MULHERES DE LUTA

PorJorge Montezinho,2 abr 2015 11:24

Se é verdade que cada mulher é um mundo, também é verdade que cada mulher dá a sua contribuição para mudar o mundo.A luta de libertação não foi excepção. Ao lado dos homens estiveram mulheres que partilharam os actos de heroísmo, os momentos de angústia, as horas de medo, os arrebatamentos de coragem. Elizabeth, Ana Maria, Maria Ilídia, Josefina, são quatro rostos dessa história.

 

Há um momento comum nas histórias destas quatro mulheres: todas tiveram a noção desde pequenas que alguma coisa não estava bem e que o colonialismo era a raiz dos problemas que Cabo Verde e outros países africanos enfrentavam. Elizabeth Reis habituou-se a ver o sofrimento dos cabo-verdianos desde muito cedo. Em Santa Catarina, Santiago, onde viveu os primeiros anos, via as pessoas que sofriam nos momentos de seca, nos momentos de crise. Assistiu à partida dos contratados para as roças de São Tomé e Príncipe e o seu regresso de mãos vazias e com as costas riscadas pelas marcas do chicote.“As pessoas viviam numa situação desumana. Não havia apoios às famílias, não havia cuidados médicos, tínhamos falta de tudo”, diz ao Expresso das Ilhas.

A mãe enviuvou cedo, dois irmãos estudavam em Portugal. Elizabeth tem a oportunidade de ir para França, encorajada por uma prima que lá vivia e trabalhava. À chegada a Paris, em 1967, conhece Pedro Pires, apresentado por um conterrâneo também de Santa Catarina.Desse encontro começa o seu comprometimento com a luta pela independência. Assumiu tarefas diversas, nomeadamente de mensageira. Em 68, aproveitando a efervescência que o mês de Maio provocou em França, com as revoltas dos estudantes e o fecho das escolas, desloca-se em missão a Portugal, para entregar correspondência e orientações do secretário-geral do PAIGC, Amílcar Cabral. Tinha de contactar várias pessoas, de quem só conhecia os nomes de guerra; foi quando conheceu Carlos Reis, que viria a ser o marido e pai dos seus dois filhos. No regresso, vai a Conakry prestar contas, mas vai também com uma dupla perspectiva: conhecer melhor a realidade da luta na Guiné e regressar a Paris para continuar o trabalho iniciado, que foi assumindo fases novas. Tinha então vinte e dois anos. Esta nova fase foi, inicialmente, de apoio aos camaradas que saíam de Portugal, fugindo à mobilização para o exército colonial, e depois orientá-los em direcção à sede do secretariado do PAIGC em Conakry. Era Elizabeth quem fazia essa ligação, recebia os bilhetes, comunicava as chegadas deles. João Pereira da Silva, Jota Jota, Eduardo Alhinho, Paula Fortes, Mário Cabral, Hugo Borges, foram alguns dos combatentes que Elizabeth Reis acompanhou. Atendendo à imagem que o PAIGC tinha, na altura, “os estudantes, geralmente, tinham a expectativa de encontrar uma estrutura semelhante a uma embaixada, o que não acontecia, porque o que havia era um pequeno quarto de estudante”, recorda.

Na Europa, sonhava seguir para Conakry. Esteve lá algum tempo, mas a direcção do partido achou que o trabalho mais importante seria em Paris, onde teria a possibilidade de encontrar gente, realizar missões de contato, fornecer informações, transmitir orientações da direção e mandar para Portugal o que havia para mandar, porque esses estudantes que estavam em Portugal é que depois estabeleciam a ligação com Cabo Verde. De cada vez que era chamada a Conakry, trabalhava com crianças, na iniciação à leitura e à escrita, mas acabava sempre por voltar a Paris, onde era um elo de ligação entre a Europa e Cabo Verde, através de Portugal, num trabalho delicado, paciente e clandestino.

As mensagens tinham que ser escondidas e os artifícios usados eram vários. Seleccionava pessoas insuspeitas para a polícia política portuguesa, como um casal francês que foi orientado a passar a lua-de-mel a Portugal e assim levar mensagens, correspondência e revistas, que davam conta da luta na Guiné.

