De Lisboa vê-se o mundo em tempo de festas juninas, de investimentos na cultura e num turismo de futuro

PorJosé Almada Dias,3 jul 2018 6:26

José Almada Dias
José Almada Dias

​Lisboa, a antiga capital do denominado Império português é hoje uma das cidades que está na mira dos turistas mundiais.

A cidade tornou-se na última década quase irreconhecível, com a enorme quantidade de turistas que circulam pelas suas ruas, que se sentam nas esplanadas dos restaurantes e que formam enormes filas para visitar os seus monumentos.

O clima ameno, a gastronomia, a bonita arquitectura, monumentos bem mantidos, a localização ribeirinha no estuário do Tejo, são hoje activos que fazem milhões aterrarem no aeroporto da Portel ou desembarcarem

Mas Lisboa não entrou na moda apenas pelos seus activos “naturais”. Houve muito investimento estratégico na construção de milhares de m2 de salas para conferências, transformando a cidade num destino mundial no segmento MICE (Meetings, Incentives, Congress and Events), tradicionalmente denominado como turismo de negócios, na construção de uma rede de campos de golfe, na requalificação da cidade e do seu património construído e finalmente num programa de eventos culturais e desportivos de grande qualidade, transformando-a numa cidade viva e atrativa.

Ou seja, se Lisboa e Portugal hoje estão no topo das preferências de milhões, não é fruto apenas do acaso, ou dos azares de outros. Há também trabalho feito com visão e oportunidade.

Por estes dias Lisboa festejou com pompa e circunstância o Santo António, o santo (católico) padroeiro da cidade. É uma festa que vale a pena assistir. A cidade fica toda enfeitada, as ruas estão apinhadas de gente de dia e de noite e parece que ninguém dorme. Sempre foi assim, mas há uma diferença: hoje a acompanhar o frenesim dos lisboetas durante cerca de um mês de loucura, estão milhares de turistas vindos de todos os cantos do planeta.

A festa religiosa, que há séculos absorveu elementos ditos profanos, tornou-se um dos eventos mais procurados da cidade.

Dizia-me há dias um amigo português, que não percebia essa história do Estado português ser laico, num país com raízes profundamente católicas. E questionou: se o Estado é laico por que razão os feriados religiosos são todos católicos? E nomeou: do Natal aos santos denominados de populares, todos são católicos. E ainda acrescentou que ainda há dias terminou o Ramadão e não houve nenhum feriado por essa razão em Portugal, apesar de viverem em terras lusas muitos muçulmanos. Igual raciocínio se poderia aplicar a outras religiões que são professadas por muitos portugueses. E finalizou dizendo que é pela tolerância religiosa, mas não compreende esta aparente incongruência.

O questionamento desse meu amigo não me surpreendeu. Eu próprio já participei nesse debate em Cabo Verde em várias tertúlias, sejam físicas, sejam tertúlias online nas redes sociais. Debates que normalmente se tornam acesos, particularmente pela energia quase furiosa que é colocada nos mesmos pelo pessoal que se afirma agnóstico. Quando as coisas aquecem, normalmente pergunto-lhes de forma provocatória se em coerência não deveriam deixar de observar todos os feriados de origem religiosa (leia-se católica) que temos no nosso calendário, pergunta que normalmente tem o condão de acabar com o debate entre democráticos protestos e amuos…

Julgo que a tolerância religiosa é mais um factor de sucesso de Portugal no mundo actual.

Voltando ao Santo António, vi imagens da festa rija que aconteceu no bonito concelho do Paúl, na também bonita ilha de Santo Antão.

Uma amiga originária desse concelho disse-me que desde tempos idos a festa sempre foi rija, festejando-se durante cerca de um mês.

Essa memória é interessante para um outro debate recente na sociedade Verdiana e não só: estarão estas festas a ganharem novo fôlego um pouco por todo o mundo (católico) por razões identitárias? Ou será que estaremos todos muito interessados na promoção e preservação das nossas tradições por ser chique do ponto de vista cultural? Ou porque há dinheiro para isso?

