O escritor Germano Almeida, ou, o contador de histórias, como prefere ser chamado, esteve na abertura da Feira da Palavra da Praia. Oportunidade aproveitada pelo Expresso das Ilhas para esta conversa com o autor natural da Boa Vista, onde se falou de Cabo Verde, da língua e, essencialmente, de literatura e criação literária.
Expresso das Ilhas – Cabo Verde é independente há quarenta anos. Das calças roladas aos sapatos de marca, o que mudou no país?
Germano Almeida – (risos) Mudou muita coisa. Penso que quando comparamos Cabo Verde antes e depois da independência, não é só a questão do marco histórico, de facto, há uma mudança profunda em Cabo Verde. Costumo dizer que a independência significou uma revolução em Cabo Verde, significou uma mudança em tudo o que nós fomos e que estamos a ser agora. Claro que, como em todas as revoluções, é um processo que leva tempo e não sabemos para onde vai. Há uns anos atrás perguntaram a um dirigente chinês que opinião tinha sobre a revolução francesa e ele disse que não podia ter ainda uma opinião porque aconteceu há tão pouco tempo e já tinham passado 200 anos (risos). De facto, estamos ainda num processo revolucionário, de vez em quando com retrocessos, mas a revolução depois recupera e segue o seu ritmo e creio que o Cabo Verde antes da independência não tem nada a ver com o Cabo Verde que temos hoje.
E até onde irá essa revolução?
Espero que nos leve a cada vez mais coisas boas. O meu grande receio é os cabo-verdianos empolarem tanto Cabo Verde que a gente não tem a consciência dos nossos limites. Nós conseguimos muitas coisas em Cabo Verde graças à ajuda internacional, se não fosse isso não conseguiríamos. Gerimos bem essas ajudas, o que foi uma coisa óptima para Cabo Verde. Essas ajudas estão a diminuir e temos de ter consciência que os nossos meios nacionais são extremamente reduzidos, para não dizer quase nulos, não temos nada para exportar, fora mão-de-obra e mesmo essa mão-de-obra não está a ser bem qualificada para estarmos em condições de exportar. Penso que são essas falhas que temos de ter em conta. Porque a verdade é que nós adoramos Cabo Verde, o cabo-verdiano acima de tudo ama Cabo Verde. Mas, não chega, porque para continuarmos a prosseguir Cabo Verde temos de ter formação. A massificação do ensino foi uma das coisas óptimas para Cabo Verde, mas continuo a dizer que é necessário criar elites. Nenhum país funciona sem elites, não tenhamos ilusões. E nessa criação de elites estamos a desperdiçar demasiado tempo.
Falta um grupo de lidere os outros?
Exactamente. Tem de haver líderes e nem toda a gente é líder nem toda a gente nasce para ser líder. Fulano não é líder por ser filho de A, B ou C, é líder porque mostra que tem condições para isso e nós precisamos de valorizar essa gente. É nesse sentido que eu digo que nesse aspecto de educação, de formação, de instrução, estamos a falhar.
Um escritor pode ser um líder?
Pode ser líder de alguma coisa (risos), nunca pensei muito nessa questão. Posso reconhecer que posso liderar algumas coisas, mas sempre pontualmente. Imaginemos que é necessário fazer alguma coisa, se não houver mais gente a avançar, ok, eu avanço. Mas, costumo sempre dizer: se houver gente disposta a fazer o que eu tenho de fazer, deixo avançar.
Mas, vejamos este exemplo, entre a nova geração praticamente não há escritores jovens, escritores que mudem e moldem a realidade, capazes de iniciar um processo de transformação. Tem alguma explicação para este fenómeno?
Uma eventual explicação pode ser o facto de as pessoas estarem com demasiada pressa. O próprio mundo ficou demasiadamente apressado. Confesso que levei cerca de 30 anos a escrever até publicar a minha primeira história, nem foi o meu primeiro conto, ou o meu primeiro livro. Os jovens têm muita pressa, é quase como se o mundo fosse acabar rapidamente e então escrevem um conto, já se julgam escritores e querem publicar. O melhor é que continuem a escrever, porque aprendemos fazendo. As pessoas dizem-me: você escreve bem, eu fico contente mas, de facto, estou a escrever desde os 16 anos e até quase aos 50 sem preocupações de publicar. Ou quando me dizem: você está a escrever cada vez melhor, pois é natural, escrevo cada vez mais (risos). Depois, há outra questão, os jovens dominam mal a língua. Por exemplo, podem ter muita imaginação, podem ter uma grande experiência, mas o nosso instrumento de trabalho é a língua portuguesa e está a haver um desacerto entre nós na assunção que a língua portuguesa é nossa. Eu continuo a insistir na necessidade de cultivarmos a língua portuguesa como língua cabo-verdiana, mas a verdade é que é uma necessidade, não é um luxo. Cabral já dizia que a língua portuguesa foi a melhor herança que os portugueses nos deixaram. O Cabral é tão admirado em Cabo Verde, toda a gente fala no Cabral, mas essa coisa elementar que Cabral diz toda a gente esquece.
