Mónica, como uma outra melodia da diáspora

PorEurídice Monteiro,18 jun 2019 6:05

Há tempos, já lá vão uns dez anos ou pouco mais, ouvi de um diplomata algo que ainda hoje de certa maneira me martela na cabeça.

Num desses eventos públicos, dizia o diplomata, de peito aberto e com um indisfarçável orgulho crioulo, que a grande visão estratégica da diplomacia cabo-verdiana num desses países europeus foi ter chegado à conclusão de que era preciso formar os contingentes de emigrantes, visto terem compreendido que os cabo-verdianos dos anos setenta e oitenta chegavam mal preparados à Europa, não tinham formação nenhuma nem habilidades para aproveitarem-se das oportunidades que naquela altura podiam aparecer na emigração.

Chegando a essa conclusão de que era preciso formar os contingentes de emigrantes para que tivessem vantagem competitiva em relação aos outros, então aquela embaixada sediada num desses países europeus decidiu empenhar-se na preparação dos emigrantes cabo-verdianos para que fossem, no caso dos homens, bons mestres de obra e, no caso das mulheres, boas cozinheiras, empregadas de limpeza e amas. Isso, dizia ele, foi a forma encontrada pela embaixada para dar o seu contributo e qualificar os contingentes de emigrantes cabo-verdianos para as funções que lhes estavam reservadas.

Começar assim não pela citação de um programa de governo ou plano de desenvolvimento, mas pelo relato de um dos feitores da política externa de Cabo Verde me parece mais elucidativo para introduzir o caso em apreço.

Pelo menos desde o dia 26 de Maio que se fala tanto nela por cá. Fez parte da lista do partido no poder em Luxemburgo, foi eleita e agora já visitou a sede do Parlamento Europeu para tomar parte do primeiro encontro dos eleitos.

Mónica Semedo não é apenas fruto da oportunidade, mas também resultado de uma mudança geracional. E até diria, de uma transição geracional. Uma nova geração de africanos e descendentes de africanos na Europa e pelo mundo, que não se coíbe de nenhuma maneira de exercer a sua cidadania plena, sem complexo das origens, mesmo quando em algum momento a vida pública roça em assuntos de natureza pessoal, social e familiar mais sensíveis, como no caso dela em que, em dada altura da sua vida, ficou órfã de pai e teve que ser institucionalizada num centro de abrigo infantil e só de lá conseguiu sair e regressar ao lar maternal passados cinco anos. É essa história de superação pessoal, familiar e da diáspora africana em Luxemburgo que encantou muitos eleitores. Cada um tem a sua história e, no final de conta, as pessoas querem ouvir uma boa história e são essas pequenas histórias particulares que movem o mundo pela mudança.

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Mónica Semedo não é fruto do momento. Ela está na fase da consagração. E o facto de ser jovem, mulher e negra gera ainda mais clamor em torno da sua figura no Parlamento Europeu. Basta ver à volta do partido dela, dos diferentes grupos parlamentares e da tradição da representação da União Europeia. Mas essa jovem de trinta e cinco anos não foi incluída na lista do Demokratesch Partei (DP) e agora eleita eurodeputada por um mero acaso. Ela já era uma figura pública há tantos anos. E é isso que se sente no modo tão natural como lida com o público, com as câmaras e com a fama. É como se tudo viesse por acréscimo, por arrastamento e por bênção divina. Não pediu nada e apenas oferece o que melhor tem de si. O seu talento. E é esse o exemplo que precisamos ver. Exemplo em vários sentidos.

Não obstante alguns contratempos na sua família de origem e de fatalidades da vida, este é um caso de superação que se anuncia como uma aurora primaveril. Tão pequena ainda, foi bafejada pela sorte. Catapultou-se logo para a ribalta num concurso de talentos infanto-juvenis em que ficou em segundo lugar e, daquele tempo a essa data, entregou-se de peito aberto à aventura e aos desafios que se lhe apareceram. Mesmo quando já tinha alcançado alguma popularidade e ganho algum dinheiro, não ficou acomodada no estatuto de estrela da televisão. Decidiu estudar. Tem um mestrado. E isso não é coisa pouca. Quantas estrelas da televisão dão-se ao trabalho de estudar? Quantos filhos de emigrantes abdicam-se temporariamente do dinheiro que se pode fazer com alguma facilidade por lá para se investirem nos estudos em nome do futuro a médio e longo prazo? Esta é uma verdade inconveniente. Não basta criticar as políticas de integração nos países de acolhimento. É preciso ver com igual rigor as políticas dos países emissores de emigrantes, o papel das suas missões diplomáticas na orientação estratégica da diáspora e o papel da própria comunidade na diáspora quanto à reorientação dos jovens e profissionais que hoje marcam a agenda fora de portas.

Teremos mais jovens cabo-verdianos ou descendentes de cabo-verdianos nos empregos pouco qualificados do que nas universidades europeias? Teremos mais jovens nas prisões em Boston e Brockton do que nas muitas universidades que existem na região e naquele país? Por que razão os filhos de crioulos são tãocedo empurrados para o mercado de trabalho com o intuído de ganharem a vida quando deveriam ser preparados e desafiados para todas as oportunidades que o mundo poderá oferecer? O que importa é somente ganhar dinheiro? Para onde vai esse dinheiro ganho desde a juventude precoce? Qual é o nível de desperdício do capital financeiro, intelectual e simbólico da diáspora caso houvesse uma orientação outra? Qual o papel do Estado de Cabo Verde e, em particular, da diplomacia cabo-verdiana na reorientação da diáspora nesses países de acolhimento?

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 915 de 12 de Junho de 2019. 

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Autoria:Eurídice Monteiro,18 jun 2019 6:05

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  18 jun 2019 6:05

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