"Não temos os aliados que tínhamos antes. Temos novos inimigos. O mundo mudou completamente. Sem o apoio do resto da Europa e da Dinamarca, estaremos numa posição muito difícil", disse à Lusa o ex-deputado e membro do Fórum Permanente da ONU para as Questões Indígenas Aqqaluk Lynge, que, na juventude, lutou por uma maior autonomia da Gronelândia.
Desde que as ameaças de anexação do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se intensificaram, população e políticos gronelandeses veem a união com a Dinamarca como a maior garantia de segurança da ilha.
Para os investigadores da Universidade da Gronelândia Rasmus Leander Nielsen e Jeppe Strandsbjerg, uma separação total da Dinamarca nunca esteve em cima da mesa.
"Não acho que isso alguma vez tenha estado na agenda política e definitivamente não está na agenda da coligação de governo, que representa 75% dos eleitores na Gronelândia", afirmou Nielsen à Lusa.
"Penso até que Copenhaga e Nuuk têm sido bastante claros nesta visão conjunta e a soberania tem sido constantemente referida como uma linha vermelha", acrescentou.
A questão da independência não deve ser confundida com soberania, de acordo com estes dois especialistas.
Em Nuuk e em Copenhaga, muitos levantam as questões da dependência administrativa e económica da Gronelândia em relação à Dinamarca, que dificultariam uma separação do território.
A presença militar dinamarquesa tem aumentado e Nuuk contou recentemente com a visita do ministro da defesa dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, numa mostra de coordenação e contacto próximo entre os dois governos.
Durante a visita de Rasmussen, na semana passada, o Canadá e a França abriram consulados em Nuuk.
Rasmussen e a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, estiveram presentes na inauguração da representação diplomática de Otava e agradeceram o apoio canadiano, de acordo com serviço público de rádio gronelandês KNR.
A recusa de uma anexação norte-americana é, contudo, acompanhada de uma continuada disponibilidade para a cooperação com os Estados Unidos.
"O reino da Dinamarca [que inclui a Dinamarca, Gronelândia e Ilhas Faroé] há vários anos que tem discutido uma maior abertura à presença militar [norte-americana] e uma reabertura de algumas bases americanas", salientou Nielsen, que sublinhou a continuada abertura do governo gronelandês à negociação com os Estados Unidos.
Dada esta disponibilidade declarada, existe uma incompreensão em relação às motivações da administração Trump.
Questionado pela Lusa sobre os reais motivos do Presidente norte-americano, Nielsen disse que esse é um tema que "tem intrigado os observadores e académicos na área da segurança".
"O que é que a administração Trump quer exatamente, que já não esteja previsto no acordo de defesa de 1951?", questionou.
"Não encontro nenhuma explicação para o comportamento do Presidente norte-americano", sublinhou o antigo primeiro ministro gronelandês Kuupik Kleist.
Kleist sublinhou ainda a necessidade da continuação da Gronelândia no reino da Dinamarca no momento presente, não excluindo, contudo, retomar esse debate no futuro.
Em janeiro de 2025, uma sondagem do jornal dinamarquês Berlingske e do gronelandês Sermitsiaq apontava para uma maioria de 56% da população a defender a independência imediata. Atualmente, a união com a Dinamarca é vista como uma garantia de segurança da Gronelândia, com prioridade para um estreitamento de relações, notória no discurso político na ilha ártica.
A Gronelândia é um território autónomo integrado no reino da Dinamarca.
Trump tem vindo a declarar publicamente a intenção de controlar a ilha, alegando um papel essencial na defesa dos Estados Unidos.
Já se realizaram vários encontros de negociação entre os Estados Unidos, a Dinamarca e a Gronelândia e os Estados Unidos e a NATO, mas até agora sem resultados concretos.
Foto: depositphotos
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