Rentrée scolaire

PorEurídice Monteiro,9 out 2018 6:50

​Neste aprazível início de Outubro, as universidades vão reabrir as portas, depois de há umas duas semanas termos assistido à rentrée scolaire nas primárias e secundárias um pouco por todos os recantos deste nosso pequeno arquipélago. Como sabemos, a educação é o principal eixo estratégico de um país. É onde reside toda a sensibilidade nacional e a projecção do futuro para o necessário desenvolvimento sustentável e a mudança social num dado país. De maneira que falhar a nível do complexo sistema educativo é, em última instância, pôr em causa o futuro de toda uma nação.

Nelson Mandela já dizia, nas suas sábias e cuidadosas palavras, que a educação é a arma mais poderosa que podemos utilizar para mudar o mundo. É por esta razão que a abertura de um novo ano lectivo deve merecer a atenção de todos, desde os governantes às famílias, da sociedade aos próprios estudantes.

A escola é um dos agentes de socialização, por excelência, que nos transmite as normas e os valores inerentes na nossa sociedade e faculta-nos uma série de conhecimentos e competências necessárias à vida social e profissional, bem como à harmonização do indivíduo consigo próprio e com a sociedade. Deste modo, é importante fomentar uma profunda reflexão sobre a educação na sociedade cabo-verdiana; promover a reflexão sobre a relação entre a escola e a sociedade; estimular a compreensão dos processos internos à escola enquanto organização.

A relação entre a instituição escolar e outras instituições sociais, o diálogo entre a escola e família, a estruturação do currículo escolar, a importância da profissão docente, a centralidade do ofício de aluno e, para os dias de hoje, a emergência da escola multicultural são questões de fundamental relevância para o debate social e político actual. Os conhecimentos técnicos e as competências pedagógicas dos professores, aliados à capacidade de comunicação e à consciência da importância do papel que desempenhavam na formação dos jovens e adultos também deve merecer uma atenção e abordagem necessária.

Uma outra questão que merece atenção é a relação entre escola e mercado de trabalho. Perante o contexto de mudança constante que se vive a nível mundial, considerando o alegado desajustamento entre o perfil de saída dos alunos e o perfil procurado pelos empregadores, mas também atendendo o aumento do desemprego entre os jovens licenciados, torna-se extremamente importante rever o papel da escola e reforçar a sua relação com o mercado de trabalho.

Esses factores encontram-se todos interrelacionados, uma vez que as mudanças constantes têm vindo a originar uma forte instabilidade no mercado de trabalho, o que tem dado lugar ao aumento do desemprego e do emprego precário, que afectam, sobretudo os mais jovens. Como sabemos, esse aumento do desemprego entre os jovens tem colocado em causa o próprio ajustamento entre a formação obtida e as competências requeridas pelo mercado de trabalho. Esta é uma realidade à vista de todos nós e poucos têm sido as estratégias para enfrentá-la e dar respostas eficientes às situações emergentes.

É por causa destas inquietações que é importante pensar a relação entre a escola e o mercado de trabalho face ao contexto de mudança permanente à nível global, assim como nos contextos nacional e local.

A instituição escolar é considerada um espaço de aprendizagem inicial e de criação de condições e oportunidades concretas de escolarização e formação subjacentes ao desenvolvimento de condições de empregabilidade e de inserção social e profissional; enquanto que mercado de trabalho é o lugar onde se confrontam a oferta e a procura de qualificações.

A relação entre a escola e o mercado de trabalho é um problema que é colocado de modo diferente no ensino universitário e nas escolas profissionais. Enquanto as escolas profissionais se apresentam até como uma resposta mais directa, intencional e sistemática para articular os perfis de formação que oferecem com os perfis profissionais supostamente exigidos pelo mercado de trabalho, o sistema de ensino universitário tem configurado em geral os seus perfis de formação sem se preocupar prioritariamente com tais exigências, apesar de, diversamente segundo os níveis, básico, secundário e superior, também oferecer formações profissionalmente qualificantes, como tem sido a prática comum no país e no estrangeiro.
No ensino básico, a questão não será tanto a das relações com o mercado de trabalho, uma vez que a qualificação até ai obtida não confere um grau de qualificação profissional. Nos últimos anos, um pouco por todo o mundo, têm-se multiplicado os apelos para que nenhum jovem (do sexo masculino ou feminino, do meio rural ou urbano) abandone o ensino básico. No que respeita ao ensino secundário, a relação com o mercado de trabalho tem uma dupla face, consoante o tipo de cursos: os cursos secundários gerais (progressivamente orientados para o prosseguimento dos estudos) e os cursos secundários técnicos e tecnológicos (predominantemente orientados para a vida activa). E, por fim, no ensino superior, as relações com o mercado de trabalho tem múltiplas matrizes. Desde logo, distingue-se o ensino superior politécnico, em alguns países, e o ensino superior universitário. Resultados de vários estudos comparados, à nível de alguns países desenvolvidos e em desenvolvimento, apontam que as dinâmicas recentes ao nível das orientações e práticas educativas no ensino superior indicam uma aproximação destas duas modalidades de ensino no tocante às modalidades de relacionamento com o mercado de trabalho. Estas questões merecem uma atenção particular numa realidade com a dimensão e configuração social da cabo-verdiana, onde o capital humano tem sido apontado como o mais elementar e fundamental recurso do país.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 879 de 03 de Outubro de 2018.

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Autoria:Eurídice Monteiro,9 out 2018 6:50

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  10 out 2018 13:53

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