A primeira ditadora

PorSara Almeida,22 dez 2014 0:00

Grace Mugabe é casada com o homem que há mais de 30 anos lidera o destino do Zimbabué. Gastadora, caprichosa e mal-educada são alguns dos defeitos com que tem sido retratada pela imprensa e súbditos.  Agora, a esposa do ditador Robert Mugabe quer entrar na política. E tendo este sido investido de novos poderes no último congresso do seu partido, passando agora a designar quem lhe sucede, poderá ser o início de uma dinastia. Grace, também conhecida por “DisGrace“ está pois a começar a construir o seu caminho para passar de primeira dama a primeira ditadora do país.

 

Robert Mugabe foi reconfirmado na presidência do partido (o ZANU-PF- União Nacional Africana do Zimbabué — Frente Patriótica) tornando-se assim, à partida, candidato oficial à reeleição em 2018. Com isto, a saga do ditador que chegou ao poder em 1980 - tendo assumido então o cargo de Primeiro-ministro que trocou, sete anos mais tarde, pelo de Presidente com poderes executivos -, continua, agora com renovados plenos poderes de decisão. Nada parece demover o veterano de 90 anos, o mais velho líder africano, do “trono” zimbabueano. E se a velhice já não lhe permitir concorrer às próximas eleições, o presidente já tratou de garantir a sua dinastia para manter o poder em família. Isto porque ao escolher quem lhe sucederá à frente do partido no poder, abre caminho para que a pessoa por si designada ocupe também o lugar de Chefe de Estado.

Há algumas semanas, na linha da frente dos possíveis sucessores estavam Joice Mujuru e o ministro da Justiça, Emmerson Mnangagwa. A primeira, figura proeminente da luta pela libertação do país e consolidada número dois do partido, era na realidade vista inevitável futura chefe de Estado. Foi quando entrou em cena Grace, que lançou uma verdadeira campanha de ataque contra Mujuru e seus aliados, acusando-a de incompetência, extorsão, corrupção e de conspirar para assassinar Robert Mugabe. Joice foi despedida.

Aliás, estas acusações  estão no centro da decisão de proceder à escolha directa, descartando eleições no partido - que entretanto foi aprovada no congresso que começou a 2 de Dezembro.

Joice sai pois da equação enquanto a novata e polémica Grace Mugabe entra na mesma a todo o vapor.

“Dizem que quero ser Presidente. E por que não?”, admitiu já a mulher do chefe de Estado.

Entretanto o afastamento de Mujuru, deverá trazer consequências políticas, uma vez que os aliados da ex-vice-presidente não deverão aceitar a decisão pacificamente. Phelekezela Mphoko é o novo vice, a par com Mnangagwa. A primeira-dama Grace Mugabe, para já, foi nomeada pelo marido líder da ala feminina do partido. O início de uma carreira política que promete dar que falar.

 

O caminho para a presidência

O nonagenário Robert vai somando episódios de esquecimento e falta de concentração, que revelam a sua idade. Apesar de ser protagonista de cada vez mais gafes, o próprio considera que ainda é capaz de se manter no poder. No entanto, vai admitindo que a mulher lhe diz o que fazer. Grace Mugabe está já pois ao leme do país, ainda que de forma indirecta. Mas ela própria já assumiu que não coloca de lado a possibilidade de dar a cara no poder. Assim sendo há quem já fale de uma primeira ditadora do mundo, a governar o Zimbabué.

Hoje com 49 anos, Grace tornou-se a segunda mulher do líder do Zimbabué, em 1996. De nome de solteira  Grace Marufu, a Primeira Dama nasceu na África do Sul e foi viver para o Zimbabué com cinco anos. Foi secretária no gabinete presidencial onde conheceu Mugabe, com quem manteve uma longa relação amorosa. Quatro anos depois da morte da primeira mulher do presidente, quando já tinham dois filhos adolescentes casaram finalmente. Tiveram um terceiro filho. Para casar em segundas núpcias, Mugabe que é católico praticante obteve uma autorização especial uma vez que Grace era mulher divorciada- o primeiro marido de Grace, com quem esta teve um filho, era piloto.

De acordo com o Diário de Notícias, há quem garanta que a primeira mulher do presidente tinha sobre ele uma boa influência e que após a sua morte este contemplou a hipótese de abandonar o poder, tendo sido Grace a fazê-lo mudar de ideias.

