Regionalização versus arregimentação

PorGil Évora,13 nov 2018 11:34

​Apesar do intenso debate público que suscitou, a aprovação na generalidade do diploma que cria as regiões administrativas passou para segundo plano, estando a sociedade concentrada agora no debate sobre as consequências políticas que os posicionamentos diferenciados havidos no seio do maior partido da oposição, possam advir daí.

Na verdade, aos olhos das pessoas comuns a ideia que com que se fica é que todas as forças políticas tendencialmente apoiam a regionalização do país havendo contudo diferentes perceções em relação ao “timing” para se pôr na prática esta ideia e os reais impactos nomeadamente no plano econômico. Contudo não deixa de ser estranho que todos estes intensos debates que a sociedade vem fazendo, estejam a concentrar-se mais no processo de votação e não no mérito do diploma aprovado, e que pode assumir proporções históricas, pois podemos estar mais perto de alterar a organização interna do nosso Estado.

Pessoalmente entendo que a dinâmica das ilhas pela via do aumento do diálogo entre as regiões e o governo central e pelo fato de aquelas virem a ter mais recursos para o seu desenvolvimento justificariam à partida um voto favorável de todos os Partidos. Daí sempre ter defendido que a regionalização é matéria que foge à simples lógica partidária, assumindo antes pelo contrário como questão de Estado e de interesse geral. Por esse facto, não se percebe muito bem que se seja contra aquilo que a sociedade há muito já entende como uma solução que o país deve experimentar, embora nos parece evidente a necessidade de se pôr de pé um observatório para acompanhar de perto todo o processo de implementação da medida.

Em vários países europeus, em matérias deste tipo costuma dar-se a liberdade de voto aos deputados., Parece-nos pois compreensível que face a uma matéria de evidente interesse nacional, que em nenhum momento tenha merecido um amplo consenso da sociedade política, parece-nos compreensível dizia, que no mínimo, os Partidos políticos deviam abster-se de arregimentar deputados para o processo de votação. Poupar-se-ia assim ao país lidar com estes episódios confrangedores que a direção do PAICV pôs em marcha acusando na praça pública os seus próprios deputados e ameaçando-os com processos de expulsão, criminalizando a consciência, cerceando liberdades àqueles que juraram defender o povo acima de tudo. Fica-se com a ideia de que a atual líder tambarina está empenhada em desmantelar toda a história do PAICV mas sobretudo empenhada em destruir a geração de José Maria Neves, e, ou aparece alguém a pôr um travão a esta senhora ou as consequências políticas de tais atos poderão marcar o destino deste Partido nos próximos tempos.

A democracia nunca foi uma lógica aritmética pelo que propor sanções por se ter apenas votado em consciência me parece não apenas excessivo como na contramão dos postulados da democracia. Dever-se-ia ponderar o mérito da decisão de se votar uma medida de regime, neste ou naquele sentido e não este condicionamento retrógrado ao exercício livre do mandato, condicionamento esse onde a nossa sociedade não se revê. A Presidente do PAICV optou mais uma vez pela lógica dirigista de que é publicamente acusada e pôs de pé uma narrativa curiosa de pretender disciplina de voto sobre uma matéria fora do perímetro partidário, negando uma vez mais a pluralidade e a diversidade que são a força dos partidos.

Em Maio de 2016 logo após as legislativas num artigo intitulado “O PAICV dos pequeninos” mostrei como a actual líder do PAICV tem problemas graves em lidar com a democracia interna no seu partido. A história vem-me dando razão e só ela Janira ainda não se deu conta do mal que a sua gestão vem fazendo ao histórico PAICV, não se coibindo de laborar numa teoria peregrina e impensada e que visa acusar e incriminar importantes ativos do PAICV, em particular aqueles ligados á geração de José Maria Neves.

A actual Presidente do PAICV labora numa lógica de divisão ao invés de união e esta tentativa agora de julgar e caçar mandatos a deputados eleitos pelo povo, faz parte do seu ADN, e a troco de um egoísmo exacerbado, ela continuará a sua cruzada de afundamento do Partido contribuindo para um enfraquecimento também da nossa democracia. O que será necessário fazer mais para que esta presidente perceba que a sua continuidade está a afundar o PAICV? Sem resultados políticos, sem capacidade para lidar com a democracia interna, colocando o PAICV em desgastes permanentes, o que espera Janira Almada para poupar a este partido e a esta sociedade?

Este processo de votação da Regionalização representou uma derrota para o PAICV sim senhor, mas em particular uma derrota da actual líder que 24 horas antes em pleno púlpito tinha garantido que o seu partido votaria contra. Contudo após este episódio a líder tambarina preferiu assobiar e seguir em frente, quando o mínimo que se esperava era que apresentasse a sua demissão da liderança face aos resultados (não) conseguidos. A democracia exige que saibamos a todo o momento tirar as devidas ilações sobre as opções feitas. Isso no entanto é algo que a líder tambarina não conhece. Nos momentos difíceis prefere citar inconsistentemente Cabral.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 883 de 31 de Outubro de 2018.

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Autoria:Gil Évora,13 nov 2018 11:34

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  9 dez 2018 20:19

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