O boletim meteorológico que salvou a Europa

PorAndré Amaral,5 jun 2014 0:00

O dia D, dia da invasão aliada da Normandia, que foi decisivo para derrotar Hitler e a Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial faz hoje 70 anos. Mas o destino da maior força naval militar jamais vista no mundo foi salvo por um boletim meteorológico.

Madrugada de 4 de Julho de 1944. Portsmouth, Inglaterra.

O sol está prestes a nascer e adivinha-se um dia de céu limpo e de bom tempo mas, a contrastar com o tempo, estão os semblantes dos responsáveis máximos do exército aliado reunidos na Southwick House. São 04h15 da manhã. Anos de preparação foram investidos na invasão da Normandia, mas agora, apenas algumas horas antes do início das operações do Dia D, surge o Capitão James Stagg a sugerir um adiamento de última hora.

Como oficial comandante do serviço de meteorologia da Operação Overlord, o britânico não era um comandante de campo de batalha, mas o destino final da invasão dependia única e exclusivamente daquilo que decidisse.

Os dias possíveis para a invasão se desenrolar com sucesso eram poucos. Muito poucos. E tinham de reunir várias condições: maré baixa, para expor as defesas subaquáticas colocadas pelos alemãs nas praias da Normandia e também lua cheia a iluminar obstáculos e locais de aterragem para os planadores que iriam levar as forças aero-transportadas para trás das linhas inimigas.

Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas tinha escolhido o dia 5 de Junho como data para a invasão. Era o primeiro de três dias em que todas as condições estariam reunidas para que o desembarque se fizesse com sucesso, porque para além da lua cheia e da maré baixa pedia-se ainda que não existisse vento forte e mar agitado que poderia virar embarcações de desembarque e sabotar o assalto anfíbio; tempo húmido que podia atolar o exército e uma espessa camada de nuvens que poderia impedir o apoio aéreo necessário.

A tarefa crítica, mas nada invejável, de previsão meteorológica do notoriamente inconstante Canal da Mancha recaiu numa equipa de meteorologistas da Marinha Real, do Escritório Meteorológico Britânico e da Força Aérea.

Observações feitas na Terra Nova realizadas a 29 de Maio relataram uma mudança das condições atmosféricas. Os meteorologistas britânicos previram uma tempestade para 5 de Junho. Os meteorologistas norte-americanos, por seu lado acreditavam que uma alta pressão iria desviar a frente da tempestade avançar e proporcionar céu limpo e ensolarado ao longo do Canal da Mancha.

Stagg, o único meteorologista a quem era permitido o contacto directo com Eisenhower, tinha que tomar a decisão final.

Manhã de 5 de Junho de 1944.

O céu está limpo e o vento não passa de uma brisa mas Stagg está convencido que a tempestade está apenas a algumas horas de distância e recomenda o adiamento. Eisenhower concorda. Relutante. A invasão ficava adiada por 24 horas.

Do outro lado do canal, as previsões dos meteorologistas alemães são idênticas às de Stagg, apenas com uma diferença, para o meteorologista chefe da Luftwaffe o mau tempo ia manter-se durante todo o mês de Junho. Apoiados nessa previsão, os comandantes nazis convenceram-se que a iminente invasão aliada era impossível e muitos abandonaram a costa norte de França para participarem em jogos de guerra organizados pelo Fuhrer. Entre eles estava o Marechal de campo alemão Erwin Rommel que voltou para casa para oferecer pessoalmente à sua esposa um par de sapatos que comprara em Paris.

Mas as previsões meteorológicas alemãs eram feitas com menos recursos que as dos aliados, pois como refere John Ross, autor do livro “A previsão para o Dia D e o meteorologista por trás da maior jogada de Ike”, "Os Aliados tinham uma rede muito mais robusta de estações meteorológicas no Canadá, Groenlândia e Islândia; tinham navios e vôos meteorológicos no Atlântico Norte a que ainda se juntavam as observações das estações meteorológicas na República da Irlanda."

Essas estações meteorológicas, em especial as de uma estação localizada em Blacksod no extremo oeste da Irlanda, provaram ser cruciais para detectar a chegada de um período de calmaria nas tempestades que Stagg e seus colegas previram e que acabaram por permitir a invasão no dia 6 de Junho.

O que estava em causa era o elemento surpresa. Os aliados, em especial Eisenhower, acreditavam que se a tempestade durasse muito tempo, esse elemento surpresa desapareceria. Por isso, e apesar da chuva e dos ventos que uivavam no exterior, Eisenhower aceitou o conselho de Stagg e adiou a invasão por 24 horas.

Madrugada de 6 de Junho de 1944.

O clima durante as horas iniciais do Dia D ainda não era o ideal. O mau tempo que ainda se faz sentir, especialmente a densa nebulosidade e os fortes ventos fazem com que milhares de pára-quedistas errem as zonas de aterragem e com que alguns dos bombardeamentos falhem o alvo.

No mar o cenário também não era bom. Os ventos fortes e a ondulação fazem com que várias lanchas de desembarque naufraguem.

Ao meio dia, no entanto, o tempo tinha melhorado. O período de acalmia que Stagg previra tinha chegado e os alemães tinham sido apanhados de surpresa.

A maré da Segunda Guerra Mundial começava a mudar.

Algumas semanas depois da invasão, Stagg enviou um memorando a Eisenhower dizendo que se o adiamento tivesse sido feito para mais tarde, os aliados teriam enfrentado o pior tempo no Canal da Mancha em mais de duas décadas. “Agradeço aos deuses da guerra por termos avançado quando o fizemos”, concluía Stagg.

John Ross defende que se a invasão se tivesse dado a 5 de Julho, como insistiram os meteorologistas americanos, a invasão teria sido um desastre. “Havia demasiadas nuvens sobre a Normandia para que Eisenhower pudesse usar o seu melhor e mais importante activo, as forças aéreas e aero-transportadas”, defende o historiador. “Só com elas se poderia fazer uma cobertura eficaz dos tanques, da artilharia e das reservas de infantaria alemã. Os ventos teriam sido demasiado fortes para o lançamento de pára-quedistas que impedissem a chegada de reforços e, no mar, as ondas seriam demasiado altas para que as lanchas de desembarque conseguissem colocar em terra tanto homens como mantimentos e máquinas. O elemento chave da surpresa estaria perdido e a libertação da Europa ocidental poderia ter demorado mais um ano”.

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Autoria:André Amaral,5 jun 2014 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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