Transversalidades: Quebra-Canela: do lúdico ao simbólico numa praia de rotina estratificada

PorCésar Monteiro,19 out 2012 23:00


A emblemática praia de Quebra-Canela, a escassos quilómetros do Plateau, constitui um dos lugares sociais mais frequentados pelos banhistas da capital do país, sobretudo aos fins-de-semana, e, em especial, nas épocas altas do ano, entre Julho e Setembro, numa cidade marcada, designadamente, por movimentos migratórios inter-ilhas, êxodo rural, significativos índices de desemprego e pobreza, assimetrias estruturais profundas, desigualdades sociais, insegurança e violência urbana. Mais do que uma praia relativamente espaçosa, atrativa, agradável e sobejamente conhecida pela sua privilegiada localização e proximidade física, Quebra-Canela converteu-se num ponto de encontro obrigatório e rotineiro de pessoas de todos os extratos e condições sociais, faixas etária e credos, um importante espaço de ócio, em particular durante a época balnear.

Detentor, igualmente, de um capital cultural e simbólico consolidado, o balneário de Quebra-Canela, pela sua incontornável centralidade, espelha a realidade da vida quotidiana praiense, uma mescla de situações problemáticas, enigmas, estilos de vida, aspirações e práticas do dia-a-dia aos quais não é alheia uma cultura de consumo alienante. Assiste-se, pois, nos pequenos detalhes que são reproduzidos nesse espaço ter-ritorial de ninguém, à "construção social da praia", socorrendo-me de uma elucidativa expressão de Helena Machado, onde se combinam a dimensão simbólica do local, a sua natureza marcadamente classista e de género, bem como as suas funções lúdica e terapêutica, que, aliás, exprimem estratégias de "distinção social" (Bourdieu) diferenciadas e adequadas ao respectivo contexto de interacção.

Mais do que um (não) lugar de descompressão social e de transgressão, a praia de Quebra-Canela, um valioso património público, funciona, do ponto de vista meramente semiótico, como um espaço de lazer e de convívio, um autêntico livro aberto de significados e comportamentos dos muitos banhistas que a ele acorrem ao longo da semana e em diferentes faixas horárias, em razão das suas motivações, dos seus interesses e dos seus diferentes "habitus". Curiosamente, o mar, com toda a sua pujança e simbolismo, funciona no perímetro de Quebra-Canela como uma componente essencial de estratificação social e, igualmente, assume-se, na prática, como um não menos importante factor estratégico de distinção social, que se traduz, aliás, de forma clara, na composição diversificada dos públicos dessa praia. Particularmente aos sábados e domingos de calor intenso, em plena época de Verão, a praia apresenta, nos dois períodos do dia, uma configuração dinâmica, não amorfa e diferenciada de públicos habituais, em função dos perfis sociais dos banhistas, designadamente, da sua origem, do seu estatuto social, dos seus estilos de vida e da sua subcultura, apesar de descuidada, do ponto de vista ambiental e da segurança.

Com efeito, na faixa horária nobre compreendida entre as 11 e as 14 horas, aos domingos, Quebra-Canela é frequentada, na sua esmagadora maioria, por banhistas pertencentes à classe média-alta da cidade (funcionários dos sectores público e privado, profissionais liberais, empresários, etc.), que coexistem com outras categorias sociais, em alas ou sectores espaciais diferenciados, no âmbito da lógica de diferenciação marcadamente classista e de género que, à partida, tipifica essa orla marítima. Na linha, pois, dessa "coabitação" estratificada, destacam-se claramente, na referida faixa horária matinal, três alas sociais estruturadas em pequenas redes, em função da sua posição concreta naquele espaço físico, da sua origem social e ainda da sua pertença a grupos de pares. Assim, a dita "ala superior" de Quebra-Canela, que se situa quase no extremo do lado de quem desce a escadinha que dá acesso à praia (lado Bote), é constituída, do ponto de vista dos perfis dos públicos e, logo, da sua estrutura social, por banhistas ou praticantes exclusivamente da classe média-alta, compreendidos entre os 40 e os 65 anos, maioritariamente do sexo masculino, escolarizados e portadores de um estatuto social de reconhecido prestígio ou mérito.

