Como fiz o que pude como João Semana nas ilhas cabo-verdianas (3)

PorArsénio de pina,20 ago 2018 7:27

Arsénio de pina (Pediatra e sócio honorário da ADECO)
Arsénio de pina (Pediatra e sócio honorário da ADECO)

​Chegámos a S. Vicente para o serviço de Sanidade Marítima no Porto Grande e de Delegacia de Saúde com atraso de um mês, por o navio de carreira que nos deveria transportar se ter encalhado, sem hipótese de recuperação, a bordo do navio Primus (uma velha traineira a motor), eu, a Sílvia (grávida) e o filho, que tiveram a sorte de ficar no camarote cedido pelo comandante bravense, que nos conhecia, comigo no porão, por cima de sacos contendo sementes de purgueira carregados no Fogo. O filho (Hermano), contagiado pelas queixas bravenses dizia, “mamã dói-me o coração” (que era enjoo) e vomitava sobre a mãe.

Chegámos num mísero estado, após uma noite de viagem; acostado o Primus ao cais, ao contrário da norma, víamos os familiares que nos esperavam no cais de baixo para cima. Desembarcados, só nos apetecia um bom banho com mudança de roupa e repouso. O delegado de saúde tinha direito, em S. Vicente, a casa, mas o colega que me precedeu no cargo, reputado pela sua sovinice, tinha mandado cortar a ligação eléctrica e água, o que nos complicou um tanto a vida nos primeiros dias, até a normalização da situação.

Em S. Vicente pudemos adquirir um automóvel em segunda mão, consumindo dois terços das nossas fracas economias bravenses. Nasceu a nossa Filha (Sandra), o mesmo tendo acontecido com o Hermano que, à cautela de qualquer incidente no primeiro parto, acompanhei a Sílvia a S. Vicente, tendo regressado à Brava antes do seu nascimento, por exigência do serviço.

Introduzi algumas alterações na Delegacia de Saúde. Suspendi as consultas particulares para poder ter tempo para o trabalho que pretendia levar a cabo, o estudo e proposta para o saneamento básico da cidade. O enfermeiro da Delegacia de Saúde e o técnico da Sanidade Marítima passaram a ter direito a 20% dos rendimentos que cabiam ao médico, por achar meritório o trabalho que desenvolviam, sem nenhuma compensação extra. Fiz a revisão de todos os casos de lepra e de comunicantes da ilha, em estreita colaboração com o delegado de saúde de Santo Antão visto alguns me dizerem que faziam o tratamento nessa ilha, e dei alta à maioria dos doentes que estavam em tratamento havia cerca de dez anos, como acontecia na Brava. Na companhia do enfermeiro das Endemias, Rui Pélico, percorri a cidade e arredores de lés-a-lés, no meu carro particular, por a delegacia não possuir nenhum, desinfestando barracas dos bairros de lata e da “Ilha da Madeira” com insecticidas ainda existentes nas Endemias, transportando gambúsias dos poços de água de abastecimento da cidade para queles que não os tinham, por se alimentarem de larvas de mosquitos, visitámos o aprisco municipal que tinha mais ratazanas do que porcos e, ao cabo de cinco meses, pude apresentar uma proposta para o saneamento da cidade do Mindelo que, na altura, defini, parafraseando a definição de ilha, como uma porção de casa e ruas rodeadas de esterco por todos os lados. Um mês antes de ter concluído a proposta, o novo Governador-Geral, Brigadeiro Lopes dos Santos, fez a sua primeira visita a S. Vicente, tendo ficado impressionado com o miserável estado de saneamento da cidade. Mandou chamar o delegado de saúde – que era eu – criticando a situação, no que lhe dei razão, informando-o de que estava a ultimar uma proposta de saneamento básico a apresentar brevemente à Câmara Municipal. Felicitou-me pela decisão, afirmando que poderia apoiar a C. Municipal se houvesse falta de verba para isso. Como descrevi no artigo “Nacos da história colonial recuperada do meu processo da PIDE”, apresentei a proposta à C. Municipal, mas nunca foi discutida, cujo motivo vim a saber recentemente ao consultar o meu processo da PIDE, na Torre do Tombo: a Rádio Barlavento quis entrevistar-me sobre a proposta, tendo a Comissão de Censura considerado inoportuna a entrevista e a discussão da proposta na Câmara Municipal. À Comissão de Censura pertenciam três patrícios que se diziam amigos, incluindo o Presidente da C. Municipal, patchê, que nada me disseram. Com amigos assim, dispensam-se os inimigos…

A PIDE digeriu mal o meu relatório médico solicitado pelo tribunal sobre lesões de um preso político em julgamento em S. Vicente, que safou o preso da cadeia. Lembro-me disso, porque me recusei a observar os presos na presença da força militar que os levara à delegacia de saúde, tendo telefonado ao Procurador da República (Dr. Simões), que me deu razão, pedindo-me que passasse o telefone ao cabo, ou sargento, que se recusara a sair do consultório; este teve de meter o rabo entre as pernas e sair, deixando-me a sós com os presos, por sinal, um deles primo do amigo, Eng. Jorge F. Querido. O advogado dos presos políticos nesse julgamento, outro amigo, Dr. Felisberto Vieira Lopes, felicitou-me pela coragem da recusa.

O que a PIDE não soube, tantos os pormenores encontrados no meu processo, pois desde que cheguei a Cabo Verde, logo que era transferido, também o meu processo pidesco me acompanhava e ia enriquecendo de suspeitas, foi que cedi o meu automóvel pessoal para diligências clandestinas no Mindelo e emprestei dinheiro (posteriormente devolvido) para actividades ligadas ao PAIGC desenvolvidas por Joaquim Monteiro em Santo Antão, com quem me tinha encontrado em Paris, do grupo constituído por Olívio Pires e Pedro Pires, em 1965, aquando da tradicional viagem de curso dos finalistas de Medicina pelos laboratórios farmacêuticos europeus.

