Retratos do Quotidiano: Colorido e musicalidade na pintura impressionista de David Lima (parte I)

PorCésar Monteiro,31 jul 2018 6:11

Oriundo de uma família judaica sefardita, do lado materno,que emigrara para a ilha de Santo Antão, em meados de oitocentos, conforme fontes históricas, David Levy Lima nasce, a 13 de Outubro de 1945, na então Vila da Ribeira Grande, mais precisamente na Povoação, atrás da imponente Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Rosário.

O pai, de nome João Francisco Lima, também santantonense, mais conhecido por João Domila, ou Domila, tout court, trabalha nas Obras Públicas, como administrativo, na Secretaria, primeiro em Santo Antão, e, depois, em São Vicente para onde é transferido, até à sua partida definitiva para Portugal, em Novembro de 1963, a fim de se juntar à esposa e aos filhos, que ali já se encontravam instalados. A mãe, D. Maria Bentubo Lima, natural da Boca de Coruja, que reside em Mortal, periferia de São Pedro do Estoril, desde 1970, nunca chegou a exercer qualquer actividade profissional propriamente dita, que não fossem as lides domésticas a educação dos cinco filhos, na altura, e a gestão directa de algumas propriedades agrícolas, na sua ilha natal, mais precisamente na Longueira, ao lado da família Lima, na Boca de Coruja e, ainda, no Manuel de Joelho.

Desde a sua mais tenra infância, David, filho primogénito, sob influência direta dos pais, que, de resto, já eram praticantes religiosos, começa a frequentar a Igreja do Nazareno, na Povoação, dirigida, sucessivamente, pelos pastores evangélicos Ilídio Ramos, Francisco Xavier (Chiquinho) e Luciano de Barros. Aliás, “apanho a religião em casa, pois o meu pai era muito ativo e participava em tudo na Igreja”. Todavia, pese embora a sua vocação eminentemente religiosa interiorizada em casa, David não viria a ser batizado, um rito de passagem cristão ministrado apenas a adultos. Em São Vicente a estudar, quiçá longe da influência dos pais, deixa de praticar a religião nazarena, ainda em fase de adolescência. Rodeado pelo mar, David Lima nasce e cresce numa comunidade de interconhecimentos então marcada pela presença de algum dinamismo cultural e cívico e prenhe de sonoridades musicais, onde se perfilam bons tocadores de rebeca, violão, banjo, e cavaquinho, como o violinista Frank Cruz, João de Joana (violão), Firmino de Nhô Padre (violão, cavaquinho e banjo), Júlio Barber (violino), Armindo de Nhô Padre (violão) e Mário Fonseca (voz e órgão), entre outros.

Na Escola Roberto Duarte Silva (Escola Central), na Povoação, David frequenta o ensino primário, até à 4ª classe, e é discípulo, sucessivamente, de Jorge Silva, Pedro Ciríaco, Delfina Rocheteau e Amélia Rocha, entre outros professores, que marcam a sua infância. Concluídos os estudos primários, prepara-se para o exame obrigatório de ingresso no liceu, recebe aulas de explicação de Armando Cruz, então funcionário dos Correios, habilita-se a viajar para S. Vicente e, com outros hóspedes, “fico hospedado em casa de D. Luzia Silva, pessoa próxima da minha mãe (…) ”. Dois meses depois, em S. Vicente, orientado pelo explicador Nhô Fidjim Miranda, conclui o exame de admissão, em 1956, e ingressa, no ano lectivo seguinte, no 1º ano do Liceu Gil Eanes, no término do qual o pai, que, na altura, tinha baixo ordenado, é forçado a interromper-lhe os estudos. Diante da decisão paternal, David regressa à Povoação, em 1958, por causa de dificuldades financeiras conjunturais por que passava a família Levy Lima e ali permanece até 1960,“sem fazer nada” que o motivasse tanto, a não ser dar “explicações de Matemática (…), fazer brinquedos de arame e coisas diversas”.

