Verde. Podíamos trabalhar à vontade.”
Antes da viagem com os alunos, Mota Gomes tinha analisado toda a documentação disponível sobre o vulcão e Chã das Caldeiras, para o apoio das aulas, de modo que quando se “deu a erupção estava completamente identificado com o que podia suceder”.
Assim foi. E o que vivenciou, nunca mais esqueceu.
2014, mais apocalíptico
A erupção de 1995 durou cerca de dois meses. Foram engolidas diferentes áreas, infra-estruturas e equipamentos. Cerca de 30 a 40% da “paisagem” de Chã das Caldeiras, terá mudado, avalia Mota Gomes.
Desta vez, com a corrente erupção de 2014, “vai haver mais” mudanças, diz perante os factos que lhe chegam à Praia, onde acompanha, através de vários meios, a nova “desgraça enorme para o país”.
Em termos de apoio e resposta à situação, “fez-se muita coisa relativamente à erupção anterior”. “Fez-se muito e bem”, considera o geólogo. No entanto, no que toca ao actual Serviço de Protecção Civil é preciso ainda avançar em questões complementares, para que efectivamente a população de Chã das Caldeiras se sinta mais sossegada e tenha menos constrangimentos perante as adversidades naturais.
Situações tensas e de conflito como as que se assistiram entre população e autoridades, nomeadamente a Polícia Nacional, devem ser resolvidas sem recurso a “pauladas” ou qualquer forma de violência. Nestas situações, sensibilidade e acções tranquilizadoras são necessárias salienta. De qualquer forma, “as coisas estão a mudar, já se fez muito e melhor”, reitera.
Além da melhoria em termos de actuação das autoridades competentes em casos de emergência, também outras entidades se mobilizaram prontamente para prestar auxílio às populações afectadas.
Houve uma melhoria “tremenda. Não se compara”, em relação a 1995. Toda a corrente de apoio gerada “é uma coisa fabulosa”. “Toda a gente quer saber mais, e quer ajudar, mesmo em termos monetários”, realça. As ajudas têm chegado de vários pontos do país e do globo e continuam a fluir.
Para isso também terá contribuído o frenesim mediático criado à volta da catástrofe, que permite que Cabo Verde e o mundo tenham conhecimento quase em tempo real do que se passa no flagelado Fogo. Algo muito diferente dos parcos media de 95.
Uma outra questão colocada ao decano prende-se com a localização do edifício sede do Parque Natural do Fogo, construído no ano passado, inaugurado em Março, e financiado pela cooperação alemã. A obra, que custou cerca de 120 mil contos, foi consumida pelas lavas neste domingo.
“Não digo que foi dinheiro deitado fora, na altura tudo se conjugava para que se fizesse ali. Era a zona ideal”, e prova disso era a quantidade de visitantes que todos os meses acorria a esta zona de grande potencial turístico.
O vulcão - inclusive em termos de agricultura - “sempre foi fonte de receita”, salienta. Aconteça o que acontecer (agora), antecipa que assim continue.
Prever erupções
Em 1995, nada fazia prever a erupção que aí vinha. Ainda hoje, 19 anos decorridos e com os avanções científicos que se foram conseguindo, é praticamente impossível definir data e horas certas para uma erupção. Há indícios, é certo. “Por exemplo, a sismologia ajuda bastante. Tremores de terra não muito fortes” são sinais de alerta, explica o geólogo. Isto porque são sinal de que o magma, que está no interior, está a começar a subir, e para ascender à superfície tem “arranjar espaço”, empurrando as rochas e fazendo-as “ranger”, “estremecer”. “À superfície vêm gases e logo a seguir vem o magma, esse material fluído que é o responsável pela trepidação que vai havendo e que dá origem ao sismo. “
Há, pois, sinais de que é preciso tomar precauções, mas, salvaguarda, prever uma data em concreto para a ocorrência de uma erupção, a médio ou curto prazo, “é complicado. Não se consegue, mesmo.” Resta apenas estar atento.
Em 95 tinham-se passado 44 anos desde a última actividade eruptiva. Agora, em 2014, apenas 19. Menos tempo. O espaçamento é cada vez menor, “nitidamente”.
“Isso mostra que é preciso ter cautela e fazer um seguimento contínuo de erupção vulcânica. Já alertei para isso. Há cerca de dois, três meses que já se falava disso, mas toda a gente tinha medo de dizer ‘vem aí uma erupção’”, até porque, como referido, datas certas são difíceis de definir.
A consciência destes fenómenos, não servindo para uma previsão concreta, deve pelo menos exortar a maiores cuidados para evitar situações de desespero, aponta.
“Não vou dizer daqui a X anos vai haver uma erupção, mas é provável que dentro de relativamente pouco tempo haja uma nova actividade eruptiva”, vaticina.