Mugabe continuou na Presidência, sob diferentes irregularidades. Destaque para as eleições de 2008 onde bateu Morgan Tsvangirai, que tinha ganho a primeira volta, mas que desistiu após vários dos seus apoiantes terem sido assassinados. Terminava assim uma partilha de poder que durou cerca de quatro anos. Em 2013 foi reeleito, pela sétima vez consecutiva, numas eleições consideradas fraudulentas tanto pela oposição como pelos observadores.

Agora, poderá suceder-lhe a mulher que, de repente, parece ter-se interessado por política.

“A ascenção de Grace Mugabe é um conto de fadas político em curso que causa admiração entre os seus seguidores, preocupação entre a elite, e expõe o alcance da sua audácia. Agora até temos uma rua chamada Grace Mugabe Way, que apareceu do nada nesta semana sem ter passado pelas autoridades da cidade [de Harare]. Estará em curso a criação de uma dinastia Mugabe?”, questiona o comentador político zimbabueano Vince Musewe, no The Guardian.

 

A má fama de Gucci Grace

Há muito tempo que Grace Mugabe vem acumulando má imprensa. Chamam-lhe a Primeira Gastadora ou Dis Grace (um trocadilho com a palavra inglesa desgraça). Isto porque enquanto a população do Zimbabué morre de fome ou doenças, Grace (que também leva o apodo de Gucci, em referência à conhecida casa de moda) gasta milhões de dólares em diferentes capitais, onde fica hospedada nos melhores hotéis.

São conhecidas as suas compras nas lojas de melhores marcas mundiais e a sua obsessão por sapatos Ferragamo. Aliás, a sua frase à la Maria Antonieta ficou famosa. Diz Grace Mugabe: “Os meus pés são muito estreitos, só posso calçar Ferragamo.”

Só em 2014, Grace terá gastado cerca de três milhões de dólares em compras que incluem 62 pares de sapato Ferragamo e 33 de Gucci, 12 anéis de diamantes, um relógio Rolex que custou à volta de 100 mil dólares e quase 50 mil dólares em lingerie. Tudo isto acontece sob um ordenado do marido que, oficialmente, pouco ultrapassa os 60 mil dólares anuais.

Também as mansões que constrói, em fazendas expropriadas da minoria branca, mostram a dimensão das suas acções e gastos. Robert Mugabe foi o responsável por espoliar e expulsar os fazendeiros brancos, redistribuindo as terras pelos membros do seu partido. Mas Grace terá tido, de acordo com a imprensa, um papel entusiasta nesta medida. Em 2003, escolheu para si uma das melhores quintas dos arredores de Harare, tendo ordenado aos donos que saíssem em 48 horas.

A comunidade internacional não é indiferente aos abusos da aprendiza de ditadora. Grace foi incluída na lista de dignitários do Zimbabwe impedidos de viajar para a Europa, em 2002, no âmbito das sanções da União Europeia infligidas ao país devido a violações dos direitos humanos. (Acabaram-se assim compras em Londres onde era habitué do Harrods).

A somar às críticas ao seus gastos e à sua corrupção, Grace é considerada pela imprensa, pelos políticos, e não só, como uma mulher imatura e mal-educada.

 

Apoio obscuro

Recentemente a imprensa britânica voltou a destacar a Primeira Dama zimbabueana com notícias que dão conta de um apoio de milhões de dólares em dinheiro para se lançar na sua corrida à Presidência, por parte de um milionário britânico corrupto.

O criminoso Nicholas van Hoogstraten, que fugiu para o Zimbabué em 2007, onde vive num hotel está secretamente a financiar Grace, de acordo com o Daily Mail.

O jornal refere que o Mail Online teve acesso a documentos secretos compilados pelos chefes de inteligência de Mugabe (que vigiam todos os que são próximos do presidente), e que provam que Hoogstraten doou 62 milhões de dólares para financiar a campanha presidencial de Grace.
Os mesmos documentos, que ainda não foram confirmados, mostram ainda que os dois desviaram milhões em salários dos funcionários públicos da Hwange Colliery para as suas próprias contas privadas.

O criminoso britânico, acusado, entre outros crimes, de vários assassinatos e tentativas de assassinato, é um dos maiores proprietários de terras do Zimbabué.                          

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Autoria:Sara Almeida,22 dez 2014 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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