Na rota dinâmica do sincretismo: a mazurca, género musical cabo-verdiano

PorCésar Monteiro,9 nov 2013 0:00

Cabo Verde, produto de um verdadeiro encontro e interpenetração de culturas, é, na verdade, um país de mestiçagem cultural e de identidades híbridas e sincréticas, em permanente evolução, características que se traduzem, de forma clara e inequívoca, na sua rica expressão musical. Aliás, pela sua privilegiada posição geoestratégica, pelo seu passado e ainda pela génese da sua cultura identitária, pode afirmar-se, sem sombra de dúvida, ter havido sempre na sociedade cabo-verdiana uma música totalmente aberta ao mundo, de cariz sobretudo polifónico, caracterizada por uma mescla de géneros, formas, estilos e estruturas que tipificam e complexificam o respectivo sistema musical. Enquanto “facto social total” (Marcel Mauss) e expressão de cultura, a música, resultado da convergência e sobreposição de elementos musicais europeus, mormente de origem portuguesa, com outros de proveniência africana, que se deram aquando do povoamento das ilhas, na segunda metade do século XV, constitui um dos veículos privilegiados da manifestação da identidade cabo-verdiana e, ao mesmo tempo, uma das marcas mais visíveis, influentes e poderosas da diáspora.

De igual modo, não é menos certo que, a par de outras expressões culturais significativas (língua, culinária, artes plásticas, etc.), a música perfila-se como um importantíssimo baluarte da sociedade cabo-verdiana e, logo, uma das componentes mais representativas e estruturantes da sua matriz identitária e cultural que, ao longo da sua história, se foi desterritorializando e reterritorializando, sucessivamente, mercê de dinâmicos movimentos migratórios e de contactos vários, em paralelo com interessantes recomposições sociais. Contudo, não se sabe, ao certo, o momento em que se teria verificado nas ilhas atlânticas o processo de miscigenação musical resultante do encontro destas populações portadoras de diferentes tradições musicais.

Daí que, pela sua própria origem e percurso evolutivo, não se deva falar, “tout court”, de uma música cabo-verdiana autêntica, genuína, pura, porquanto a génese mestiça e crioula da própria sociedade cabo-verdiana faz com que a sua cultura identitária seja também aberta, plástica e transnacional com reflexos visíveis no seu complexo tecido musical cada vez mais diversificado e ecléctico marcado, igualmente, por processos de fusão, a exemplo do colá-zouk. De resto, a natureza sincrética e plural da música cabo-verdiana não rima com a autenticidade, pelo menos na acepção absoluta e rígida do termo, tanto é verdade que a Musicologia rejeita liminarmente o conceito de autenticidade, a favor do de singularidade. Partindo, pois, da maleabilidade que lhe é intrínseca, a música cabo-verdiana, na sua perspectiva abrangente, é híbrida e, por isso mesmo, de difícil definição e delimitação, do ponto de vista meramente conceptual, já que aparece compartimentada e classificada em géneros musicais e em modalidades específicas, todos eles portadores de um conjunto de características próprias e distintivas.

Refira-se, todavia, que, aqui, o conceito de género musical deve ser entendido, na generalidade, como um conjunto de características específicas que se repetem com alguma frequência, designadamente, o tipo de suporte poético, a padronização rítmica (flexível), a fraseologia e a roupagem musicais, mesmo na óptica da renovação interna do próprio género. Neste sentido, a repetição frequente de tais características estruturantes que encerra a noção de género, em si mesma bastante maleável, diga-se de passagem, permite, à partida, a tipificação da música e, logo, estabelece claramente a destrinça entre a morna e o fado, ou entre o funaná e a coladeira, por exemplo. Assim, do universo musical cabo-verdiano relativamente vasto e diversificado que recebe diversas contribuições de todos os quadrantes, faz parte uma plêiade de géneros e correspondentes estilos, com realce para, entre outros, a coladeira, o batuque, o funaná, a tabanca, o kolá, e o talaia-baixo, para lá de cantigas relacionadas com várias actividades, designadamente, as cantigas de trabalho, as rezas e os choros.