O que certamente não irá acontecer é uma destruição total da ilha, uma vez que a vulcanologia de Cabo Verde não aponta, em nada, para essa visão. “Temos é de saber que vamos continuar a ter erupções pontuais, mas não de grande extensão”.
Quanto ao surgimento de uma nova ilha, o geólogo essa hipétese pouco viável: “houve uma grande quantidade de técnicos com uma certa qualidade” a alertar para esse facto. “Não quer dizer que não venha a acontecer, mas o mais verídico é não acontecer, por isso vamos parar com essa ‘brincadeira de mau gosto’”.
O drama humano
Alberto da Mota Gomes é, e sê-lo-á até ao final dos seus dias, um investigador, um geólogo apaixonado. Mas se por um lado não esconde o entusiasmo de verificar um fenómeno do tipo eruptivo, por outro revela pesar pela tristeza das populações afectadas.
São, conforme observa, pessoas que não conhecem outra casa que não Chã das Caldeiras, desoladas por perderem as suas moradias e o seu pedaço de terra para a agricultura. Perdem o seu espaço para serem albergadas em habitações que não são lar, com pessoas que não conhecem, dependentes de terceiros, em cidades onde são estranhos.
“Eles mesmo disseram, agora podem-nos tirar daqui, iremos até livremente, mas logo que não haja perigo, voltaremos a Chã das Caldeiras, novamente”, salienta Mota Gomes.
O amor à terra é pois maior do que o temor a reviver a perda. E por isso o geólogo não tem dúvidas de que as pessoas vão voltar para a zona, criando nova povoação no sopé do vulcão.
De qualquer forma, aquilo que foi, até há semanas atrás, Chã das Caldeiras “não pode ficar abandonado, mesmo que seja a título póstumo, é importante dizer ‘aqui foi Chã das Caldeiras”, destruída em 2014. É, pois, preciso “não deixar esquecer Chã das Caldeiras que “teve um desempenho altamente positivo no país”,
Além disso, acredita, haverá sempre zonas aráveis de Chã que serão poupadas e ficarão mais férteis.
Quanto à duração desta erupção que começou na manhã de 23 de Novembro e que já consumiu mais de 400 hectares de terreno – mais de 25 dos quais férteis para a agricultura - , além de várias habitações, equipamentos e infra-estuturas importante – não é fácil de prever.
Para tristeza de muitos, Natal e Ano Novo deverão ser passados no centro de Acolhimento, com o vulcão ainda em erupção, estima o geólogo.
Saúde Pública, a nova prioridade
Em termos de destruição, o pior já passou. Primeiro, porque infelizmente já “há pouco para destruir” na zona. Depois, porque agora as lavas terão mais dificuldade em avançar uma vez que irão encontrar obstáculos (rochas) pelo caminho.
Depois da fase da acção das entidades Administração Interna, em primeiro plano, surge agora a fase da resposta da Saúde.
É preciso actuar de imediato a nível de saúde pública. Alberto da Mota Gomes lançou o repto, em entrevista ao Expresso das ilhas, pouco antes desta questão passar a ocupar “tempo de antena” significativo. No entanto, desde ontem que se nota um aumento face a essa questão.
De acordo com a RTC, esta terça, 2 de Dezembro, “os cerca de trezentos antigos moradores da Chã das Caldeiras, que foram desalojados pela erupção vulcânica e acolhidos no centro de Achada Furna, estão globalmente bem de saúde, não apresentando qualquer problema que possa ser imputado ao fenómeno”. No entanto, a VOA news, referia que dez pessoas que tentavam salvar os seus pertences tiveram de ser internadas devido à inalação dos gases emitidos pelo vulcão.
“Entretanto, segundo o delegado de Saúde na ilha, Luís Sanches, a situação dos doentes não inspira grandes cuidados e estão a ser tratados sem preocupação de maior”, refere a mesma fonte, também esta terça-feira.
Ministério da Saúde e delegacias de saúde avançaram, também, que o seguimento já estava a ser feito.
Vómitos, dores abdominais, dificuldades na respiração são alguns dos sintomas causados pela inalação de dióxido de enxofre, que pode também provocar problemas de pele.
Voltando à nossa entrevista com Alberto da Mota Gomes, o conselho deixado é que o pessoal de saúde trabalhe em conjunto com o pessoal do terreno, fomentando a saúde pública para “apoio aos trabalhos da erupção vulcânica”, e incluíndo os geólogos e outros especialistas.
Acima de tudo, é preciso calma, trabalho conjunto e apostar de facto na defesa e protecção das pessoas. “Isso é que é fundamental neste momento”, diz.
De resto, nada será como dantes, mas também nunca o é.

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