Tiago Lopes, Director Regional de Saúde dos Açores : “Insularidade tem prós e contras, o principal tem a ver com a planificação”

PorAndre Amaral,17 mai 2020 8:50

O governo da Região Autónoma do Açores já começou a fazer o levantamento das restrições que tinha imposto para estancar e combater a pandemia de COVID-19 que causou, até agora, 16 óbitos num total de 145 casos confirmados. Para Tiago Lopes, Director Regional de Saúde dos Açores, agora, com o aliviar das medidas restritivas, é preciso manter níveis de alerta, de prontidão, de resposta e de vigilância apertados.

Qual foi o plano inicial de combate à COVID-19?

Nós tomámos à partida a experiência adquirida em 2009 por altura da Gripe A. Trabalhamos, também, em conjunto com as entidades a nível continental, no sentido de fazermos logo no início dos cenários de impacto do surto aqui na região de forma a podermos elaborar o nosso plano de contingência. E que foi elaborado inicialmente junto das unidades de saúde como sendo a principal porta de entradas dos primeiros casos suspeitos de infecção e que pudessem ocorrer aqui na região. Depois acabamos por alargar para outras entidades público-privadas para, também eles, perante possíveis casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, soubessem como proceder e encaminhar essas situações para que conseguíssemos conter a evolução do surto aqui nos Açores. Claro que depois, com o evoluir da situação, sobretudo a nível do território continental, em que a partir do momento em que passa a ser considerado como uma área de transmissão local, tivemos de tomar outro tipo de medidas. Mesmo antes disso, o que se passou nos restantes países europeus com maior contacto aqui com a região, nomeadamente, com a chegada de passageiros, tivemos de tomar medidas mais restritivas no sentido de triarmos quem é que chegava à região e detectar o mais precocemente possível casos suspeitos de infecção pelo coronavírus que chegassem à região. Isso implicou medidas mais restritivas e que, de certa forma, feito agora o balanço destas semanas todas e destes meses que passaram, acabaram por ser eficazes no sentido de contermos a evolução do surto e evitarmos, como aconteceu no Continente, de entrarmos na fase de mitigação. Estamos agora numa fase de retoma, de levantamento de algumas medidas mais restritivas que foram implementadas para fazer a contenção do surto, não descurando que não podemos colocar de parte uma segunda vaga do mesmo e, portanto, tem de ser feito de forma progressiva e devidamente ponderada para que não sejamos apanhados desprevenidos e ter um impacto mais significativo numa segunda vaga do que propriamente nesta primeira que nós atravessamos.

A insularidade dos Açores foi de alguma forma uma ajuda para fazer face à transmissão da doença?

Tem os seus prós e os seus contras. O facto de sermos uma região arquipelágica tem sempre esses factores a favor e contra no sentido de contermos e darmos a melhor resposta a uma pandemia como esta. Claro que eu acho que o principal tem a ver com a questão de estarmos a par e acompanhar aquilo que era a evolução da pandemia em outros locais para aprendermos com aquilo que foi a experiência adquirida e o report das dificuldades e constrangimentos em alguns países, nomeadamente, quando atingiu primeiramente a China e depois passou para a Itália, Espanha, França e quando chegou ao nosso país, rapidamente percebemos que os constrangimentos que sentiram, as dificuldades e as eventuais brechas do sistema que levaram a que o surto tivesse um maior impacto permitiu-nos uma melhor preparação e planificação das medidas para que pudéssemos ter uma maior eficácia na sua contenção e, por essa via, conseguimos fazer esse trabalho preparatório. E, realmente, tendo em conta a nossa insularidade, preparar as unidades, principalmente no que respeita aos Equipamentos de Protecção Individual sabendo das dificuldades que eram sentidas noutros locais no sentido de uma aquisição adicional desses equipamentos e que ainda se sente nos dias de hoje por causa dos constrangimentos de circulação de passageiros e mercadorias entre países e, depois, no fornecimento desses equipamentos. Mas por outro lado, por via daquilo que foram as medidas aplicadas e de contenção do surto não houve uma sobrecarga efectiva e mais significativa do sistema de saúde no que diz respeito à ocupação de vagas de internamento, de ocorrência de casos críticos com necessidade de ocupação de vagas em unidades de cuidados intensivos e consequentemente toda a logística necessária em termos de recursos materiais e humanos. Mas isso não invalida que não tenhamos mantido a atenção e façamos, agora, a aprendizagem e devida reflexão para que possamos preparar da melhor forma a segunda vaga que nos possa atingir.