Igualmente, integram o cardápio musical crioulo estruturado, também, em função de áreas culturais específicas, pelas vias da apropriação e da recriação, outros produtos sincréticos, como sejam mazurcas, landús ou lundus, valsas, marchas, polcas, sambas, melopeias, cantigas de roda e “chotisse” (Fogo), entre outros. Se bem que originários da Europa ou da América, o certo é que esses géneros acabariam por integrar o panorama musical das ilhas, adequando-se aos instrumentos cabo-verdianos típicos (violão, viola, cavaquinho e violino), também eles importados, trabalhados e adaptados ao contexto nacional. Contudo, a marca da presença da cultura europeia na matriz cabo-verdiana viria a revelar-se particularmente importante através da morna, um dos géneros performativos tradicionais, cujo surgimento se situa entre meados do século XVIII e meados do século XIX e que tem sido objecto das mais tentativas de conceptualização.

Socorrendo-me, agora, da Enciclopédia Larousse (2007), a mazurka ou mazurca é uma dança nacional polaca feita por pares a três tempos, num compasso de ¾, oriunda de Mazuria, antiga província da Polónia, onde aparece por volta do século XVI, espalhando-se, depois, por todo o país. Mais tarde, na primeira metade do século XIX, este também género musical popular executado pelo virtuoso compositor e extraordinário pianista polaco, Frédéric Chopin ou Fryderyk (1810-1849), considerado o mais “moderno” dos músicos românticos e o “maior do seu tempo” (Roland de Candé), esteve em voga na Europa e América, altura em que, conforme Luís Romano citado por Carlos Gonçalves, terá chegado em força a Cabo Verde, através, supostamente, de “piratas franceses e ingleses” que aportaram o arquipélago, passando a integrar, definitivamente, a música popular autóctone. Na senda do processo de desterritorialização, a mazurca, na sua modalidade de dança tradicional, ter-se-á estendido ao condado de Nice, em França. Todavia, sabe-se, pela via documental, que já não se dança a mazurca na Polónia, enquanto continua a ser dançado em quase todo o arquipélago com realce para as ilhas de Santo Antão, São Nicolau e ainda do Fogo, na sua variante híbrida do rabôlo.

Aliás, desde sempre, os cabo-verdianos se têm revelado particularmente habilidosos e imaginativos em se apropriar de matrizes musicais alheias, assimilá-las e fazê-las coisa própria. A despeito da sua origem europeia, a mazurca, nas suas duas componentes – música e dança -, viria a tornar-se um género musical cabo-verdiano, por via de dinâmicas aculturativas, à semelhança, por exemplo, de outras expressões artísticas que seguiram percurso idêntico. Daí que, a partir de processos graduais de difusionismo, de apropriação e de incorporação por que passou, a mazurca passou a fazer parte, de corpo e alma, do universo musical cabo-verdiano (aculturado), tal como outros géneros também importados (o batuque), contrariando, assim, a visão purista, redutora, estreita e assente no senso comum advogada por certos sectores conservadores situados, sobr4etudo, nos planos da composição e interpretação.

De facto, à semelhança do tango argentino, por exemplo, a mazurca polaca desterritorializada e expatriada, através, designadamente, de processos migratórios, passou por um processo idêntico de disseminação ou circulação, ou seja, parafraseando Ramón Pelinsky, por uma série de viagens, de reterritorializações e de reinterpretações, e que, por sua vez, se traduziram, nalguns países do mundo, em processos criativos de ressignificação, hibridação ou transculturação, na perspectiva de Fernando Ortiz. No caso em análise, assiste-se, pois, a partir de um acto dinâmico de “perfilhação”, no sentido etnomusicológico, à transição de uma cultura musical estrangeira para uma cultura musical mestiça cabo-verdiana, que implica, nomeadamente, a aquisição constante e inovadora de elementos culturais, a incorporação e a reinterpretação da mazurca, em razão das circunstâncias geográficas, políticas, culturais e específicas musicais do país com o qual entrou em contacto, independentemente de ela ter ou não nascido ali ou acolá.

 

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Autoria:César Monteiro,9 nov 2013 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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