O crioulo não pode servir para porem essa imaginação em palavras?
Poderia ser. Se eles conseguissem escrever uma boa história em crioulo, podia-se depois traduzir, perfeitamente. Muitos escritores do País Basco dizem que escrevem em basco e depois traduzem para castelhano. Podia-se fazer isto. Mas, o problema é que nós também não dominamos o crioulo escrito. Falamos crioulo, mas não dominamos a escrita. Confesso que tenho alguma dificuldade em ler crioulo, portanto não posso avaliar esses livros, mas se fossem bons, poderiam ser traduzidos. Seria uma coisa boa, aliás, termos livros em crioulo traduzidos para português. O problema é mesmo dominar o crioulo escrito a ponto de escrever um livro.
Então, implementar o crioulo nas escolas sem essas regras é dar um passo maior do que a perna?
Pode não ser grave. Poderemos vir a padronizar de facto um crioulo, porque as pessoas vão aprendendo e vão experimentando. Porque também não podemos esperar uma padronização antes de começar a ensinar porque não sabemos quando é que isso vai acontecer. Estou convencido que é uma questão de tempo até termos um crioulo único. Cabo Verde antes da independência era formado por ilhas distantes umas das outras. Neste momento, fora quando há mau tempo, fora quando há um avião estragado (risos), podemos tomar o pequeno-almoço em Santo Antão, almoçar em São Vicente e jantar na Praia. Há uma mistura de gentes das ilhas e um dia qualquer surpreendemo-nos com um crioulo único. Acho que devíamos esperar por isto. As pessoas de Santo Antão têm uma expressão que é: o tempo é o real das coisas e, de facto, isto é verdade. O tempo realiza e transforma em verdade tudo e às vezes temos demasiada pressa na afirmação de determinadas soluções que nem sempre são boas para nós.
Se lermos nas redes sociais, por exemplo, alguém de São Vicente ou alguém da Praia a escreverem em crioulo parecem duas línguas totalmente diferentes.
Por enquanto. Confesso que quando encontro o crioulo da Praia tenho alguma dificuldade em ler e se for um texto muito grande já não leio (risos). Mas, se reparar bem, já há muitas unificações. É evidente também que os jovens, nas redes sociais, têm uma linguagem que não tem nada a ver com o crioulo quando vier a ser. Porque usam a linguagem económica que usaram nos SMS.
Voltando ao escritor. Disse atrás que escreveu durante 30 anos antes de publicar o primeiro texto e publicou porquê, para parar de reescrever?
(risos) Não, mas foi uma circunstância curiosa. Eu escrevia muito, aliás, escrevi imensos livros que nunca soube deles. Quando resolvemos publicar a Ponto e Vírgula, eu, o Leão Lopes, o Rui Figueiredo, pensávamos que havia muita gente com coisas para publicar e com vontade de publicar. Escrevemos, na altura, uma circular para pedir colaborações e recebemos muitos textos dos escritores antigos, Baltazar, Aurélio Gonçalves, o Dr. Rendall, Manuel Lopes, João Lopes Filho, dos jovens nada! A gente tem, a certa altura, de publicar a revista e não temos material suficiente para o número e eu assim muito timidamente disse ao pessoal que tinha uns contos, umas histórias, resolvi dar-lhes para lerem e disseram que tinham gostado e foi nessa altura, aliás, que o Leão me perguntou se eu tinha lido o Garcia Marquez, que eu desconhecia, então ele emprestou-me o Cem Anos de Solidão e eu adorei o livro. Bem, quando li o livro fiquei à vontade, se o Garcia Marquez escreve o Cem Anos de Solidão e ganha o Prémio Nobel, eu que não tenho essa ambição posso escrever o que quiser (risos). Começámos então a publicar umas histórias que acabei por transformar no livro A Ilha Fantástica e foi assim que comecei. Isto acaba por se transformar numa bola de neve porque escreve-se, as pessoas gostam e começamos a ganhar confiança e ganhando confiança continua-se.
