De pé na ourela do cais
velejo para aquém do mar alto.
De mim jamais, eu me saio,
dos outros, jamais, eu me aparto.
No meu pulsar de marinheiro
navega teu coração.
Nunca o amor é de menos
nunca a saudade é de mais.
– Gabriel Mariano,
Ladeira Grande, 1993
Gabriel Mariano (José Gabriel Lopes da Silva Mariano, São Nicolau, 18.Maio.1928 – 2002), poeta, ficcionista e ensaísta, se estivesse vivo completaria 90 anos na próxima sexta-feira. Em jeito de homenagem, Falucho leva a bordo as suas personagens João Cabafume, passador de calaca, e Caduca, rocegador da ponta-de-praia (Vida e Morte de João Cabafume, 1976), e Nho Ambroze, coração do povo (Capitão Ambrósio, 1956) – as vozes do autor ou as próprias possibilidades não realizadas – numa viagem pela memória à baía do Porto Grande e à cidade do Mindelo.
Memórias da Baía do Porto Grande
A década de trinta entrara com uma grave crise mundial – a recessão económica de 1929-1934 – e Cabo Verde não pôde deixar de sentir a repercussão dessa crise.
Em 1932, a ilha de São Vicente atravessava momentos torturantes. A companhia carvoeira Wilson Sons reduziu a semana a 4 dias e meio e falava-se em que, continuando a actual situação, ver-se-iam as outras companhias obrigadas a diminuir o pessoal. Os trabalhadores passavam dias e dias sem trabalho.
A 7 de Junho de 1934, um grupo cada vez mais numeroso de homens, mulheres e crianças percorreu algumas ruas da cidade do Mindelo, arvorando um pano preto a servir de bandeira, aos gritos de MISÉRIA e FOME, na intenção de forçar as autoridades locais a solicitarem ao Governo da Colónia as providências que se impunham para socorrer a população desempregada.
É sobre este pano de fundo que, anos mais tarde, Gabriel Mariano escreve os seus poemas e contos.
João Cabafume, passador de calaca
João Cabafume não é ficção, existiu mesmo, confirma-se [“à memória de João Cabafume”]. Inspirou o poeta e ficcionista que o imortalizou:
João Cabafume
Recordo a tua vida
Catraeiro valente da baía
rocegador de carvão no fundo da baía
adoecendo depois tão longe da baía.
Havia um lugar vago no meu coração
e João Cabafume entrou.
“João Cabafume não foi um qualquer. Ele não era como um eu, ou como um tu que estendemos a mão para outro pôr corda. (…) virou catraeiro, depois passador de contrabando, depois negociante de bordo. (…) Passador de calaca, brigou com o destino no meio da cidade e derrubou-o na baía do Porto Grande. (…) Recado de João Cabafume devia ser recado de passador de calaca”.
Caduca, rocegador da ponta-de-praia
Caduca é rocegador da ponta-de-praia…
“Caduca só rouba as lanchas de carvão quando a lua enche o céu e engole as estrelas. Caduca cai na água e desliza feito moreia. Caduca vai devagar porque a lua cheia boia a seu lado. Os lanchões são pretos, pretos e altos. (…) Leva ao pescoço um saco velho onde cairá o carvão roubado. Caduca amarinha pela corrente das âncoras e alcança o convés. Vai devagar com a barriga lapada ao convés de ferro. Três pedras de carvão enchem-lhe o saco velho. (…) A proa da lancha é alta e Caduca dobra-se para formar o salto. O corpo ginga e fende o ar”.
As muitas perguntas para as quais Caduca não conseguia resposta:
“Se destino desta terra é apodrecer na ourela do mar que é que Caduca vai fazer? E os outros? Que é que os outros vão fazer? Que vão fazer os rocegadores de carvão? E os catraeiros em bote? E as carregadeiras do cais, e as meninas de vida?”
Caduca pensa que ir para o Sul é apenas trocar a hora da morte.
Nho Ambroze, coração do povo
A revolta do povo do Mindelo, que foi um aconte-cimento histórico datado (07.Junho.1934), ao ser-lhe atribuído uma carga simbólica, transformou-se num mito. Nesta decorrência, Nho Ambroze [Ambrósio Lopes (Santo Antão, 1878 – São Vicente, 11.Junho.1938), um carpinteiro muito loquaz e desembaraçado, com algum prestígio entre os vizinhos e junto das gentes a que pertencia], o líder dessa revolta, foi feito herói.
Gabriel Mariano, ao transformar o carpinteiro da Ribeira Bote num símbolo da resistência, em poema datado de 1956, mitificou-o: Capitão dos mortos ultrajados/ Capitão dos vivos humilhados/ […] / Meu capitão.
*
O Falucho veleja entre a Ponta de Morro Branco e a Ponta de João Ribeiro, os guardiões da baía e da cidade, hoje abandonados e esquecidos, parte de uma História de diazá que parece tão distante...
De pé na ourela do cais
velejo para aquém do mar alto.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 859 de 16 de Maio de 2018.
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