Covid-19: Africa CDC diz que "é evidente" que segunda vaga de infecções chegou ao continente

PorExpresso das Ilhas, Lusa,27 nov 2020 7:23

O director do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (Africa CDC) disse hoje ser “evidente que a segunda vaga" de infecções pelo novo coronavírus "chegou ao continente".

África regista mais de 2,1 milhões de casos de infecção com covid-19, que representam 3,5% do total de infecções a nível global, sendo que 85% das pessoas (mais de 1,78 milhões) recuperaram. O número de mortes devido à doença ultrapassa a barreira das 50 mil.

Na última semana, o continente africano registou 94 mil novos casos de infecção e 2.400 mortes devido à covid-19 e cinco países são responsáveis por cerca de 70% do total de infecções: África do Sul, Marrocos, Egito, Etiópia e Tunísia, anunciou o director do CDC, John Nkengasong, na conferência de imprensa semanal sobre a situação da pandemia em África.

Quando analisadas as últimas quatro semanas, entre 26 de Outubro e 22 de Novembro, a evolução epidemiológica vai no sentido de um aumento de 7,5% de novos casos no conjunto das cinco regiões de África.

Entre os países mais populosos de África, a Nigéria registou nas últimas quatro semanas um aumento médio de 26% de novos casos, o Egipto, 20%, a República Democrática do Congo, 44%, a África do Sul, 10%, e o Quénia, 11%. Entre o grupo de seis países com maior população, apenas a Etiópia registou uma diminuição de 7% no número médio de infecções.

“Estes números mostram que a curva da epidemia está a subir de forma consistente”, sublinhou o director do CDC.

“Continuamos a registar progressos muito bons em termos de testes”, anunciou ainda John Nkengasong. O continente testou até agora cerca de 21 milhões de indivíduos e dez países contribuíram para cerca de 70% dos testes realizados: África do Sul, Marrocos, Etiópia, Egito, Quénia, Gana, Nigéria, Ruanda, Uganda e Camarões.

O Africa CDC começou a distribuir 2,7 milhões de testes antigénicos em todo o continente, um “desenvolvimento” que dá “esperança” à organização. “Talvez estejamos perante uma mudança de jogo", que permite testes mais rápidos e fáceis, disse Nkengasong.

As vacinas contra a covid-19 em África podem não começar a ser ministradas à população antes de meados do próximo ano, disse o principal funcionário de saúde pública do continente, que sublinhou que será “extremamente perigoso” se as regiões mais desenvolvidas do mundo se vacinarem a si próprias e depois limitarem as viagens a pessoas sem o comprovativo de vacinação.

John Nkengasong disse aos jornalistas, durante a conferência de imprensa virtual do Africa CDC a partir da sede da organização, em Adis Abeba, que já viu no passado como “a África é negligenciada quando os medicamentos estão disponíveis", e ilustrou a afirmação com o caso dos medicamentos anti-VIH, que demoraram 10 anos a chegar ao continente e custaram 12 milhões de vidas durante esse período.

Finalmente, o diretor do Africa CDC manifestou-se “muito, muito encorajado” com as notícias de um conjunto de vacinas contra a covid-19 que se encontram em ensaios clínicos, embora tenha também sublinhado também que o armazenamento a frio necessário para que algumas possam chegar a África seja um grande desafio.

O Africa CDC tem vindo a discutir opções de vacinas com a Rússia, China e outros parceiros, procurando “não ficar para trás” na corrida para obter as vacinas de que precisa: cerca de 1,5 mil milhões de doses, assumindo duas por pessoa, para atingir a cobertura de 60% necessária à imunização do continente. Isto apenas numa primeira vaga de ataque, sublinhou Nkengasong.

“A pior coisa que queremos para o continente é que a covid-19 se torne uma doença endémica” em África, disse.

Viagens

O mundo tem que “iniciar desde já um diálogo global" para definir se será necessário um certificado de vacinação para viajar, defendeu igualmente o diretor do Africa CDC.

“O que seria extremamente perigoso é que as pessoas começassem por se vacinar e depois impusessem condições sobre quem pode vir ou ir seja onde for”, alertou John Nkengasong.

“Essa conversa tem que acontecer já, para que estejamos todos no mesmo patamar de entendimento sobre se precisamos ou não de uma vacina para viajar, de um certificado para viajar. Porque isso vai mudar a dinâmica do que fizermos ou deixarmos de fazer para ter acesso à vacina”, concluiu o responsável, em declarações na conferência de imprensa semanal do Africa CDC em formato virtual, a partir de Adis Abeba.

Nkengasong deixou ainda o repto aos governos e entidades dos 55 membros da União Africana a “tudo” fazerem para que seja alcançado o objetivo de vacinar 60% das 1,2 mil milhões de pessoas que constituem a população do continente.

“Isso implica que vamos precisar de 1,5 mil milhões de doses de vacinas, se considerarmos que cada indivíduo precisa de duas doses” e o preço estimado para este esforço – compra e distribuição das vacinas - é entre 10 e 12 mil milhões de dólares, reforçou.

Mas África “está comprometida com esse objetivo” e a preocupação dos africanos é que esse “esforço” não seja “reconhecido”.

“A minha preocupação é que a Europa complete o processo de vacinação e depois sejam impostas restrições. E isto não é hipotético, trabalho em saúde pública há 30 anos e vi como África é negligenciada. Em 1996, os medicamentos anti-HIV estavam disponíveis e demoraram 10 anos a chegar a África. Entre 1996 e 2006 morreram 12 milhões de africanos”, afirmou Nkengasong.

Num segundo exemplo, o diretor do Africa CDC alertou que, “já este ano”, quando a pandemia estava a perder intensidade na Europa, apenas a quatro países no continente africanos foram oferecidas menos restrições para viajar para o continente europeu.

“Eu já vi estas iniquidades e queremos garantir que as tomadas de posição públicas garantam que África não é deixada para trás”, afirmou.

Outra das preocupações do Africa CDC é a eventual futura resistência da população africana às políticas públicas de vacinação.

“Temos que assumir a responsabilidade de passar a informação correta de que as vacinas são seguras, são eficientes, e não dar espaço a que o movimento anti-vacina se instale”, sublinhou Nkengasong.

A abordagem de África “assenta no objetivo” de vacinação de 60% da população. Esse objetivo foi fixado de acordo com critérios científicos, sublinhou o responsável, e é o que “garante a imunização do continente”.

“O pior que nos pode acontecer é termos as vacinas e a população recusar-se a tomá-las, fazendo com que este vírus se instale a longo prazo”, sublinhou Nkengasong.

O responsável congratulou-se ao longo do 'briefing' com os progressos obtidos no campo das vacinas e a “velocidade com que estão a ser produzidas”, ao longo das últimas duas semanas, em especial a vacina da AstraZaneca, a farmacêutica com sede em Cambridge, que permite condições de armazenamento mais favoráveis, na ordem dos 2ºC a 4ºC, mas tem taxas de eficiência menores, o que pode repercutir-se nos objetivos fixados para vacinação e imunização do continente.

Porém, disse também Nkengasong, a perspetiva é que as campanhas públicas de vacinação do continente não arranquem antes de “meados do próximo ano”, pelo que o responsável reforçou a necessidade de a população se manter fiel às medidas de saúde pública anunciadas, uso de máscara, higiene e distanciamento social, entre outras.

Em África, há 50.628 mortos confirmados em mais de dois milhões de infetados em 55 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia no continente.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,27 nov 2020 7:23

Editado porAndre Amaral  em  28 fev 2021 23:20

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