Falando-se em dinheiro, é impossível fugir ao polémico debate sobre os gastos que as Câmaras Municipais verdianas têm vindo a fazer nas festas dos seus municípios, sejam eles de origem religiosa, como são as festas dos santos padroeiros, sejam eles puramente pagãos como são os festivais de música, entre outros.

Num tempo em que o populismo está na moda, e em que as economias nem sempre andam ao ritmo necessário para satisfazer as aspirações mínimas das populações, é natural que o escrutínio sobre estas questões seja cada vez maior.

Amiúde governantes, mas sobretudo autarcas são acusados de esbanjarem dinheiro dos contribuintes em festas e festanças, dinheiros esses que poderiam ser canalizados para outros sectores considerados mais prioritários.

Por outro lado, todos concordamos que o turismo é e será o principal motor da nossa economia nos tempos actuais e futuros.

Parece-me que passou a ser igualmente consensual, para meu regozijo pessoal, que a nossa cultura é o principal factor que nos diferencia e é portanto, o drive que poderá ajudar-nos a construir um turismo de alto valor acrescentado, que crie riqueza para o país e ajude a trazer felicidade ao povo cabo-verdiano, que tanto gosta de receber quem vem de fora.

Ora, se a cultura deve ser o nosso principal activo turístico, como questionar o investimento que os autarcas fazem nas festas tradicionais dos seus municípios?! Estamos a falar da nossa cultura…

Este não é um debate fácil. Eu sou dos que aplaudo esses investimentos (que não considero gastos). Cada festa popular, cada festival de música ou de teatro, pode ser transformado num bom produto turístico, desde que se preserve a sua autenticidade por motivos de preservação da nossa identidade (autenticidade, que é aliás, o que os turistas valorizam mais).

Ao invés de estarmos a discutir os montantes investidos, se calhar deveríamos estar a canalizar energias a debater como imprimir maior qualidade a esses eventos, por forma a que num futuro próximo, possam a um tempo proporcionar momentos de lazer às populações locais e atrair turistas que possam pagar para assistir a eventos com qualidade e onde possam confraternizar com a população local. Existe melhor forma de criar riqueza?

A ilha da Madeira é 40 km2 mais pequena que a nossa ilha de Santo Antão. Recebe hoje mais de 1 milhão de turistas, apesar de nem ter praias de mar dignas desse nome. Engana-se também quem pensa que o turismo na Madeira se desenvolveu por causa da paisagem, das suas verdes e formosas montanhas. O turismo da Madeira foi crescendo através de uma aposta estratégica em eventos culturais existentes (Natal, Fim do Ano, Carnaval) e a criação de outros como a Festa das Flores, só para citar alguns exemplos. Turismo urbano e cultural com epicentro na cidade do Funchal.

Fruto dessa aposta estratégica e de um investimento massivo nos seus eventos, a ilha da Madeira é considerada há dois anos seguidos como o melhor destino turístico insular do mundo. E há décadas que os seus hotéis ganham prémios nos Óscares do Turismo a nível mundial.

E assim, essa ilha outrora pobre, de onde emigravam madeirenses para Cabo Verde, tem um PIB per capita superior à média da União Europeia.

Segue-se a pergunta que venho fazendo neste espaço há vários anos: quando iremos estudar a experiência da Madeira?

O Governo de Cabo Verde tomou a decisão, que considero acertada, de uma abordagem estratégica de desenvolvimento do turismo através de estudos do tipo master plan por ilha.

Há muitas ilhas de Cabo Verde que poderiam aprender imenso com a Madeira. Pode ser que seja desta.

Desta Lisboa que B. Leza cantou, vê-se um mundo cada vez mais cosmopolita e que valoriza a cultura alheia.

Os tempos que vivemos não são assim tão maus, muito pelo contrário.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 865 de 27 de Junho de 2018.

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Autoria:José Almada Dias,3 jul 2018 6:26

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  3 jul 2018 6:26

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