Depois da viagem de 68 as coisas complicaram-se porque as suspeições da polícia portuguesa em relação à sua pessoa transformaram-se em certezas, sobretudo quando Fernando Tavares foi preso com uma carta sua. Certo é que já não podia viajar para Portugal. Nasce a primeira filha. Em Paris, Elizabeth tinha de se sustentar para se manter; cada deslocação significava recomeçar tudo de novo, no plano do sustento material; não se podia contar com a compreensão do patrão francês; os documentos necessários que lhe permitiam viver no país europeu, o cartão de residência e a autorização de trabalho, tinha de ser legalizados. 

Acabou por ser denunciada. Tinha participado numa última missão com Amílcar Cabral, em Argel, uns meses antes da sua morte. Regressa a Paris e no dia seguinte é chamada à polícia. As autoridades francesas são muito claras, disseram-lhe que tinha autorização de residência, que tinha autorização de trabalho, mas estava impedida de fazer política porque tudo o que dissesse, ou fizesse, contra Portugal seria considerado uma atitude contra um aliado de França e que eles teriam o direito de, a qualquer momento, entregá-la às autoridades portuguesas. Passa a ser vigiada. Chegava a casa e a porta que tinha deixado fechada estava aberta, a cómoda mexida. Uma chefe de serviço tenta saber quais são as suas ideias políticas. Adoece gravemente e está em processo de convalescença quando se dá o 25 de Abril.

Começa então a notar pequenas diferenças. Ainda não tinha liberdade para fazer muita coisa mas já não sentia tanta pressão. A vigilância já não era tão apertada. Vem a Cabo Verde no início de 1975, o companheiro, Carlos Reis já cá estava porque fazia parte do primeiro governo de transição.Tem outro problema de saúde e regressa à Europa com a certeza que passaria a festa da independência em Cabo Verde. Isso acabou por não acontecer e só regressa de vez a 30 de Outubro de 75. “É uma lacuna na minha vida. São coisas que não se repetem”, diz.

Em Cabo Verde trabalha no ensino, tarefa que executa até à reforma, com a excepção de um ano em que trabalhou na cooperação. “Nunca quis fazer vida política.Tive momentos tão conturbados, sem vida familiar. Preferi dedicar-me à família e ao trabalho”.

Se pudesse voltar atrás no tempo, Elizabeth Reis garante que faria tudo de novo. “Conheci grandes vultos, homens e mulheres, todos jovens na altura, e ficaram amizades muito boas. As mulheres abraçaram a luta em várias frentes, na luta armada, ligadas à saúde, ao ensino, nas reuniões nas Tabancas. Tivemos um papel importante junto dos homens”.

Josefina Chantre é rebelde desde que se lembra. Não sabe explicar porquê, sabe apenas que já nasceu assim. No Paúl, Santo Antão, onde passou a meninice, nunca sentiu nenhum tipo de discriminação. Nem em Portugal, onde faz o curso de serviço social. Mas Angola, para onde foi trabalhar, deu início à sua consciencialização política. Nos Musseques de Luanda, na zona periférica, começa a notar que havia muita discriminação, as populações não viviam condignamente, faltava-lhes tudo.“Acho que todo o ser humano nasce igual e deve ter à sua disposição o mínimo para sobreviver”, diz ao Expresso das Ilhas. Em 1962 vai para o interior de Angola, onde a consciência política vai amadurecendo, quanto mais avançava pelo país adentro mais as desigualdades eram visíveis e gritantes. Junta as licenças e regressa a Portugal quatro anos depois. Em Lisboa contacta com outros estudantes, começavam a soprar os ventos do panafricanismo, algumas colónias já tinham mesmo conseguido a independência.

Na capital portuguesa é contactada pelo Amaro da Luz e é através dele que vai ter com um namorado moçambicano que já tinha dado o salto. Viajam para a Suécia, para Roma e da capital italiana para a Argélia, uma placa giratória para todos os membros dos movimentos de libertação, PAIGC, FRELIMO, MPLA, mesmo os comunistas portugueses. O objectivo era chegar à Tanzânia, onde a FRELIMO tinha a sua base, mas não consegue. Entretanto, contacta Amílcar Cabral, que estava em Argel, e diz-lhe que tinha tomado a decisão de “juntar-se aos camaradas de Conakry”. Não foi fácil convencer o líder mas este, perante a insistência de Josefina, acaba por aceitar.

