Feitos à Mão na Prisão

PorSusana Rendall Rocha,23 dez 2019 14:42

Encontramos Noy Singer, uma holandesa que há alguns anos escolheu Cabo Verde para viver, na praça principal da cidade de Espargos. O evento organizado pela edilidade durante a quadra festiva, junta um conjunto de artesãos da ilha, para apresentar uma proposta de prendas de natal, com base num consumo mais consciente e sustentável.

Mas Noy Singer não é artesã. A jovem holandesa exibe na sua banca partilhada, artesanato feito à mão por homens e mulheres que, por vários motivos, actualmente cumprem penas no estabelecimento prisional da ilha.

Formada em Serviços Sociais na Holanda, durante algum tempo pôde trabalhar directamente na Cadeia do Sal através de um projecto financiado internacionalmente.

Infelizmente com a conclusão do mesmo, e embora tenha procurado a nível nacional verbas para dar continuidade, a falta de apoio foi um impeditivo.

Contudo, percebeu que tinha encontrado a sua vocação. Decidiu que, de alguma forma, deveria continuar o trabalho iniciado e, contribuir para aumentar as opções de reinserção social dos presos em Cabo Verde.

“Notei que em Cabo Verde não são muitas as opções de reinserção social para alguém que tenha estado na prisão. Acredito que as pessoas devem sim pagar pelos seus erros e, se cometeram crimes devem cumprir as penas devidas, mas, depois disso, a sociedade deve estar preparada para os receber e apresentar soluções para conseguirem viver com dignidade”.

Nasceu assim, o projecto ‘Handmade in Prison’, em português Feitos à Mão na Prisão. Alguns presos aprenderam a confeccionar peças de artesanato, como carteiras de senhora, bijuteria, entre outros artigos.

A assistente social compra tudo o que eles conseguem produzir e revende a preços acessíveis para nacionais, turistas e, com a ajuda de amigos, consegue que os artigos cheguem também no seu país de origem e à Bélgica.

Uma parte do valor arrecadado regressa à prisão, através de uma conta criada pela direcção do estabelecimento prisional do Sal e reverte a favor da pessoa que confeccionou a peça vendida.

“Não é permitido que eles tenham acesso a dinheiro, mas a cadeia possui um sistema em que cada preso dispõe de uma espécie de conta bancária onde fica guardado o seu lucro até ao dia da sua liberdade. Além do mais, eles praticam um ofício que, cá fora pode lhes garantir uma opção de emprego e rendimento”, conta-nos Noy.

A outra percentagem dos lucros fica com a fundação criada em Janeiro deste ano, a Co-Creative Social Design, ou CSD Foundation, com o objectivo de promover o desenvolvimento de mais projectos em parceria com jovens empreendedores cabo-verdianos, artesãos locais e, assim, impulsionar a sua capacitação, promover o turismo sustentável e ajudar a aumentar as possibilidades de sucesso para as empresas locais.

“Esta foi a maneira que encontrei para continuar a trabalhar não apenas com os prisioneiros mas, também com os jovens da ilha com potencial, talento e ambição”.

Hoje segunda-feira, 23, a assistente social regressa à Praça de Espargos com as peças de artesanato feitas na prisão e, espera poder vender muito mais.

“Espero que as pessoas da ilha do Sal e os visitantes reconheçam este projecto como uma forma de ajudar e, que optem por oferecer aos seus amigos e familiares uma prenda consciente”, afirma.

No futuro pretende que a sua micro empresa cresça o suficiente para chegar a pessoas em cumprimento de pena nas cidades da Praia e do Mindelo e, mais tarde, também nas restantes ilhas.

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Autoria:Susana Rendall Rocha,23 dez 2019 14:42

Editado porSara Almeida  em  23 dez 2019 14:42

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