Retratos do Quotidiano: Tony Lima, Kaoguiamo e a música de intervenção (parte I)

PorCésar Monteiro,29 ago 2018 6:43

António Pedro Monteiro Lima (Tony Lima), filho varão de pais cabo-verdianos, nasce a 05 de Janeiro de 1948, no Hospital Aristide Le Dantec, na cidade de Dacar, na República de Senegal, onde decorrem a infância e a adolescência, numa sociedade maioritariamente muçulmana (95%), marcada pela sua diversidade étnica (lébous, peuls e toucouleurs) e, ainda, pela presença do wolof como língua franca de comunicação mais falada em todo o território senegalês. A mãe, D. Fortunata Alfama Barreto, filha de bravense e descendente do ramo da família Pereira Barreto estabelecido na ilha de Santiago, “pertencia, também, à família abastada dos Barreto de Cacheu”, que se torna conhecida graças à sua ligação genealógica ao famoso Capitão-Mor de Cacheu e Governador da então Guiné portuguesa, Honório Pereira Barreto (Cacheu, 24 de Abril de 1813 – Bissau, 16/26 de Abril de 1859), também ele filho de pai cabo-verdiano. O pai, Lino Lima, natural de Santo Antão, mas com costela santiaguense, “por causa da minha avó paterna”, era filho de José da Rosa Lima, também ele nascido nessa ilha, que “vem para São Vicente e, depois, emigra para os Estados Unidos da América”.

Para lá das suas origens genealógicas santiaguenses e santantonenses, Tony Lima diz ter costelas bravense e indiana, porquanto “a minha avó materna era da Ilha Brava e a minha bisavó (…) proveio da Índia, tanto é assim que a sempre lembrada irmã Diana Deolinda se parecia um pouco com indiana”, do ponto de vista somático. Curiosamente, sendo ele descendente direto da família Barreto, por linha materna, Tony “perde” o apelido Barreto, “no momento do acto de registo de nascimento”, quando todos os filhos anteriores e posteriores do casal o adquirem legalmente, o que pode tratar-se de uma “omissão deliberada do funcionário do Registo civil senegalês”, sob jurisdição francesa, absolutamente discriminatória.

Na Praia, o pai, “um homem alto e mais pesado que eu”, é funcionário dos Correios mas, em 1944, “numa aventura absolutamente desnecessária”, resolve emigrar para o Senegal, “com alguns amigos”, e ali trabalha como meteorologista, até à data da sua aposentação como “Chefe da Estação Meteorológica de Dacar”, em Yoff, a 7,4 km de Dacar, falecendo, anos mais tarde, em Paris. A mãe Fortunata, que, logo depois, viria juntar-se ao marido, em Dacar, dedica-se às lides domésticas e encarrega-se, a tempo inteiro, da educação dos filhos. Membro de um tronco familiar relativamente numeroso, Tony Lima faz, em Dacar, primeiro, o ensino primário e, depois, o secundário, concluindo-os em 1967, data da sua partida para França para prosseguimento de estudos.

Católico praticante e “menino de Igreja”, que “servia missa”, Tony, desde cedo e através dos colegas de escola, simpatiza-se com o islão, sem, todavia, se identificar com ele, e apreende, igualmente, a essência da tolerância e solidariedade inter-religiosas da religião monoteísta dominante de Senegal liderada pelas confrarias dos mourides da família Mbacké e dos tidianes, entre outras ramificações muçulmanas, a despeito de alguma rivalidade entre elas. “Tenho muito respeito pelo islamismo em Senegal que se caracteriza, sobretudo, pela sua evidente tolerância (…) e, ainda, pela primazia ao trabalho honesto. Quando eu era miúdo, festejávamos o Natal com os nossos amigos senegaleses muçulmanos e, quando tinham as suas festividades sacras, festejávamos com eles”, sempre num clima de fraternidade, não obstante as diferenças entre as duas grandes religiões, que caracterizam o pluralismo religioso senegalês.

