Falucho: Cabo Verde – De Ponto à Ponte

PorManuel Brito-Semedo,19 jun 2018 6:55

À memória de Armando d’Isilda, Capitão de Maria Sony Com o Falucho fundeado no porto, o marinheiro foi ver mundo pelo monóculo das ilhas.

Longe de sol dnha terra

ta rolâ na África

ta rolâ n’Iropa

ta rolâ na Merca

ta rolâ na mapa

ta rolâ na munde

“Recode d’Umbertona”,

Corsino Fortes,

in Pão & Fonema, 1974

Sempre se disse que os dois recursos de Cabo Verde são a sua latitude e a sua longitude, pontos fixos, ou seja, a sua posição geográfica. Foi por isso que, ao longo da sua história, as ilhas foram tidas ora como ponto de apoio para as descobertas e ao comércio na costa, ora como ponto de referência, ora como ponte ligando as duas margens do Atlântico.


Ponto de Apoio e de Referência

Ponto de Apoio às Descobertas e ao Comércio na Costa

Aconteceu quando, em 1462, começou a tarefa do povoamento das ilhas. Isto foi feito com o propósito de fazer destas um ponto de apoio à navegação e de assegurar a continuidade das descobertas mais para o sul e o comércio na costa.

 Ponto de Referência como Linha Divisória do Mundo

Ocorreu com o Tratado de Tordesilhas, assinado na povoação castelhana de Tordesilhas em 1494, celebrado entre o Reino de Portugal e o de Castela para dividir as terras “descobertas e por descobrir” por ambas as Coroas fora da Europa.

O tratado surgira na sequência da contestação portuguesa às pretensões da Coroa de Castela, resultantes da viagem de Cristóvão Colombo, que, um ano e meio antes, chegara ao chamado Novo Mundo, reclamando-o oficialmente para Isabel, a Católica (1474-1504), e definiu como linha de demarcação o meridiano a 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde.

Ponte de Ligação das Margens

Sendo a ponte algo que liga dois sítios ou duas margens, no caso de Cabo Verde, o arquipélago é a ponte que liga dois grupos étnicos, um proveniente da Europa e outro da África, e duas partes do mesmo Atlântico, a norte e a sul.

 Ponte entre Grupos Étnicos | Miscigenação Biológica e CulturalA individualização cultural ou a identidade do homem cabo-verdiano, muito cedo definida, adveio desta sua mista realidade – a africana e a europeia – com características diversas e cheia de contrastes.

Cabo Verde é um caso sui generis em que o homem, sendo fruto de caldeamento de raças e de instituições, soube cedo encontrar o seu caminho e a sua identidade cultural. O folclore, a música popular, a língua crioula e as formas cultas de literatura são os principais traços que o caracterizam e o individualizam.

É este homem crioulo, produto da terra onde nasceu e das circunstâncias sociais e históricas que o enformaram, que aqui se procura dar a conhecer e entender.

 Portos Marítimos ligando Europa | África | AméricasFoi, primeiro, com o Porto de Ribeira Grande em Santiago (Séc. XV-XVIII);

Foi, depois, com o Porto de Sal-Rei na Boa Vista (Séc. XVIII-XIX);

Foi, ainda, com o Porto de Furna na Brava (Séc. XVIII-XIX);

Foi, também, com o Porto Grande em São Vicente (Séc. XIX-XX).

Partindo dos pontos fixos da sua localização geográfica, numa altura em que se discute a dupla ancoragem de Cabo Verde – a sua integração na Comunidade Económica da África Ocidental (CEDEAO) e um estatuto especial na zona periférica da Europa (EU) – as ilhas continuam tendo a mesma vocação, a de ser ponto de referência no mundo e ponte de ligação entre continentes, que precisa de ser valorizada e potenciada.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 863 de 13 de Junho de 2018.

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,19 jun 2018 6:55

Editado porAndre Amaral  em  20 jun 2018 11:16

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