​Sudão: Ofensiva em El Fasher é investigada como crime de guerra

PorExpresso das Ilhas, ONU News,15 fev 2026 8:15

Um relatório divulgado esta sexta-feira pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirma que a ofensiva final das Forças de Apoio Rápido (RSF) para capturar a cidade de El Fasher, no Sudão, em Outubro do ano passado, envolveu violações graves que podem constituir crimes de guerra e possíveis crimes contra a humanidade.

O documento, baseado em entrevistas realizadas no final de 2025 com mais de 140 vítimas e testemunhas no norte do Sudão e no leste do Chade, descreve uma “onda de violência intensa” durante os primeiros dias do ataque, após 18 meses de cerco prolongado à cidade.

De acordo com o relatório, mais de seis mil pessoas foram mortas nos três primeiros dias da ofensiva das RSF em El Fasher. A ONU estima que pelo menos 4,4 mil dessas mortes ocorreram dentro da cidade e mais de 1,6 mil ao longo das rotas de fuga utilizadas por civis que tentavam escapar.

O relatório ressalva que o número real de mortos durante a ofensiva, que durou uma semana, pode ser significativamente superior ao registado até agora.

Entre os episódios descritos, a ONU documenta um incidente ocorrido a 26 de Outubro, quando combatentes das RSF abriram fogo com armas pesadas contra cerca de mil civis que estavam refugiados no dormitório Al-Rashid, na Universidade de El Fasher.

Testemunhas apresentaram relatos consistentes de que aproximadamente 500 pessoas morreram no local. Uma testemunha afirmou ter visto corpos a serem projectados no ar, descrevendo a cena como “um filme de terror”.

O Escritório de Direitos Humanos afirma que as RSF e milícias árabes aliadas cometeram uma série de abusos, incluindo assassinatos em massa, execuções sumárias, violência sexual, raptos para resgate, tortura, detenções arbitrárias, desaparecimentos, pilhagens e uso de crianças em conflitos.

Segundo o relatório, muitos ataques foram dirigidos contra civis e pessoas fora de combate, com base na sua etnia ou em alegadas ligações às Forças Armadas Sudanesas (SAF).

O relatório aponta ainda a existência de 10 centros de detenção utilizados pelas RSF em El Fasher, onde as condições foram descritas como extremamente inadequadas, contribuindo para surtos de doenças e mortes sob custódia.

Um dos locais citados foi o Hospital Infantil, que terá sido convertido em instalação de detenção. A ONU afirma ainda que milhares de pessoas permanecem desaparecidas e sem paradeiro conhecido.

O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou que a violência cometida pelas RSF e milícias aliadas demonstra que a impunidade continua a alimentar ciclos de violência.

Türk apelou à realização de investigações credíveis e imparciais para determinar responsabilidades criminais, incluindo as de comandantes e superiores hierárquicos.

Defendeu ainda que os responsáveis sejam levados à justiça por todos os meios disponíveis, incluindo tribunais sudaneses independentes, a jurisdição universal em países terceiros, o Tribunal Penal Internacional ou outros mecanismos.

O relatório conclui que existem “fundamentos razoáveis” para acreditar que as RSF cometeram crimes de guerra. As acusações incluem homicídio, ataques contra civis, uso da fome como método de guerra, ataques contra pessoal médico e humanitário, violações sexuais, tortura, pilhagem, recrutamento e utilização de crianças em combate.

Türk reiterou também o apelo para que Estados com influência sobre as partes envolvidas ajam urgentemente para impedir a repetição das violações documentadas em El Fasher. Enfatizou ainda o respeito pelo embargo de armas já em vigor e o fim do fornecimento de armamento ou material militar aos grupos em conflito.

Fotos: depositphotos.com

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Expresso das Ilhas, ONU News,15 fev 2026 8:15

Editado porFretson Rocha  em  15 fev 2026 14:13

pub.
pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.