Como fiz o que pude como João Semana nas ilhas cabo-verdianas (1)

PorArsénio de pina,7 ago 2018 7:06

Arsénio de pina (Pediatra e sócio honorário da ADECO)
Arsénio de pina (Pediatra e sócio honorário da ADECO)

​A figura de João Semana, criada pelo médico e escritor Júlio Diniz, representava o médico na província, no tempo do meu pai e antes, sem recursos laboratoriais, sem imagiologia e sem outros meios, somente existentes em certos meios urbanos. Foi o que aconteceu com o meu pai em Cabo Verde, na Ilha Brava, quando aí chegou, na década de vinte do século passado, onde dispunha de três cavalos para poder atender a clientela, e noutras ilhas onde trabalhou, prevenindo-se antes, em Lisboa, frequentando uma escola de equitação. Outros colegas tiveram trajecto semelhante nessas épocas.

Vou tentar relatar o que se passou comigo, pensando sobretudo nos colegas actuais de modo a fazerem ideia da vida que levávamos e das iniciativas que teríamos de desenvolver e as observações clínicas que tínhamos de desenvolver e aperfeiçoar para ultrapassar as limitações e carências nas ilhas que não S. Vicente e Santiago. Também penso que estas linhas serão um contributo à história dos colegas no exercício da Medicina em Cabo Verde.

Cheguei à Praia em Fevereiro de 1967, recém-formado, já com a valência, exigida na altura, de Medicina Tropical; as condições de trabalho não eram muito diferentes das encontradas pelo meu pai na década de vinte e anos seguintes. Fiquei em casa do meu irmão, enquanto aguardava distribuição de casa, o que veio a acontecer somente algum tempo depois da chegada da minha mulher.

Como já havia algumas estradas, dispunha, na Ilha Brava, de um pequeno carro com tracção às quatro rodas, de origem austríaca, que me levava a quase todo o sítio, fazendo o resto do caminho a pé ou a cavalo. Na ilha do Fogo, dispunha de um Land Rover da Saúde, além do meu carro pessoal. Quanto ao resto, as condições eram muito semelhantes às vividas pelos médicos dos tempos do meu pai, com a diferença de dispor de mais medicamentos (especialidades farmacêuticas), radioscopia no Fogo, e nos últimos tempos, de um aparelho portátil Siemens de museu, na Brava, que localizei no depósito de medicamentos e instrumentos dos Serviços de Saúde na Praia e levei para essa ilha, com cem vezes mais radiação do que os aparelhos modernos; um deputado em visita à ilha, que era assistente de Radiologia em Lisboa, aconselhou-me a não o utilizar pelo risco de radiações, risco que assumi, por necessidade.

Os meus nove meses de estágio no Hospital Central da Praia (1967), passei-os acoplado ao Dr. José Cohen, cirurgião, o colega mais qualificado na altura, tendo aprendido e praticado bastante com ele. Ao cabo de algum tempo, foram-me atribuídas outras funções, além de assistir às velhotas de estimação da consulta externa do Dr. Cohen, que este passara para mim, que não encontrou protesto, visto algumas terem sido clientes do meu pai, no passado, e acreditarem que pudesse ter as qualidades do meu progenitor: responsável pela Enfermaria da Maternidade, devido à boa preparação trazida de Coimbra, e da Pediatria, aqui por falta de médicos, por a nossa formação pediátrica em Coimbra, nessa época, ser fraca, essencialmente teórica. Esta enfermaria teve antes uma pediatra na sua direcção, esposa do estomatologista, que pouco tempo aí esteve, por a remuneração ser diminuta e o trabalho excessivo. Não deixou sinal da sua passagem: nenhum protocolo terapêutico ou outra orientação que me pudesse ser útil.