É curiosos que fale no Garcia Marquez, o autor do realismo mágico, porque penso que na sua escrita há uma voz sul-americana. Confesso que quando comecei a ler o Testamento do Sr. Napumuceno, há muitos anos e sem saber nada do escritor, pensei que era um livro de um brasileiro.
(risos) Pois é. Aliás, mesmo quando publicaram o Testamento [do Sr. Napumuceno] em Espanha puseram uma frase do género: se Garcia Marquez fosse cabo-verdiano escreveria este livro, uma coisa assim parecida. O problema é o seguinte, a minha forma de escrever tem muito a ver com a minha infância, contador de histórias. Aliás, eu quando digo que sou contador de histórias e não escritor as pessoas pensam ‘Ah é bazofaria, uma forma de se desresponsabilizar’, mas não é verdade. Eu sinto-me um contador de histórias. Eu estou a falar consigo como se estivesse a contar uma história, porque quando escrevo, escrevo sempre para alguém. Se não tenho alguém com quem estou a contar uma história, a história não me sai.
Além de contar a história a alguém, qual é o processo criativo? Por exemplo, como encontra a primeira frase do livro? É obcecado, digamos pela abertura de cada livro?
Sim. Por exemplo, nunca começo a escrever se não tiver nada para escrever. Digamos que quero escrever uma história, tenho de me convencer primeiro da história e fico sempre à espera daquela primeira frase que me dá o início da história. Mas, enquanto ela não chega também não me preocupo.
Não é daqueles escritores de fazer esquemas, portanto?
Não, não. O único livro em que tentei fazer isso foi com a Família Trago. Aí sim, comecei por esquematizar; primeiro capítulo, tal e tal, mas depois achei que aquilo não tinha nada a ver comigo, estava a forçar a minha natureza. Quando eu escrevo nunca sei como vai ser o segundo capítulo, quando o capítulo acaba é que me vem a ideia da continuação. E também nunca sei quando o livro acaba. Uma coisa curiosa, eu queria acabar o Testamento num certo tempo, um dia qualquer estava a escrever e o homem morre e eu disse: bom, o livro acabou, não tenho mais nada para dizer e pronto, o livro acabou muito antes do tempo que eu pensava que podia acabar. Por exemplo, neste último livro que escrevi, houve um momento que eu disse: gostaria que acabasse assim, como acabou de facto.
Este último livro apareceu depois de ter dito que, se calhar, já não tinha mais nada para escrever, afinal aparece uma obra nova. E agora?
O problema é o seguinte, um bocado a brincar, quando comecei a publicar disse que ia publicar dez livros, quando achava que publicar dez livros era uma infinidade de tempo. Afinal, foi mais rápido que pensava e quando publiquei dez livros descobri que ainda tinha mais coisas para contar e continuei. Este último livro não imaginava escrevê-lo. O Júdice, que está a dirigir o colóquio de letras da Gulbenkian, pediu-me que escrevesse um texto sobre São Vicente, escrevi e depois pensei que era um texto interessante que podia ser desenvolvido. Mas, há dias estava no computador e encontrei uma história, passada na Boa Vista e que tinha começado a escrever há muito tempo, e também pensei que era capaz de dar um livro e estou com ele. Quer dizer, às vezes pego, depois deixo, mas sei que um dia qualquer apetece-me e sou capaz de escrever até acabar. Mas, nunca forço a minha natureza porque dá asneira.
E não tem medo que um dia isso acabe, a capacidade de contar histórias?
Não. Aliás, há tanta coisa interessante que posso fazer na vida, escrever é mais uma. Até escrever este último livro tinha passado três anos a divertir-me com leituras, com filmes, com música, sem nenhuma preocupação. Tenho inclusive alguns contos, alguns interessantes, mas teria de pegar neles, reler, para poder publicar. Mas, costumo dizer que alguém há-de fazer isso por mim.
Alguém há-de encontrar as suas gavetas.
Sim, alguém fará isso por mim. Mas, pode ser que os faça também.
É considerado um escritor das ilhas, mas também um escritor universalista, quando do universo pode estar em cada livro?
Li uma vez uma frase do Tólstoi a que achei piada e que dizia: fala da tua aldeia e viras universal. É capaz de ser um bocado isto. Quando as pessoas dizem que a literatura cabo-verdiana tem de ser universalizada, até pode ser, mas eu não tenho essa preocupação. Já as pessoas que os lêem, se acharem que é literatura universal estou de acordo. Eu leio Jorge Amado, principalmente os livros que se passam na Baía, e penso isto tem de ser universal porque podia ter acontecido em Cabo Verde. Houve muitas coisas que escrevi na Ilha Fantástica, que eram tradições da minha ilha, que eu pensava que eram características da Boa Vista, mas depois um amigo da Praia dizia-me que aqui se fazia a mesma coisa. Depois, na Rússia, descobri também tradições que eram iguais às nossas. Isto quer dizer que há uma cultura universal que muitas vezes não damos conta. Isto não quer dizer que escreva para chegar ao mundo, basta-me chegar a Cabo Verde.