À chegada a Conakry, Cabral informa-a que ia dar aulas. Josefina nega, não gostava de ensinar. Acaba por ir trabalhar com Cabral no secretariado. A primeira tarefa: actualizar o jornal Libertação. A partir de certa altura passa também a fazer programas de rádio, em crioulo do Barlavento, para Cabo Verde. “Era fundamental dizer aquilo que se fazia no terreno. Cabral sempre privilegiou a divulgação da nossa luta, porque dizia que não se podia trabalhar e não divulgar”, conta.

Depois do assassinato de Cabral, Josefina Chantre regressa à Argélia, onde recebia os comunicados de guerra. Depois do sentimento de perda provocado pelo desaparecimento físico do líder da luta armada, receber as notícias dos abates dos aviões servia para aliviar a tristeza. “Foi a única maneira de obrigarmos os colonialistas a sentarem-se à mesa”.

Mas, a luta tinha uma outra frente, menos visível, as próprias mulheres estavam também num processo de emancipação. Cabral já tinha dado o mote nos estatutos do partido dizendo, por exemplo, que nos comités de tabanca constituídos por 5 elementos, 2 tinham de ser mulheres, paridade antes do tempo. “Não há nenhuma sociedade que se possa desenvolver ou ter pretensões a ser desenvolvida esquecendo essa metade do céu”, sublinha Josefina Chantre. “Ainda fiquei mais cinco anos na Guiné, mas as camaradas que lutaram e vieram, tiveram um papel relevante na caracterização do papel da mulher, nos vários domínios, económico, social e cultural para provar ao partido, da altura, que era efectivamente necessária essa discriminação positiva. Ainda hoje é necessária, imagine em 1975”.

Apesar de toda a participação feminina na luta e no pós independência, Josefina Chantre admite que o papel das mulheres tem sido apagado.“A culpa é nossa. A história tem sido escrita por homens e temos de começar a escrever a nossa própria história. O papel da mulher não ficou aquém do papel do homem. Sem nós não teria havido libertação, nem da Guiné nem de Cabo Verde. Há mulheres heroínas, há mulheres que contribuíram de forma excepcional. É um desafio, sentarmo-nos para escrever as nossas memórias, porque temos muito para contar. A mulher foi tudo”.

Ana Maria Cabral é peremptória, aprendeu a ser anti colonialista na Casa do Império, nos anos 50, mas já antes tinha a noção do que era a discriminação. Nascida na Guiné-Bissau, emigra para Angola muito nova porque o pai, médico, tinha sido deslocado para essa colónia. Em Luanda, frequenta a escola portuguesa, onde eram raros os alunos africanos. “Em Angola o racismo era tremendo”, refere ao Expresso das Ilhas, “muito mais do que na Guiné-Bissau. Como o meu pai era médico, permitiram que os filhos frequentassem as escolas dos portugueses. A partir do momento em que uma pessoa tinha um curso superior deixava de ser preto e passava a ser branco, essas contradições do colonialismo”. Em casa o pai alertava-os para essas diferenças, para que não se deixassem iludir.

Em 1955 vai para Portugal fazer o liceu. Ouve falar do PAIGC. Diz que quer dar o seu contributo para a luta de libertação. Ainda em Portugal conhece Amílcar Cabral e em 1962 consegue sair e vai estudar para a então Checoslováquia.

Conakry é o destino seguinte. Trabalha na escola piloto, criada para receber os filhos dos combatentes e os órfãos de guerra. Tinham de fazer tudo e era um ensino intensivo, porque os alunos não deveriam ficar muito tempo na escola.“Procurávamos um certo equilíbrio, porque eramos acima de tudo anti colonialistas, nacionalistas no bom sentido, queríamos o melhor para a nossa terra, melhor educação, melhor saúde, tudo. Cabral dizia que o povo não lutava por ideias, lutava para ter uma boa casa, boa saúde, poder criar os filhos. O nosso trabalho foi sobretudo esse”.