Além dessas funções e da consulta externa e banco de urgência, tinha visitas itinerantes, na companhia de um condutor, à Cidade Velha e São João Baptista, onde não havia centro de saúde nem enfermeiro, fazendo a consulta na residência do cabo-chefe, na Cidade Velha, e, em São João Baptista, em casa de uma velhota – a única que sabia ler, familiar do colega Santa Rita Vieira, sempre a primeira na lista de consulentes – que lia os nomes dos destinatários dos embrulhos com medicamentos receitados, que um elemento da aldeia ia buscar à Praia; isso quando estava bem-disposta, dado que, por vezes, recusava-se a colaborar, e cada um levava o seu embrulho de comprimidos, xarope ou poção, porque não podia receitar injecções. Regressava a casa cheio de poeira, que a estrada era de terra batida. Detectei, com o tempo, que pessoas a quem receitara hipotensor estavam a consumir antidiarreico e outros, que deveriam estar a usar antidiarreicos ou vitaminas estavam com hipotensor. Falei com o Chefe dos Serviços de Saúde informando-o da inutilidade e mesmo riscos da minha visita sanitária à Cidade Velha e São João Baptista. A resposta foi que a visita era mais política do que sanitária, por haver necessidade de cobrir todo o país com “assistência médica”; tive de continuar a fazer essas visitas. Lembro-me de um velho pescador do Porto Mosquito, homem da sua canha, que me aparecia sempre com queixas reumáticas das friezas do mar, a quem receitava xarope iodotânico fosfatado e vitaminas. Quando resolvi limitar a terapêutica às vitaminas pediu-me, encarecidamente, que deixasse o tal “bom xarope do senhor doutor”, porque sentia-se outro quando bebia duas colheradas de sopa do xarope acompanhadas de uma lasca de cuscuz, o que não estranhei, por o xarope conter álcool.

Fui por duas vezes à Boavista, de avião, onde permanecia durante uma semana. A população, na altura, era de cerca de 3.000 habitantes, havendo um único enfermeiro e ausência total de restaurantes, pensões e hotéis. Uma velhota preparava-me as refeições. Dormia na delegacia de saúde, num quarto em cama para doentes. Na minha primeira noite não consegui pregar olho, tal a abundância de pulgas e percevejos. No dia seguinte, a minha primeira acção foi comprar insecticida e mandar limpar o colchão e spring dos percevejos. Tinha direito a cem escudos diários de ajuda de custos, que recebia alguns meses depois, com descontos.

O horário de trabalho era das oito horas ao meio dia, mas praticamente passava todo o dia, às vezes, as noites, no hospital. Chegámos a ser três médicos no Hospital Central, com outro no interior em Santa Catarina, que teve de regressar à Praia, passando eu a cobrir Santa Catarina em visitas semanais.

Médico patrício jovem na terra com carradas de paciência e vontade de bem servir, passei a ser procurado pelos que não se contentavam com consultas apressadas de outros colegas. Apareceu-me um homem com idade entre os vinte e trinta e tal anos, homem do campo, com o diagnóstico de cardiopatia (não me lembro se reumatismal, ou congénita). Pela história clínica detalhada soube que era dos Picos, fora saudável e homem de enxada, mas, a pouco-e-pouco começou a perder forças e a cansar-se facilmente, a ponto de já nem poder com uma gata pelo rabo. Trazia RX do tórax em que o coração ocupava quase toda a caixa torácica. A palidez das suas mucosas (anemia) era impressionante, cabelos ralos e à auscultação, sopro cardíaco rude. Suspeitei, imediatamente, dos meus conhecimentos de Medicina Tropical e sabendo haver um foco de Ancilostoma nos Picos, que estivesse com anemia grave provocada por esse parasita intestinal. Pedi-lhe hemograma completo e pesquisa de ovos de Ancilostoma nas fezes, que confirmaram anemia grave, eosinofilia acentuada e abundantes ovos de Ancilostoma nas fezes. Pedi sangue, que não obtive por se reservar à Cirurgia, e enviei-o ao Serviço de Endemias onde esses casos eram tratados. Alguns meses depois voltou à minha consulta, e já nem o reconhecia. Tinha recuperado a sua saúde e ia agradecer-me, por já ter passado por alguns colegas que se conformaram com o diagnóstico de cardiopatia.

Seis meses após a minha chegada, chegou a minha mulher de Lisboa – casara por procuração –, que se assustou com a minha magreza, por ter saído de Lisboa pesando 75 Kg e estar com 59 Kg. Tivemos direito a três dias para lua-de-mel gozada em São Jorge dos Órgãos. Já mais apoiado e feliz, mal tivemos tempo para gozar a casa que nos foi atribuída, dado que no B.O. veio a minha transferência para a Ilha Brava (Novembro de 1967), sem que ninguém me tivesse avisado antes. Tínhamos direito ao pagamento, pelo Estado, das nossas passagens, mas teríamos de suportar o custo do transporte da mobília, como era norma nesse tempo. Só pude ser transferido para Brava por o meu pai, que aí estava de férias e garantia a assistência médica, ter partido de regresso a Lisboa,quando a sua ambição era que eu fosse aí colocado, enquanto lá estivesse, para me auxiliar nas primeiras passadas transmitindo-me a sua experiência.


[Continua]


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 870 de 01 de Agosto de 2018.

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João Semana

Autoria:Arsénio de pina,7 ago 2018 7:06

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  7 ago 2018 7:06

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