MORNA Veículo de comunicação da identidade Caboverdiana

PorJosé Martins,9 mai 2019 15:09

O texto que a seguir se publica trata-se de um pequeno extracto de um trabalho de pesquisa sobre a música vista como veículo de comunicação cultural de um povo, baseando-se, neste caso concreto, num dos géneros da música popular caboverdiana – Morna.

O trabalho foi elaborado no decurso do Mestrado em Património e Desenvolvimento ministrado na UNICV a partir de 2008, e apresentado no anfiteatro da mesma na cidade da Praia em dois eventos: i) no IV Ciclo de Conferências promovidas pelo DCSH, realizado no anfiteatro da UNICV nos dias 29-30 de abril de 2014, sob o lema Descobrir, Conhecer, Debater Cabo Verde; ii) no Congresso Internacional designado “Errâncias de um Imaginário: para uma História do Pensamento e Culturas de Língua Portuguesa” realizado no mesmo sítio pelo mesmo Departamento da UNICV a 17 – 18 de julho de 2014.

A motivação para esta pesquisa surge após alguns debates nas aulas sobre o património imaterial e pela similitude existente entre a linguagem musical e a linguagem verbal, com que se comunicam uns com os outros os habitantes de uma mesma comunidade ou país. Por isso, apoiando-se em autoridades no domínio da semiótica, procura-se demonstrar que, na performance da Morna, como linguagem, decorre-se um processo de (des)codificação e/ou interpretação em que os caboverdianos se reconhecem como pertença de um mesmo espaço cultural, comungando, no cômputo geral, através da respectiva melodia, os fenómenos da sua existência, aspectos universais da sua miscigenação e, em particular, a sua caboverdianidade.

Ao longo do desenvolvimento do trabalho procura-se compreender, discutindo e explicando, o processo de apreensão musical (fenómeno idêntico à troca que se verifica na apreensão do significado na comunicação verbal) dos aspectos de natureza identitária que se constituem razões dessa apreensão, sua fruição no seio da sociedade caboverdiana e sua compartilha também com o mundo, sobretudo, com os países da diáspora caboverdiana. O trabalho incide-se essencialmente sobre os aspectos culturais subjacentes à natureza dos sons escolhidos e organizados na produção das linhas melódicas que, em essência, conferem especificidade à música cabo-verdiana – Morna, em especial – e espelham o sincretismo cultural que impregna a natureza da gente crioula destas ilhas.

No início faz-se uma breve contextualização e um balanço do estado actual da Morna, a Rainha da música caboverdiana, hoje premiada com o Grammy Award e escolhida, deste jeito, para integrar o Best World Music Album. De seguida procura-se demonstrar a complexidade existenteno acto de apreensão musical dos valores identitários, articulando esquemas de comunicação, teorias e metalinguagens de linguistas de renome e, com base na interpretação de figuras célebres da música crioula – criadores, intérpretes, compositores, professores, escritores e poetas caboverdianos do espólio de M. Ferreira e de trabalhos de natureza sociolinguística, etnocultural e musical, tanto quanto possam ajudar a compreender o carácter comunicativo da Morna – e contribuir para a compreensão do carácter veicular cultural deste género musical caboverdiano.

Na verdade, música e linguagem reunidas como um dos fortes pilares do raciocínio desta pesquisa, de facto, apresentam uma certa similitude, pelas razões que passam a ser tecidas.

Em primeiro lugar música e linguagem verbal são códigos que funcionam de forma idêntica, selecionando e organizando diferentes sons produzidos pelo mesmo aparelho sonoro, ou fonador, de acordo com a natureza da peça melódica, sentimento e/ou significado que se pretende transmitir durante o acto de comunicação, performance ou evento musical. Logo, a comunicação é intrínseca à música e esta é comparável à própria linguagem. De facto, ambas se formam com unidades sonoras (sons e/ou fonemas) produzidas pelo aparelho acima referido i.e. o aparelho fonador. Ambas possuem uma mensagem codificável ou descodificável por agentes de comunicação ou intérpretes, na linguagem verbal ou musical, respetivamente. Não é necessário ser-se expert para se compreender, que entre os pólos da comunicação, ou entre os intérpretes (o músico e os ouvintes) de uma peça musical flutua, tal como na linguagem verbal, um conjunto de sons com que os mesmos elaboram as suas melodias ou as suas mensagens na comunicação musical ou verbal, respectivamente. Tanto na linguagem como na música, os sons constituem o material ou meio pelo qual a mensagem e a melodia são criadas e difundidas. Nelas se destacam as especificidades dos instrumentos de comunicação através de aspectos particulares assim como universais com que se produzem, revestem e adornam a linguagem, de tal forma que, na complexidade do universo global musical, o músico / intérprete é também capaz de distinguir os sons com que produz e encadeia cada parcela musical das suas próprias melodias. E, ainda mais, qualquer sujeito pode pressentir uma grande diferença entre os clusters sonoros variados e complexos produzidos pelo homem que, quando comunica, em sucessivos actos de fala, elabora-os com segmentos significativos mais ou menos longos, constituindo cada um, às vezes, aquilo que Saussure (1986) chama «uma unidade complexa, fisiológica e mental», portanto um signo linguístico. Na música acontece o mesmo. Veja-se, a título de exemplo, a diferença entre os mesmos grupos sonoros produzidos por um chinês ou um americano na leitura de um mesmo texto (segmento de sons) em caboverdiano ou outra língua…

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 909 de 01 de Maio de 2019.

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Autoria:José Martins,9 mai 2019 15:09

Editado porAndre Amaral  em  9 mai 2019 15:09

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