Trata-se, na verdade, de uma categoria social de amigos "solidários e porreiros" ligados por profundos laços de afinidade e, às vezes, de cumplicidade, que se traduzem na natureza informal, descontraída e serena das conversas que vão da banalidade, passando pelo humor à política doméstica, mas também vinculados entre si, quer por mecanismos de controlo social mais ou menos apertados, quer por boas práticas, enquanto coletivo. Em última análise, essa franja social mais "cota" é movida, acima de tudo, pela necessidade de aprofundar laços de sociabilidade, "estar com pessoas, procurar novos espaços e discutir questões mais ou menos banais que acontecem aos fins-de-semana", mais do que pelo mero desejo de praticar natação, "bronzear" ou expor o corpo na areia.

Dentro dessa tipologia diversificada de públicos da praia de Quebra-Canela, situa-se, no meio da praia e mais precisamente debaixo da escada maior que dá acesso à Quebra Cabana, mesmo frente à torre de controlo ali instalada, uma categoria de banhistas compreendida entre os 18 e os 30 anos e integrada basicamente por estudantes, já mais virada para o "banho de sol e de mar". A escassos metros e fazendo fronteira com os menos jovens e os menos "cotas", no extremo oposto mais conhecido por "Baxu Rotcha", perfila-se uma categoria mista mais jovem designada "kopu leti" ou "filhos de papá" ("Riba Praia"), cuja idade está compreendida entre os 15 e os 28 anos anos, que se dedica, para lá da natação, à prática desportiva (balizinha, ringo, jogo de taco ou ténis).

Naturalmente, os frequentadores assíduos da praia fazem-se acompanhar de vários objectos (mochilas, toalhas, chinelas, telemóveis, óleo, chapéus de sol, óculos de sol, óculos de natação, barbatanas, chaveiros, etc.), que são colocados nos respectivos territórios, de acordo, aliás, com estratégias de apropriação não conflituais. Já aos domingos à tarde, a partir sensivelmente das 14 horas e até por volta das 19, a praia de Quebra-Canela muda a sua morfologia social, perde o seu carácter elitista e acolhe, desta feita, outras categorias de banhistas denominadas na gíria popular de "muntchulada" (classe baixa), provenientes dos "ghetto" ou subúrbios da cidade ("Baxu Praia"), nomeadamente, de Tira-Chapéu, Meio da Achada de Santo António, Achada de Santo António, Palmarejo, Monte Vermelho, Fundo Cobon, Fazenda, Ponta Belém, Paiol, Achadinha, Achada Grande, Lém Ferreira, Lém Cachorro, Paiol, Vila Nova, Fonton, Quelém. Refira-se que o batalhão de jovens maioritariamente do sexo masculino que acorre em força à praia de Quebra-Canela, às tardes dos sábados e domingos, num processo de "periferização espacial" (Redy Lima), conta com os serviços de um grupo de vendedeiras ambulantes, localizado precisamente debaixo de uma pequena rocha no lado Bote, que disponibiliza aos banhistas vários produtos comestíveis, através de uma espécie de restaurante improvisado à intenção de uma clientela com perfis sociais próprios e pré-definidos. Igualmente, no segundo período do dia, aos domingos, a praia é frequentada por imigrantes senegaleses que, via de regra, se organizam em grupo de 10 a 15 elementos, bem como por chineses e respectivas famílias.

Ao longo da semana laboral, de segunda a sexta-feira, no horário compreendido entre as 5 e as 7 horas da manhã, Quebra-Canela recebe um pequeno grupo de banhistas também da classe média-alta, já mais homogéneo na sua composição social, para, na opinião de uma frequentadora assídua do local, "conversar, respirar, oxigenar o cérebro, discutir questões da atualidade nacional, ‘pô boné' (contar novidades, fofocar)", tendo em mira a procura do necessário equilíbrio emocional e de melhor integração. Afora autóctones e grupos de cidadãos estrangeiros radicados na capital, a praia de Quebra-Canela é ainda frequentada por turistas europeus (franceses, alemães, ingleses, portugueses), entre Outubro e Fevereiro, de segunda a sexta-feira, ao longo do dia, à exceção dos fins-de-semana consagrados exclusivamente ao passeio no interior da ilha de Santiago.

A despeito da coexistência de várias categorias sociais ao longo de uma extensão de cerca de 350 metros, o certo é que, na ausência de regras ou normas de comportamento previamente estabelecidas, há uma nítida demarcação e apropriação territorial consensualizada, no interior uma "nova ordem" estratificada, de resto facilitadora do convívio sereno de gentes de todos os sexos, faixas etárias, proveniências, condições sociais e sensibilidades que, regularmente, demandam esse (não) lugar prenhe de simbolismo.

Cesár Monteiro

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Autoria:César Monteiro,19 out 2012 23:00

Editado porAlexis Cardoso  em  15 jan 2013 22:57

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