Uma das medidas que implementaram foi a questão das cercas sanitárias. Funcionou bem?

Sim. Em São Miguel foi uma medida que nos permitiu restringir a circulação de pessoas entre concelhos, entre áreas da ilha. Por essa via conseguimos controlar melhor o eventual contágio a nível local e não passamos para a dita fase de transmissão comunitária que nos obrigaria, por essa via, a elevar o nível de alerta e de resposta para o combate ao surto aqui na região. Claro que isso tem uma série de constrangimentos associados a nível pessoal e colectivo mas que se revelou determinante para conseguirmos efectivamente quebrar as cadeias de transmissão que identificamos aqui na região e evitar, por essa via, a transmissão comunitária e, como disse, a elevação do nível de alerta e de resposta.

À semelhança do que aconteceu aqui com Cabo Verde, houve ilhas que não foram afectadas, que não tiveram qualquer caso. Como é que se prevê, agora que se começam a levantar as medidas de restrição, que esse estatuto se mantenha?

Bom, para já é a manutenção das medidas que, até agora têm sido implementadas, com a devida flexibilização para esse regresso à nova normalidade do dia-a-dia como todos nós pretendemos, e a população, sobretudo porque já estará saturada do confinamento a que foi obrigada ao longo das últimas semanas. Não é garantido que efectivamente consigamos manter todas essas ilhas que não tiveram, até ao momento, casos positivos sem infecções mas de qualquer das formas, dentro daquilo que foi a aprendizagem que tivemos do combate ao surto aqui na região é manter estes níveis de alerta, de prontidão, de resposta e a vigilância apertada de maneira a que consigamos manter essas ilhas livres de COVID-19.

Houve constrangimentos a nível de acessos a materiais, a equipamentos de protecção?

Sim. Numa fase inicial nenhum dos países, nenhuma região estava preparada para fazer face ao surto. Isso foi visível em vários locais, em vários países. Nomeadamente em grandes potências mundiais que, efectivamente, não estavam preparadas para, em termos de recursos humanos e materiais, fazer face ao impacto da doença quando o mesmo foi sentido. E isso obrigou a uma série de países e regiões a fazerem aquisições adicionais de equipamentos de protecção já numa fase em que existiam e existem ainda fortes restrições no que diz respeito a ligações aéreas entre países produtores e fornecedores desses equipamentos e que levaram a uma demora na resposta nesse fornecimento adicional de equipamentos e que provocou alguns constrangimentos ao nível da assistência a prestar a esses casos. Aqui nos Açores, no início, também isso foi visível e o que nós fizemos foi, dentro daquilo que era a reserva de equipamentos existentes na região, fazer entre as nove ilhas e as diferentes unidades de saúde a mobilização de equipamentos de forma solidária entre as unidades cujo stock ia diminuindo para fazer face às necessidades e à resposta a que estavam a ser sujeitas e que por via desse mecanismo nos permitiu aguentar até à chegada do fornecimento adicional de equipamentos que às limitações que existiam demoraram o seu tempo a chegar. Essa foi uma das aprendizagens que tivemos com este surto. Efectivamente, temos de ter essa reserva devidamente preparada para que numa eventual segunda vaga não termos esses constrangimentos e dificuldades em proporcionar aos profissionais de saúde os melhores recursos para darem uma resposta cabal às necessidades.

No vosso site sobre a COVID-19 nota-se que nos Açores há uma estagnação da evolução da doença em todo o arquipélago. A que se deve isto?

Deve-se à eficácia das medidas que foram implementadas que nos permitiram aplanar a curva que, inicialmente, se poderia esperar mais ascendente ou de forma mais intensa e significativa do surto na região. Mas não nos podemos iludir nem deixar deslumbrar com os resultados, porque a qualquer momento e especialmente agora, com o levantamento de algumas medidas, poderá a qualquer altura haver um foco que leve ao surgimento de novas cadeias de transmissão e, a qualquer momento, ocorrer essa transmissão comunitária e levar-nos a outro tipo de preocupações e necessidades que poderemos não estar à espera. Apesar destes resultados, como disse há pouco, temos de manter a vigilância e a monitorização apertada para que um único caso que chegue à região seja rapidamente detectado, identificado e isolado conforme a Organização Mundial de Saúde recomenda. Tudo para evitarmos da melhor forma possível essa eventual segunda vaga até termos tratamento e vacina para este novo coronavírus.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 963 de 13 de Maio de 2020.  

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Autoria:Andre Amaral,17 mai 2020 8:50

Editado pormaria Fortes  em  18 mai 2020 14:32

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