A interrupção forçada e circunstancial dos estudos secundários deixa-o “preocupado e traumatizado, no bom sentido”, ao mesmo tempo que o motiva para “agarrar a alguma oportunidade que me pudesse aparecer, na altura (…)”e, ainda muito cedo, lhe faz ganhar “forte consciência social e têmpera, que hoje tenho”. Na impossibilidade material de prosseguir os estudos em São Vicente, David recolhe-se, na sua vila, num processo de interiorização e de reflexão, “começo a pensar, a crescer, a adquirir calo, que é o endurecimento da maturação, deixo de ser criança, começo a ver o mundo com os olhos de adulto”. A despeito da sua extração rural e de percalços da vida, não teve, em momento nenhum, quaisquer dificuldades em se adaptar à força incontornável da cultura urbana, tanto assim que, desde a altura em que é coagido a interromper os estudos, por razões de ordem familiar, passando por um processo de “muita interiorização”, se considera “cidadão do mundo”, sem fronteiras, ou quaisquer entraves.

Volvidos dois anos consecutivos de recolhimento e introspeção forçada, o pai resolve mandá-lo para São Vicente prosseguir os estudos, matricula-se, desta feita, na Escola Industrial e Comercial do Mindelo, em 1960, faz ali o 2º ano do Ciclo Preparatório e ingressa imediatamente no Curso de Montador Electricista. No término de dois anos sucessivos de formação na área de electricidade, atribui-se-lhe uma bolsa de estudo provincial de empréstimo, no valor de 1200$00 (mil e duzentos escudos) mensais, a seu pedido e mediante apresentação de candidatura, que o habilita à nova largada para outros rumos. Contemplado, em terras lusas, com uma bolsa de estudo, donde “tudo saía”, David Lima chega a Lisboa, em 1963, com algum atraso, é certo, matricula-se na Escola Industrial Afonso Domingos, e, nesse estabelecimento de ensino técnico, frequenta o 3º e último ano do referido Curso de Montador, já iniciado em São Vicente e, concomitantemente, o 1º ano de Secção Preparatória, que, finalmente, lhe daria acesso curso de agente de Engenharia, no Instituto Industrial de Lisboa. Todavia, “vicissitudes diversas e razões de índole burocrática” aliadas à desmotivação obrigam-no, em finais de 1965, a pôr termo à Secção Preparatória iniciada no ano lectivo 1963-64, e abraça, rapidamente, a actividade artística, primeiro o desenho, e, mais tarde, a pintura. É verdade, igualmente, que, desde tenra idade, David mostra vocação para o desenho, que, de resto, apanha em casa, através do pai, embora este último nunca se tivesse dedicado à vida artística, nem dela tivesse vivido ou, sequer, ganho algum dinheiro. Por meio da observação directa, “inspiro-me no meu pai, que tinha muito jeito, sempre o vi a desenhar” e transmite, sem dificuldades, essa propensão natural para desenho aos demais filhos. Sob olhar autoritário do progenitor, que viria a falecer em Portugal, em 1992, aos 78 anos, Levy Lima pega no pincel, pela primeira vez, aos cinco anos de idade, e “desenho o meu nome David (…)”, numa fase particularmente interessante da sua vida, em que via tudo “através do fascinante desenho”.

Em Lisboa, interrompidos os estudos em 1965, por vontade própria, começa, imediatamente, a vida artística, com “coisas típicas, ‘scatch’, ao natural” e a desenhar paisagens urbanas na Mouraria e no bairro da Alfama, que lhe rendem “alguns trocados”. Numa altura em que o ambiente naquela cidade portuguesa se apresentava “muito insípido e muito atrasado”, mormente no domínio das artes, “passei a vender ali quadros de pintura a óleo, por um preço irrisório, que, depois, eram revendidos”, sob proposta do proprietário de uma casa de molduras, na Rua São José, entre finais de 1965 e inícios de 1966. Entretanto, a partir dessa data da década de 60, trabalha, sucessivamente, nas galerias espanhola Yela, na Rua Rodrigo Fonseca, e Roberto, no Campo de Ourique, e, ainda, na filial desta última, em São Pedro do Estoril, até à instalação definitiva do atelier do próprio artista, tambémem São Pedro, em 1977. Consolidado o processo de iniciação à vida artística, que elege, na década de 60, como actividade profissional exclusiva, David Lima, casado e pai de três filhos, tem-se afirmado e projectado na pintura, na linha estilística do chamado impressionismo figurativo, que privilegia a espontaneidade, o colorido, a luz, o movimento e a musicalidade, numa relação fortemente comprometida com a espécie humana e a natureza, aliás, as sua principais fontes de inspiração.

David Lima
David Lima

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:César Monteiro,31 jul 2018 6:11

Editado porrendy santos  em  6 ago 2018 12:44

pub.
pub

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.