A Educação Financeira

PorJoão Chantre,5 jun 2019 6:32

“Nossa prosperidade como Nação depende da nossa prosperidade financeira como indivíduo”

O dinheiro é o meio usado na troca de bens, na forma de moedas, notas e actualmente por via eletrónica, sendo certo que a rede Vinti4 é a mais inovadora criação cabo-verdiana nesta matéria. Um grande edifício digital, edificado com muito rigor técnico, com padrão internacional, muita dedicação e tempo necessário. A gestão do dinheiro é algo complexo, tem a ver com a cultura, exige treino, técnica, especialização, hábitos saudáveis, e comportamento adequado para a sua boa gestão e utilização. O desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicações (TIC) facilitou, logo, massificou a circulação do dinheiro e por isso o dinheiro exige hoje um maior controle e uma gestão rigorosa.

A antiga Babilónia

A história reza que até agora os ensinamentos babilónicos aplicados há seis mil anos atras são ensinamentos atualizados para quem queira gerir bem o dinheiro, poupar, investir, criar riqueza, viver com felicidade e fazer prosperar a Nação. Interessante ainda era o facto de a Babilónia ter sido uma civilização com uma posição geográfica estratégica, despida de recursos naturais no contexto da época, mas, contudo, apresentava os homens mais rico daquela época. E os Babilónicos baseavam-se numa filosofia muito simples na gestão do dinheiro, aplicável ainda hoje, mas ignorado por muitos: “o mais importante não é ter dinheiro, mas sim saber como consegui-lo, como geri-lo e como aplicá-lo”.

Dados do INE - 2015: estrutura das despesas das famílias em Cabo Verde

Ou mudamos de atitude, ou afundamo-nos num oceano das ilusões. E escutemos esta bela morna, ei-la: a estrutura da despesa média anual por pessoas no agregado familiar em 2015 mostra-nos que os gastos com as bebidas alcoólicas, tabacos e narcóticos rondavam 1.5%, considerado excessivo comparativamente com as despesas de Educação 2.3% e com a Saúde 2.9%. Diz ainda o referido relatório que 5% do total das despesas das famílias é alocada aos gastos com vestuário e calçado o que nos parece exagerado. O estudo conclui ainda que 54,5% do orçamento dos cabo-verdianos é destinado à alimentação e habitação. Neste contexto, leva-nos a concluir que, ou existe um disfuncionamento a nível comportamental dos cabo-verdianos na gestão do dinheiro, e logo requer uma terapia financeira urgente, ou então existe a necessidade de um investimento sério nesta matéria (Educação/Literacia Financeira). Contudo, diagnósticos científicos apontam que qualquer investimento sério na Educação/financeira requer recursos, tempo e uma estratégia pedagógica adequada. Esta matéria de capital importância é trazida ao palco da cidadania activa, num momento em que grandes esforços são feitos no país para que haja mais capital disponível e uma arquitectura legal moderna, adequada e flexível e que vão ao encontro dos novos desafios que se avizinham, no sentido de dinamizar o empreendedorismo e oxigenar o sector privado, por forma a criar emprego, produzir riqueza, gerar receitas fiscais e ajudar essas ilhas a conquistar o bem-estar e a prosperidade tão desejada pelos cabo-verdianos. Tudo isto será possível sim, mas apenas com uma reserva, não basta boas políticas e boas intenções. A cultura/inteligência financeira exige a capacidade de compreender os números, de definir e montar uma boa estratégia de gestão do dinheiro e sobretudo honrar os compromissos financeiros. Essa estrada que presumo seja longa, exige conhecimentos básicos de como arranjar o dinheiro e como aplicá-lo.

O paradoxo – a nossa cultura percepcionada como uma cultura de opulência

Num mundo global e da era digital em que actualmente vivemos, onde praticamente carregamos o mundo na palma das nossas mãos e a um click de distância, é preciso um investimento sério a nível da Educação/Literacia financeira, e da Economia comportamental que deve ser aplicada como valor para o presente e servir de referência para as gerações futuras. Não vale a pena atrasá-lo ou adiá-lo.

Ora, supostamente como ilhas que somos e com a linha do horizonte à nossa frente, temos uma grande propensão para o consumismo e, até em certa medida, a tentação em ostentar o que muitas vezes não temos, a qualquer custo. A percepção genérica, ainda que empírica, é que o cabo-verdiano não tem uma relação saudável com o dinheiro, pois é importante que se saiba que o dinheiro que se tem não é para gastar à toa, mas sim para se gerir. Ademais, o dinheiro tornou-se um bem virtual facilmente acessível, devido à massificação dos cartões de débito (Vint4), dos cartões de crédito (Visa & Master Cards), da Banca e das lojas digitais espalhadas pelo planeta. Nunca podemos esquecer que tal como as árvores vão desaparecendo, é preciso replantar, com o dinheiro é igual. Para confirmar os factos, a nível macro, o FMI na sua última visita de avaliação ao nosso país, constatou que os NPL, ou seja, os créditos malparados disparam (12% do total dos empréstimos bancários), e o nível de poupança das famílias é baixa. No contexto nacional, constata-se que grande parte das empresas privadas e públicas estão em dificuldade, mas com tendência de inversão de marcha, o que é muito positivo para a economia, e presume-se que a consequência dessa má gestão tem a ver, em muitos casos, com o comportamento desadequado nas funções de gestão e, em certa medida, da má Educação/Literacia financeira. E agora, como mudar de rumo!

Investir no futuro

O futuro pertence aos mais jovens e o grande desafio é iluminar os túneis escurecidos da ilha das montanhas e que por sinal já vêm sendo iluminados, uma aposta forte numa cultura de gestão/ poupança, aposta numa nova geração de empresários e na proliferação das PME (pequenas e médias empresas), um grande desafio a nível planetário e que continua na agenda nos grandes fóruns internacionais, a nível do Banco Mundial, do FMI e da IOSCO-OICV (Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários).

Em suma, a prosperidade de uma Nação está na qualidade da Educação (inclui Educação Financeira) dos seus jovens, da Saúde, da sua Criatividade, da sua energia, do seu empenho e da sua capacidade de inovar e de implementar. Mas os sonhos, a energia e a criatividade dos mesmos terão que ser convertidos em projectos economicamente viáveis, socialmente responsáveis, sustentáveis, que criaram emprego e que traz riqueza à Nação. It´s time…

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 913 de 29 de Maio de 2019. 

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Autoria:João Chantre,5 jun 2019 6:32

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  5 jun 2019 6:32

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