Mas, também presumo que não queira que se olhe para a literatura cabo-verdiana como sendo algo exótico.
Não, exótico nunca. Só se fossemos um povo exótico, que não somos. Somos um povo muito ligado ao mundo e não temos exotismos que nos tornem diferentes. A nossa literatura é universal porque somos humanos, temos os mesmos problemas. Agora, temos particularidades, olho pela janela e acho que está um tempo bonito [nublado], porquê, porque para nós um tempo bonito é o que ameaça chuva.
Escrevendo ao seu ritmo, à espera que as histórias cheguem, faz desse processo algo pacífico. Ao contrário do Hemingway, por exemplo, que falava da violência de escrever?
Confesso que quando vejo escritores a falarem da violência da escrita, dos trabalhos que têm, das noites sem dormir, eu digo: bom, felizmente não passei por nada disso. Se tenho uma história para contar, conto. Se não tenho, não posso fazer nada. Nunca me sentei à frente do computador à espera. Na minha opinião, e eu sou apenas um contador de histórias, acho que os escritores exacerbam a sua função, acham que têm um papel demasiadamente importante na sociedade. Eu fui carpinteiro, e adorava fazer bem uma peça, mas fazer bem para mim. A mesma coisa quando escrevo, e releio, e acho que está bem. Nunca me torturei para escrever.
Ao falar em reler fez-me lembrar [Jorge Luis] Borges que dizia que às vezes relia o que escrevia e pensava: isto é bom, deve ser plágio.
(risos) Essa é boa. Essas histórias que eu lhe falei, quando as encontrei e reli, achei-as engraçadas. E é isso, às vezes relemos e pensamos que aquilo está bem escrito.
É fácil libertar-se de uma personagem que o acompanha tantos meses?
Não é nada fácil, porque viram gente, estão connosco, conversam e querem continuar. Por exemplo, o Pepe e a Iara continuam presentes. Eu estava até a pensar em fazer uma história com as personagens das diversas histórias a ver no que ia dar, porque nunca mais nos libertamos deles. E depois há personagens engraçadas. Porque no processo criativo, nós começamos por moldar o personagem e depois ele cria vida. Lembro-me de um personagem que criei para O Meu Poeta que era incapaz de ter um pensamento inteligente, cada vez que falava dizia uma asneira, mas eu não era responsável por isso, era ele. Mas, claro que escrever esse tipo de história ia obrigar-me a ler todos os meus livros e não estou para isso. Nunca mais li um livro meu. Escrevo e depois de publicado acabou.
Mas, não tem curiosidade? Não pensa onde estará aquele personagem vinte anos depois?
(risos) Assim não. Quando penso neles é sempre no presente.
Há um fenómeno curioso, porque não há livros sobre o processo revolucionário? Sobre a luta da independência e tudo o que se seguiu?
De fato, não há.
E quando falo de livros, falo de romances. Ainda é cedo para escrever sobre isso?
Talvez se explique com o facto de não ter ido ninguém para a luta com capacidade de escrever. Costumo dizer que só vamos entender o processo cabo-verdiano, do 25 de Abril para a independência e os anos seguintes à independência, com a ficção. É preciso haver ficção sobre essa altura, porque a ficção tem uma liberdade que a história não tem. Os primeiros tempos pós-independência foram extremamente duros para o povo, principalmente porque a independência pressupunha abundância, mas houve falhas. Eu lembro-me do primeiro ano de Cabo Verde independente, eu estava na Praia, e os navios tinham falhado e não havia os produtos típicos de natal e as pessoas diziam que nesse ano não havia natal. As pessoas faziam fila para tudo, gás, comprar sabão, tudo e é isto que é preciso contar, para as pessoas saberem como foi. É um bom desafio para a nova geração de escritores cabo-verdianos. Exactamente! Deviam pegar nisso.
Para terminarmos, acabar de escrever um livro, e isto dizem vários escritores, é tão triste como o fim de uma relação?
Estou convencido que sim. Normalmente, há um período de nojo, por vezes prolongado. Porque de repente é um vazio, já não tenho o meu companheiro e isso, às vezes, é muito doloroso.
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