De S. Vicente fui transferido para o Hospital Central da Praia. Chegado à Praia, já com dois filhos, a Sílvia, novamente grávida, e sem casa para morar, ficámos com a minha irmã, casada com um funcionário aduaneiro, com dois filhos menores, também transferido para Praia e que estiveram longamente em pensão, sem casa, tendo conseguido obter uma pequena devoluta a necessitar de obras, cujo custo tiveram de suportar para poderem libertar-se do custo da pensão.

Tanto eu como a Sílvia contraímos pneumonia, e quando me senti melhor, regressei ao hospital, para ser recambiado para casa pelo Dr. Cohen, que, fazendo-me um RX do tórax confirmou que ainda não estava curado. Estivemos alguns dias com a minha irmã e cunhado, passando para a casa do administrador Lopes dos Santos, que vivia sem família, antes de encontrarmos casa, com o inconveniente desta ficar à frente do hospital, portanto, à mão para as chamadas de urgência.

O trabalho no Hospital da Praia era castigado, por termos chegado a ser três médicos e somente dois a fazer banco de urgência, de uma semana de duração, sem direito a nenhuma remuneração. Havia um médico militar que apoiava nas consultas externas. Retomei o trabalho ao lado do cirurgião, ficando por minha conta as autópsias e respectivos relatórios, as direcções da Maternidade e Enf. de Pediatria, visitas itinerantes à Cidade Velha, S. João Baptista e Santa Catarina, quando o médico aí destacado teve de descer à Praia para assumir a Delegacia de Saúde, e Boa Vista. Estava, em verdade, de urgência durante todo o tempo pelas exigências da Maternidade e Pediatria, além do serviço de Banco semanal. Somente a visita à Boa Vista é que era remunerada – ajudas de custo - com cem escudos diários pagos meses após o regresso. A clínica remunerada era mínima, dado que todos achavam que o médico tinha a obrigação de trabalhar de graça, embora a tabela fosse de cinquenta escudos por consulta particular. O ordenado, baixo – não chegava a cinco mil escudos, devido aos descontos -, e a Sílvia, que trabalhava em Lisboa na Companhia dos Telefones não podia fazê-lo nas ilhas onde trabalhámos pela sua inexistência. Só pôde trabalhar, depois da independência, na PMI/PF por a pessoa indicada pelo ministro para o cargo de chefe de secretaria ter declinado o convite por ter outra alternativa melhor, tendo feito um trabalho particularmente bom na organização e controlo do secretariado com o seu curso de secretariado executivo feito durante o período da minha especialização em Pediatria. O Banco de Urgência no Hospital da Praia passou a ter umapequena cuvette com instrumentos metálicos de ponta romba retorcida da minha invenção para extracção de corpos estranhos do nariz e ouvidos de crianças, que todos passaram a utilizar. O que mais tempo me ocupava e revoltava eram as longas horas que consumia na Sala de Partos com as grandes multíparas em partos arrastadíssimos por falta de tonicidade uterina e consequente sofrimento fetal, e mesmo morte fetal, por inexistência de aspirador de mucosidades, obrigando-nos a utilizar seringas para o efeito de pouca eficiência. Por vezes saíamos a correr com o recém-nascido asfixiado para a sala de operações, único local onde existia oxigénio e aspirador, mas debalde pelo tempo gasto e os efeitos da anóxia que condenavam para sempre o recém-nascido – ou morria ou viria a sofrer de paralisia cerebral. Várias vezes se pediu à direcção dos serviços um aspirador, segundo me informou a irmã responsável pela Maternidade (irmã Amélia), uma joia de pessoa, de uma eficácia profissional por todos reconhecida, sendo a resposta que não havia verba para isso. Uma bela noite de vigília lamentávamos a falta de sensibilidade dos Chefes dos Serviços de Saúde pela urgência de um aspirador para a Sala de Partos, perguntei à irmã se não havia nenhum aspirador de pó avariado no caixote de carga. Havia: Pude constatar que os danos eram nos tubos de borracha, estando o motor eléctrico impecável. Substituí o tubo de borracha pelos tubos de plástico dos frascos de perfusão de soros, intercalei uma das garrafas do caixote de antiguidades da carga obsoleta da enfermaria com tampa de borracha e dois furos, entrando um tubo por um dos orifícios e saindo o segundo tubo pelo outro. Pu-lo a funcionar e a aspiração era potente. A irmã, maravilhada, exclamou “louvado seja Deus!”; perguntei … e eu? Ela riu-se com gosto e anuiu, “e o Dr. Pina também”! Tinha solucionado um problema com que ninguém se tinha preocupado até à data. Isso foi em 1970, e em 1977, na primeira visita que fiz à Praia, após a independência, à Maternidade, e lá encontrei a irmã Amélia que me recebeu com um longo abraço e fez questão de me mostrar os novos equipamentos da Sala de Partos. Afinal, ainda lá estava o meu aspirador, e a rir-se, disse-me: “nem calcula os meninos que este aspirador já salvou!” Não vos garanto que ainda não esteja ao serviço da Sala de Partos e, se não estiver, deveria pertencer a um museu de aspiradores da Sala de Partos.

[continua]


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 872 de 14 de Agosto de 2018.

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joão semana

Autoria:Arsénio de pina,20 ago 2018 7:27

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 ago 2018 7:27

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