Houve poucas mulheres guerrilheiras. Não era para ser assim, mas a contestação levou Cabral a recuar. O mais importante para o líder era a luta de libertação e para isso todos deviam estar unidos. “Passámos a ser uma espécie de milicianas”, recorda Ana Maria Cabral, “aprendemos a manejar armas, mas era só para uma emergência. Noutros países fizeram-se destacamentos femininos, como na FRELIMO, mas aqui, uma questão de mentalidade não o permitiu. Eram países muito atrasados”.

Ser companheira de um homem como Cabral não foi fácil e, considera, dava-lhe ainda mais responsabilidades. “Hesitei muito. Estive quase dois anos a pensar se aceitava ou não. Não só pela diferença de idade [17 anos], mas também por ele ser a figura que era. Eu dizia que não tinha arcaboiço, mas ele foi eliminando os meus argumentos e acabou por ser uma maravilha. Foi pena ser por pouco tempo”.

Durante o processo de luta, continua a aperceber-se que a emancipação da mulher está afinal presa por fios muito frágeis. Numa visita a Argélia, ainda com Cabral, pergunta a um comandante argelino o que era feito de Djamila Bouhired e de Djamila Boupacha, duas figuras heróicas da luta contra os colonialistas franceses. A resposta deixa-a estarrecida: as mulheres fizeram o seu trabalho na luta de libertação, agora que os argelinos já eram independentes voltaram para o seu devido lugar. “Os nossos homens pensaram a mesma coisa, embora não o tenham dito em voz alta, pelo menos, eu nunca ouvi. O problema da mulher ainda não foi ultrapassado, ainda há um longo caminho a percorrer”.

Quando Cabo Verde se torna independente, esta noção torna-se ainda maior. Foram criadas associações femininas, mas para assistir às reuniões as mulheres tinham de pedir autorização aos maridos. “Lembro-me de uma reunião do sindicato em que eles disseram: podem assistir, mas fiquem caladinhas. Os homens não se aperceberam que as coisas tinham mudado”.

O choque do regresso ao arquipélago foi transversal, afectando mesmo os homens. “Ainda há pouco ouvi o ex-presidente Pedro Pires dizer que não conhecíamos Cabo Verde. É verdade, saíram jovens, ficaram anos fora e sem contactos com Cabo Verde, chegam e é uma realidade totalmente diferente. Teve de se fazer uma aprendizagem, houve erros, mas só assim é que se aprende”.

Apesar de tudo, Ana Maria Cabral diz que hoje tem uma certeza: “valeu a pena.Embora houvesse muito sacrifício e muito sangue derramado, valeu a pena”.

Todas as mulheres receberam preparação militar, para serem uma espécie de retaguarda, de última resposta, mas houve uma – Maria Ilídia da Cruz, mais conhecida por Tutu – que teve uma recruta muito mais puxada. Foi a única mulher que esteve em Cuba a treinar com o grupo que se preparava para invadir Cabo Verde, mas já lá vamos.

Maria Ilídia nasce na Boa Vista e cresce no Sal. É nesta última ilha, na altura não turística, que começa a aperceber-se das diferenças criadas pelo colonialismo. Havia tropas lá estacionadas, estava-se em plena 2ª Guerra Mundial, mas os soldados portugueses e os soldados cabo-verdianos estavam separados, até a comida era diferente. Na mesma altura vê o pai a ser agredido e preso, cresce a temer quem tinha pele branca.

Começa a notar que há alguma coisa que não está bem. As praias do Sal eram reservadas, havia dias para brancos e dias para negros, havia um mal-estar que mais do que sentir-se, podia ser visto. Só sabe o que é política mais tarde, já em Dakar, e resolve aderir à luta de libertação.

Integra o grupo que vai para Cuba por exigência de Cabral, mas não foi um caminho fácil. Os homens tinham resolvido excluí-la à revelia. Chegaram mesmo a dizer ao líder do PAIGC que a Tutu não queria participar. Maria Ilídia fica a saber, conta a Cabral e este chama toda a gente para uma reunião, onde a combatente repete a história. “Ficaram todos com uma raiva terrível, se pudessem matavam-me. Foi Cabral que disse que eles não tinham esse direito e se eu queria ir, podia ir”.

“Sofri discriminação desde que quis participar na luta até agora. A participação foi apagada. Não gosto de mandar reparos. Mas, a verdade é que todos foram recebendo patentes, sem nenhuma restrição, mas eu tive restrições. Até que alguém disse que não podia ser e deram-me a patente de capitão, mas foi quase como um favor”.