Na altura, proibia-se, na escola em Dacar, o uso do wolof, enquanto instrumento linguístico de comunicaçãoda etnia mais numerosa estimada em cerca de 40% da população nacional, e “só se falava o francês, a língua oficial”. Todavia, em casa, por imposição da mãe, “falávamos todos o crioulo de Cabo Verde”, o que, à partida, garante o apego de Tony e familiares próximos à cultura cabo-verdiana. Malgrado sua origem senegalesa, consegue, no entanto, “sem crise”, harmonizar a sua identidade de pertença com a da terra dos pais. “ Integrei tudo e sempre me senti bem em todas as situações, apesar da minha fortíssima costela senegalesa. Sinto-me completamente cabo-verdiano, mas com a vantagem de ter nascido em Senegal e vivido, depois, em França e noutros países”, um factor essencial de riqueza cultural e identitária.

Filho de pais cabo-verdianos nascido em Senegal e educado em França, que encontra e respira, intensamente, a cultura cabo-verdiana em casa, António Lima não terá, porventura, enfrentado dificuldades na gestão da chamada identidade partilhada, ou múltipla, e, desde sempre, pauta a sua conduta pelo respeito ao equilíbrio entre duas pertenças distintas, mas absolutamente complementares. “Quando vou ao Senegal, sinto uma coisa forte dentro de mim, de pertença. Nasci lá, mas quando estou cá na minha terra, que eu escolhi, sinto-me completamente cabo-verdiano, por opções políticas e, também, por razões de ordem cultural”.

Findos os estudos secundários no Lycée Blaise Diagne de Dakar, consegue uma bolsa de estudos do então governo colonial francês e parte, em 1967, para Tour, uma pequena cidade a sul de Paris a fim de ali se licenciar em Letras Modernas. Entretanto, a ele vêm juntar-se os irmãos, que deveriam prosseguir os estudos, e a companhia protectora da mãe e, assim, “fiz ali o Mestrado, também em Letras Modernas”, asua área predileta. Posteriormente, dando continuidade à formação superior,matricula-se na Universidade de Paris VIII, que se encontrava, na altura, perto de Vicennes, e conclui, desta feita, a licenciatura em Sociologia Política, que viria, mais tarde, “a ajudar-me na carreira diplomática”. Em 1975, “inscrevo-me, na Universidade, no terceiro ciclo, que não prossigo”, pois, entrementes, nas vésperas da independência nacional, vem para Cabo Verde, por opção própria conscientemente assumida. “O regresso à pátria dos meus pais foi uma decisão política que tomei, pois, o normal seria voltar para o Senegal, onde nasci e cresci, mas escolhi a minha terra para viver”.

Definitivamente instalado na Praia, em 1975, Monteiro Lima começa a trabalhar no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) como chefe de departamento e, progressivamente, evolui na carreira diplomática, que abraça, até atingir o topo. Em 1992, após concurso, trabalha na República do Togo, em Lomé, até Julho de 2001, como Secretário-Geral do Fundo de Desenvolvimento da CEDEAO e Director da Comunicação do Banco de Investimento e de Desenvolvimento (BIDC), instituição financeira internacional criada pelos 15 Estados-membros dessa importante organização sub-regional da África Ocidental, dotada de “dois sistemas de financiamento destinados a promover as actividades do sector privado e financiar o desenvolvimento do sector público”. No término do seu mandato, regressa definitivamente ao país, a fim de assumir outras relevantes funções político-diplomáticas, até à sua nomeação como Representante Permanente de Cabo Verde junto das Nações Unidas, em 2007.

Num interessante percurso de vida que culmina, no plano profissional, com a sua aposentação como Embaixador de carreira, em 2014, a música, desde sempre, marca presença no dia-a-dia de Tony Lima que, ainda na infância, adquire, em casa, uma fortíssima veia artística, por via da imitação, através do pai, que tocava violão, e da mãe, que cantava mornas, sem, no entanto, assumir o estatuto de cantora. “Aprendi a ser músico, observando o meu pai a tocar violão e, da minha mãe, recebi muito. Ela era afinada e cantava mornas, à sua maneira”. A música senegalesa, que tanto aprecia e apaixona o também compositor, intérprete, poeta e homem de teatro, quiçá pela sua riqueza sincrética e expressividade rítmica e melódica, “levou tempo para se revelar em mim”, é certo, mas veio e ficou.

 Kaoguiamo
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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 873 de 22 de Agosto de 2018.

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Autoria:César Monteiro,29 ago 2018 6:43

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  29 ago 2018 9:45

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