Sobre ombros de gigantes

PorEurídice Monteiro,25 dez 2018 6:22

​Meus amigos e eu, por sermos amigos, temos temas comuns, causas comuns às vezes, amigos comuns frequentemente, mas a nossa inserção no mundo real não é a mesma e, talvez por esta razão, os nossos interesses se divergem.

Fico feliz quando um amigo de longa data descobre a minha presença num evento e vem logo, correndo de peito aberto, em busca de notícias do tempo que passou e prespectivas para o ano que está aí à porta. Meus amigos e eu, por sermos amigos, partilhamos momentos que ficam na memória e outros para deletar, como dizem os muitos amigos que tenho por este vasto Brasil multicultural.

Por graça divina, depois de uma viagem longa da Praia, pela TAP, com uma escala em Lisboa e aterragem sem sobressaltos em Guarulhos, acabo de pisar o chão de São Paulo e sou recebida por pessoas que, presumo, serão amigos meus mais cedo do que tarde. Estou num dos vários hotéis nas imediações da famosíssima Avenida Paulista. Já estou na companhia dos membros da organização da conferência para a qual sou convidada e, recebo as indicações necessárias quanto ao que interessa e ao que poderá interessar menos mas que afinal também faz parte.

Demorei algum tempo a chegar a São Paulo. Passei várias vezes no Aeroporto de Guarulhos, sempre em trânsito para outros destinos. Seguia sempre para os corredores das conecções internas para outros estados brasileiros. Desta vez, estava ansiosa por finalmente ter a oportunidade de sair para fora do Aeroporto de Guarulhos, percorrer a avenida, ir para os restaurantes badalados e, quem sabe, talvez dançar. Samba não tenho no pé, mas não é por isso que fico no canto. Vou para a pista. Não sou de quedar-me diante de desafios.

E de repente, escuto uma voz de longe, chamando o meu nome com um sotaque brasileiro. É ela: Rose! Brasileira, nascida num dos bairros medianos de São Paulo, filha de um casal interracial, militante de um partido brasileiro que nunca ganhou uma eleição. Rose, diz-me ela, sonha ser deputada estadual, até participou na eleição de Outubro passado, mas não foi dessa. Rose sabe tudo de relevante e muitas irrelevâncias da política brasileira. “Mulher fala política, sim!”, é isso que ela dizia com frequência quando a conheci. Agora, mudou de aforismo e já diz, usando o megafone: “Mulher faz política, sim!” Grande evolução, super Rose...

Fabiana é outra colega minha, do tempo de Coimbra, que também ainda não alcançou a tribuna, mas já esteve mais próxima do que a Rose. Nascida numa família da velha resistência em Belo Horizonte, sempre foi militante de um partido tradicional e, pela primeira vez, foi candidata do partido a deputada estadual, na companhia de um vice negro, professor do ensino médio e membro da militância anti-racista. Fabiana nunca foi apanhada em maus lençóis pela polícia federal, nem quando, enquanto estudante universitária, se envolvia em manifestações de rua contra políticas educativas de um ou outro governo. O seu vice na chapa, negro nascido numa das favelas de Belo Horizonte, ele sim havia sido apanhado várias vezes pela polícia federal e, por ser militante do movimento negro, alega ainda hoje que, no Brasil, negro é culpado até provar o contrário ou mesmo quando prova o contrário. Vida de negro é difícil. É no meio dessa encruzilhada que Fabiana tomou consciência de que ela é branca. No início, ela se sentia ofendida quando os amigos negros dela diziam: “Fabi, tu é branca.” Ela ficava ofendida de morder a unha e os lábios, contra-argumentando que nasceu numa família pobre, comunista, que o avô foi preso político no tempo da ditadura e morreu de doença prolongada por causa das complicações de toda uma vida em defesa da democracia no Brasil. “Fabi, tu é pobre, mas tu é branca!” É combativa, a Fabiana. Passou esse tempo em que ela assumia as origens humildes, de neta de sapateiro e costureira, e tinha relutância em aceitar a branquitude como elemento estruturante da desigualdade social no Brasil. Todo o problema era a classe.

Na minha mesa, quase todos os meus amigos escrevem em jornais, dão entrevistas para rádio e televisão, têm canais no YouTube como forma de difusão do conhecimento científico; dão aulas nas universidades federais e fazem investigação em centros de excelência com alto patrocínio das agências nacionais e europeias de fomento à ciência. Estão aqui também mais dois colegas que trabalham na Califórnia, Estados Unidos.

Eu fico aqui observando, melhor, enxergando a discussão dos meus amigos, pensando nesses problemas sociais e raciais todos, na forma como de igual modo ou com nuances outras somos abrangidos por problemas parecidos, com a sua ênfase local e global. Dou uma olhadela à volta da mesa e, sentindo-me já em casa, levanto a voz para soltar o meu protesto. No meio disso, dou-me conta que, nesta nossa mesa, os que são europeus lideram projectos de investigação com fundos europeus e os que são brasileiros, apesar de todas as cortes efectivadas ou anunciadas, têm recursos públicos para o desenvolvimento científico. Fico pensando, já nós, lá na minha terra, só migalhas contamos. Digo isso para a mesa ouvir. Tiramos as mesmas conclusões. Ocupo o meu lugar e a conversa prossegue. Africano sofre. Com ou sem vitimismo, a realidade é dura. É no campo científico onde bem se vê essa desigualdade. O investimento científico das nações desenvolvidas continua a ditar o seu lugar dianteiro no mundo.

O génio Isaac Newton, matemático, já dizia que “se eu vi mais longe, é por estar sobre ombros de gigantes.” Quer isso dizer que ele teve condições para desenvolver o seu intelecto, espírito inquietante e curiosidades; para tal, fez uso da produção científica pré-existente. Não foi do nada. Do nada, só se vê o nada. Tudo tem o seu quê. A diferença se nota no seguinte exemplo: nos Estados Unidos, as crianças têm medo de ovinis, em Cabo Verde, têm medo de...

Dou-me conta, porque um amigo me informou, que em São Paulo existe uma espécie de Louvre, que se atende com a designação de Masp, onde estão reunidas obras de arte dos artistas mais consagrados do mundo ocidental moderno. Na visita ao museu, um artista de rua me oferece para comprar um quadro azul e um poeta traz na mão um conjunto de livros de edição artesanal e me pede para ler um poema. Leio na página indicada e aproveito para recitar um outro poema de cor. Não comprei nem o quadro do artista, nem o livro artesanal do poeta. Uma colega que me acompanha começa a falar da arte, do belo e dos cânones estéticos dominantes, enquanto percorremos a avenida em busca de uma pizzaria em São Paulo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 890 de 19 de Dezembro de 2018.

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Autoria:Eurídice Monteiro,25 dez 2018 6:22

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  25 dez 2018 6:22

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