2016 é o ano do octogésimo aniversário da revista Claridade. As comemorações do Dia Nacional da Cultura neste ano certamente que tiveram essa efeméride em devida atenção. O que se iniciou em 1936 não foi simplesmente a publicação de uma revista ou aparecimento de uma corrente literária. Foi o início de algo muito mais abrangente, profundo e fundamental que de há muito se reconhece como o Movimento Claridoso. Não é por acaso que passou pelo teste do tempo e que as obras dos seus fundadores nos vários domínios sejam ainda as grandes referências literárias do país. Se alguma dúvida houvesse quanto a isso, desapareceu com o espectáculo da corrida ao Chiquinho de Baltasar Lopes a que se assistiu em Junho último quando em duas semanas mais de mil exemplares foram distribuídos com o nosso jornal, o .
Para a generalidade dos estudiosos, a Claridade contribuiu marcadamente para a emergência da cabo-verdianidade, para maturação da ideia da nação cabo-verdiana e para assunção por todos os cabo-verdianos do seu destino comum. É extraordinário que o movimento se tenha iniciado nos anos trinta de implantação do Estado Novo de Salazar e se tenha mantido firme e combativo ao longo dos anos da exaltação do império português de Minho a Timor, da censura e da PIDE. Não é menos extraordinário que tenha sobrevivido às críticas terríveis daqueles que, partindo de ideologias muito em voga num misto de negritude, pan-africanismo e marxismo, contestaram vivamente a visão de Cabo Verde, das suas gentes e da sua cultura a que os claridosos se propunham. O regime de partido único que veio a seguir ao salazarismo nunca deixou de guerrear os claridosos. Mesmo quando finalmente em 1986 com o Simpósio Claridade resolveu reconhecer o movimento, fê-lo na perspectiva dada na época pelo jornal governamental “Voz di Povo” em manchete: “Aos 50 anos Claridade entra oficialmente na história de Cabo Verde”.
A realidade é que o que aparentemente era um acto de arrogância – determinar o que fazia ou não fazia parte da história de Cabo Verde – já era um sinal de derrota. A ligação umbilical da Claridade com a cabo-verdianidade revelou-se mais forte. Demonstrou que estava para além de qualquer ideologia importada mesmo que suportada pelo Estado e pelos seus tentáculos ideológicos na comunicação social, no sistema de ensino e nas iniciativas culturais do regime. Compreende-se, assim, porque, apesar de tudo, o espírito do movimento se manteve bem vivo e que ainda hoje nos seus 80 anos continua a inspirar gerações de cabo-verdianos. Também se compreende porque ao longo de quatro décadas as grandes referências deste povo foram sempre os homens que resolveram fincar os pés no chão das ilhas e dar a conhecer ao mundo através da poesia, da prosa, música e ensaios a experiência humana original que germinou durante séculos de séculos nestas ilhas de Cabo Verde. Homens como foram Baltasar Lopes, Eugénio Tavares, Manuel Lopes, Jorge Barbosa, Teixeira de Sousa, António Aurélio Gonçalves, Francisco Xavier da Cruz (B Leza), Felix Monteiro e muitos outros que vieram depois deles.
Nestes dias de comemoração do Dia Nacional da Cultura conviria reflectir sobre o significado da vitória da Claridade sobre todos os obstáculos colocados no seu caminho. Conviria reflectir sobre como a morna dos anos trinta, quarenta e cinquenta, cantada na voz sublime da Cesária abriu o caminho para que a principal expressão musical cabo-verdiana seja eventualmente considerada Património Imaterial da Humanidade. Também conviria reflectir sobre as razões por que a literatura cabo-verdiana continua a ser dominada pelos exemplos literários dos anos que antecederam a independência no 5 de Julho de 1975.
Infelizmente, em vez de reflectir sobre estes factos inegáveis, o esforço de questionamento tem sido canalizado para tarefas como, por exemplo, desvendar o passado da escravatura em Cabo Verde, o passado do racismo e da exploração colonial. Nunca se falou tanto em escravos, escravatura e racismo em Cabo Verde. Não é matéria que se encontre na literatura claridosa que se constituiu em referência básica da cultura cabo-verdiana nem tão pouco na música que tornou Cabo Verde conhecido no mundo inteiro. Não obstante tudo isso o Estado, mesmo o democrático, não tem poupado esforços em resgatar o que claramente ninguém quer ou se identifica, salvo os que estão presos em ideologias passadas do pan-africanismo. A única explicação aparente para esta atitude é manter bem vivo um espírito de vitimização que faz as pessoas dependentes e serve desígnios de poder muito particulares que deixam a população permanentemente vulnerável e privilegia quem controla o Estado.
É evidente que quem melhor compete neste mundo globalizado é quem se mostra diferente, tem vivência diferente e se comporta diferente. Ser “glocal” ou seja, explorar a especificidade local para melhor se posicionar no mercado global é uma das chaves para o sucesso. O mundo está cheio de experiências passadas da escravatura, racismo institucionalizado e exploração violenta dos pobres e das minorias. Tentar apresentar Cabo Verde como uma experiência similar não é muito inteligente. Só lhe pode tirar as oportunidades que o ser diferente poderia propiciar ao mesmo tempo que o submete a tensões que dilaceram o seu tecido social porque, como já se sabe, até agora ninguém conseguiu enterrar a visão que o cabo-verdiano tem de si e que tão sabiamente foi traduzida nos trabalhos do movimento claridoso.
Para contribuir para a resiliência do cabo-verdiano perante essa avalanche de assaltos patrocinados não poucas vezes pelo Estado, o , desde a semana passada e até o dia 9 de Novembro, tem à disposição dos seus leitores os 9 números da Revista Claridade nas bancas acompanhados do jornal. É momento de Cabo Verde capitalizar a experiência humana que tão sabiamente o movimento claridoso soube expor e exprimir.
Texto originalmente publicado na edição impressa do nº 777 de 19 de Outubro de 2016.
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