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Arriscado jogo geopolítico numa região em grande convulsão

PorExpresso das Ilhas, Lusa,20 abr 2018 10:15

Recep Tayyip Erdogan
Recep Tayyip Erdogan

A Turquia do Presidente Recep Tayyip Erdogan está a "arriscar tudo" para tentar tornar o país na primeira potência do mundo islâmico, implicando em termos geoestratégicos um progressivo afastamento do ocidente, referiu à Lusa um especialista grego em assuntos militares.

"Recep Tayyip Erdogan está, definitivamente, a arriscar tudo. Está a demonstrar que pretende tornar a Turquia na primeira potência do mundo islâmico, uma escolha que implica um progressivo e crescente afastamento do ocidente", assinalou Paris Karvounopoulos, especialista em Assuntos militares, responsável pelo portal Militare.

"Esta é pelo menos a impressão que existe a partir da Grécia. Pretende tornar-se no líder das populações islâmicas em toda a região, incluindo nos Balcãs", precisou nas suas declarações à Lusa.

A nova estratégia de Ancara - apesar de uma situação de grande tensão com Moscovo na sequência do derrube de um bombardeiro russo pela aviação turca no final de 2015 na zona de fronteira com a Síria -, exprime-se por uma aproximação à Rússia, e ao Irão, e ainda numa aparente alteração da sua face ao vizinho sírio, com o fim da exigência de uma solução política que exclua o Presidente Bashar al-Assad.

No entanto, a Turquia permanece hoje envolvida em diversos contenciosos regionais, desde a Síria a Israel, da Grécia a Chipre, para além de uma evidente degradação das suas relações com os aliados ocidentais e os seus parceiros da NATO, em particular os Estados Unidos.

"A maioria dos países opta por fechar várias frentes e concentrar-se apenas numa frente. A Turquia não está a fazer isso, está a abrir várias frentes para dispor de vários trunfos. 'Dêem-me o que quero e encerro esta frente' eis a lógica de Erdogan", assinalou em entrevista à Lusa Sotiris Roussos, professor associado no Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Peloponeso.

As relações com o vizinho grego também se agravaram recentemente, na sequência da prisão de dois militares gregos junto à fronteira comum, que segundo Atenas se perderam em território turco devido às más condições atmosféricas.

Na terça-feira, 17 de Abril, o primeiro-ministro grego, Alexis Tripras, reconheceu que as relações entre os dois países atravessam "um período de instabilidade" e assegurou que a Grécia não vai negociar qualquer parte do seu território.

As relações têm-se deteriorado nas últimas semanas em torno das zonas fronteiriças em disputa no Mar Egeu e os direitos à prospecção de jazidas de petróleo e gás ao largo da ilha dividida de Chipre.

Em meados de Abril, Ancara acusou Atenas de provocação, após ter sido hasteada uma bandeira grega num ilhéu desabitado no leste do Egeu. Antes, um piloto grego morreu quando o seu caça se despenhou no mar quando regressava de uma patrulha, enquanto têm aumentado as operações de vigilância e os exercícios militares dos dois países.

"Erdogan costumava jogar xadrez na região, mas agora começou a jogar póquer. É muito mais arriscado porque se pratica 'bluff', escondem-se cartas... O xadrez é mais estratégico e inteligente. Erdogan pode agravar a crise, e talvez um ou dois dos seus 'bluffs' resultem", frisa Sotiris Roussos.

Actualmente, prossegue, a Grécia é observada pelas elites políticas do "irmão-inimigo" turco -- ambos membros da NATO em simultâneo desde 1952 -- como uma ameaça menor, em comparação com a rebelião curda, Israel, Rússia, mesmo os Estados Unidos.

Outra das "frentes" decisivas abertas por Erdogan é a Síria, após o exército turco ter desencadeado em finais de Janeiro a operação militar "Ramo de Oliveira" contra as milícias curdas sírias, que foram apoiadas pelos Estados Unidos no combate aos jihadistas' do grupo Estado Islâmico (EI) nessa região.

Em paralelo, Ancara, Moscovo e Teerão, que intervêm directamente no conflito sírio, tentavam acelerar o processo político-diplomático através da sua iniciativa tripartida de negociações em Astana, que decorre em simultâneo com os esforços desenvolvidos pela ONU em Genebra. E neste aspecto, a Rússia tem desempenhado uma função decisiva.

O Presidente da Rússia, "Vladimir Putin, é particularmente sensível quando se sente cercado pelo ocidente. Basta analisar no mapa do avanço militar das potências ocidentais para explicar esta ansiedade. A escolha de uma aliança com a Turquia não é acidental. A sua tentativa em desafiar a NATO através desta aliança é óbvia", sugere Paris Karvounopoulos.

Os recentes ataques ocidentais à Síria, promovidos pelos EUA, Reino Unido e França e justificados por um alegado ataque químico do regime de Assad na região de Ghouta oriental, entretanto reconquistada pelas tropas governamentais, também terão tido como intenção fazer regressar a Turquia ao "campo ocidental", e quando a sua intervenção militar no norte sírio de maioria curda, que já implicou dezenas de milhares de refugiados, não tem suscitado particulares reparos.

No entanto, a situação ficou mais esclarecida após o ministro turco dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlüt Çavusoglu, ter rejeitado em 16 de abril as declarações prévias do Presidente francês, Emmanuel Macron, segundo as quais o ataque ocidental da madrugada de 14 de Abril contra a Síria tinha conseguido "separar a Turquia da Rússia".

"Temos fortes laços com a Rússia. Esse género de declarações não são corretas", sublinhou então o chefe da diplomacia de Ancara, numa confirmação que a estratégia da Turquia na região, e as suas novas ambições geopolíticas, se mantêm, e quando o caminho para uma hipotética adesão à União Europeia parece encerrado em definitivo.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,20 abr 2018 10:15

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  25 set 2018 3:22

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