Em Cuba não tem direito a quaisquer privilégios por ser mulher. Corre montanha abaixo e montanha acima, carregada com a mochila e a arma. Treina como os outros, dispara. A mulher que os homens não queriam ao lado passa a ser um exemplo para os companheiros, muitos, cansados, não têm coragem para desistir quando vêem a camarada lá na frente a correr. Além do treino militar, passa as noites na urgência do hospital, a ser preparada nas artes médicas.

O desembarque em Cabo Verde acaba por nunca acontecer. Seguem todos para a União Soviética, os homens para a marinha, Maria Ilídia para um hospital. Faz a preparação como auxiliar de enfermagem e segue para a Guiné, onde fica responsável pela preparação dos instrumentos e da sala de operações de urgência para os feridos de guerra.

Cabral tinha outros planos, quis que fosse para a Alemanha receber formação para parteira. De início Maria Ilídia diz que não, principalmente porque não entendia a língua. Cabral tem de lhe dizer que não estava a pedir, estava a mandar. Evitar que as mulheres morressem durante o parto, explicou-lhe, era uma frente de guerra como outra qualquer. Foi.

Está na Alemanha quando Cabral é assassinado. Entra em depressão. Quem a ajuda são os alemães, esse povo da língua esquisita, que até para a Montanha a levam, para esquiar. Recupera e continua a sua formação.

É ainda na Alemanha que vê o 25 de Abril e assiste à alvorada da liberdade para os países africanos. Pede na escola que lhe antecipem os exames para que possa assistir à cerimónia da independência em Cabo Verde. Consegue. Chega ao arquipélago no dia 2 de Julho de 1975, três dias antes da declaração da independência.

Entretanto, Luís Cabral tenta tudo para a fazer regressar à Guiné-Bissau, chega a telefonar a Aristides Pereira, que concorda com esse retorno. Em última instância, Tutu leva o seu diploma e mostra-o a Pedro Pires e é o então Primeiro-Ministro que insiste na permanência de Maria Ilídia no arquipélago, dando assim uma nega ao Presidente guineense.

Vai para São Vicente onde encontra um cenário desolador. No Hospital Baptista de Sousa, em 75, havia só duas pinças e uma tesoura para cortar o cordão umbilical dos recém-nascidos. Os instrumentos nem eram esterilizados, levavam um banho de álcool e eram postos novamente em serviço. Maria Ilídia resolve escrever para o instituto alemão onde estudara. Da Alemanha chegam seis toneladas de material médico. Mas, o trabalho tinha apenas começado. Era preciso, por exemplo, um lugar onde as mulheres pudessem ser atendidas e acompanhadas durante a gravidez. “A medicina reprodutiva começou em São Vicente”, conta ao Expresso das Ilhas, “com mobília que levávamos de casa, cadeiras, camas, etc., todas apoiaram na altura”. A comunidade internacional mobiliza-se e a Suécia manda material e recursos humanos.

Mas, as viagens de Tutu ainda não tinham terminado. Sem os benefícios de outros companheiros de luta, que tinham direito, por exemplo, a juros bonificados para a compra de casa, teve de emigrar para juntar dinheiro. Acabou por trabalhar em Portugal, com a Associação Abraço, no tratamento de doentes com VIH/SIDA. Hoje, vive novamente em São Vicente. Mágoas? “Bastantes. Há tempos, mandaram uma lista de soldados que estiveram em Cuba, fomos os primeiros a jurar bandeira, e esqueceram-se de mim e de muitos outros. Mandaram para a Assembleia [Nacional] a lista dos comandantes e esqueceram-se de mim, outra vez”.

Como escreveu Ângela Benoliel Coutinho, no artigo Mulheres na “Sombra” – As Cabo-verdianas e a Luta de Libertação Nacional, se não se preservarem, ou se destruírem, as fontes históricas do século XX em Cabo Verde, não será possível fazer uma História de Cabo Verde para esse século, nem uma História dos Cabo-verdianos, nem uma História das Mulheres Cabo-verdianas.

 

*com Roberto dos Santos (rádio Morabeza)

 

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Autoria:Jorge Montezinho,2 abr 2015 11:24

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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