Da analogia da música com a linguagem verbal à riqueza simbólica da morna

PorJosé Martins,8 ago 2019 6:28

No ensaio anterior procura-se em termos essenciais demonstrar a similitude entre a linguagem humana e a linguagem da música, de acordo com o Professor Herculano de Carvalho (1983).

Que, em ambas as linguagens, os respectivos intérpretes procuram apreen­der, produzir ou partilhar algo com significado linguístico ou melódico, respectivamente. Que ambas se manifestam através de sons produzidos primordialmente com o mesmo instrumento, isto é o aparelho fonador. Embora a cadeia sonora na música não se subdivida em unidades menores significativas de forma articulada, como acontece na cadeia falada ou discurso, contudo, acredita-se que, com a produção e encadeamento de segmentos sonoros, durante a performance musical, pretende-se, em termos melódico-cognitivos transmitir algo musicalmente comum, harmonioso e passível de ser apreendido pelos intérpretes. O tempo e a existência acabam por conferir ao homem capa­ci­dades associativas que incons­cientemente operam no processo de produção e codificação ou decodificação dos vários aspectos da vida. Por isso é que, como a linguagem humana, os sons da música são também de natureza convencional e obedecem também a uma certa arbitrariedade. Quando a ordenação ou sequência de notas ou acordes opera deixando de obedecer ao imposto pela tradição, perdem-se os aspectos que definem o tradicional ou nacional e, consequentemente, reagem os músicos mais ex­pe­rientes e calejados da comu­nidade nacional, relegando para a periferia o trabalho de quem pensava já ter feito uma morna perfeita, uma obra – prima caboverdiana, um hino. Pelo contrário, por rejeitar as regras tacitamente convencionais da composição ou criação musical – nacional, o compositor corre o risco de ter, para a sua composição, um simples lugar na periferia da produção-musical feita por músicos caboverdianos dentro ou fora do país e já não um lugar no palco das melhores músicas nacionais.

Pela produção e encadeamento musical referidos, acredita-se que, tanto os segmentos sonoros ou melódicos da música, como os actos de fala com que o homem manifesta os seus diversos estados de alma ou o seu pensamento têm origem na estrutura profunda da linguagem. Que a Morna, na qualidade de depositária dos valores identitários, é vista como um instrumento ou veículo de comunicação da caboverdianidade na sua pluridimensionalidade cultural. Para isso a Morna dispõe no seu seio de um “objecto”, em termos metafóricos, contendo de forma encriptada todos os valores identitários caboverdianos na sua imaterialidade, partilháveis com o resto do mundo durante a sua performance.

Ainda no campo da similitude entre a linguagem musical e a linguagem verbal, Nijmegen, em suas Lectures 2: Syntax and meaning (2010) defende que ambas a música e a linguagem têm em comum uma sintaxe i.e. obedecem a princípios hierárquicos no processo de escolha dos elementos discretos que entram na estruturação das respectivas mensagens. Por isso deve-se ter em conta que, em termos melódico- significativos, ao organizar e/ou demonstrar os tons e linhas melódicas, o compositor ou intérprete obedece a uma ordem algo semelhante a dos fonemas, palavras, sintagmas e frases com que o sujeito falante organiza a sua mensagem através da língua. A título de exemplo, todo o sujeito falante da língua “crioula” caboverdiana deverá concordar ou admitir que a consciência linguística nacional aceita que a língua caboverdiana obedece de modo primário à seguinte organização ou estruturação superficial: «Nome – Verbo (+Objecto(s))» ou seja, «Professor ta fala criolo na aula», em que se tem por sujeito, o nome “professor”, por predicado o verbo “fala”, a completar o sentido com os objectos “criolo”e “aula”, ou «qel musico ta canta morna» em que o sujeito é “qel músico” , o predicado é o verbo “canta” seguido do objecto “morna”, com que completa o sentido. De forma similar, na música tem-se o Sujeito – Instrumento (+Melodia(s)), esta(s) de acordo com a qualidade do instrumento utilizado. O efeito é claramente diferente quando se utiliza, em vez da voz, o som de um outro instrumento musical, um violino ou um piano, por exemplo. Entretanto, em todos os casos, o sujeito ou intérprete, com o seu instrumento, produz ou executa uma determinada melodia carregada normalmente com uma variedade de sentimentos que se descodificam no cérebro lá onde «os factos de consciência, chamados conceitos, se encontram associados às representações ou às imagens acústicas que os exprimem (Saussure 1986, 37)». Afinal são essas imagens acústicas que, do trajecto que fazem da estrutura profunda até à estrutura superficial, agitam e expelem do depósito sonoro-melódico tons com que o sujeito falante ou cantante acaba por definir ou corromper a linha melódica da sua linguagem ou composição musical, respectivamente. Por conseguinte, todo o músico nacional parece admitir que, para se cantar o amor, seria inapropriado revestir o irónico “Compad Ped Pires…” com a doce melodia da “Biografia de um Criolo” de M. d’Novas, ou com a de “Cretcheu”de Nhô Eugénio; que todo o sujeito falante/ cantante tem a consciência da dificuldade com que se depara em dizer o caudal de informação de natureza neuro-imagística ou percepcional que se torna cada vez mais crescente, transborda e perde durante a estruturação verbal ou musical da mensagem melódica que se pretende transmitir (Nijmegen Lectures 2010). Por isso é que a utilização do mesmo aparelho para a produção das linguagens verbal e musical, aliada a uma certa similaridade estrutural (?) entre os elementos que as compõem, como defendida por Nijmegen, constituem também uma das pistas de orientação desta pesquisa. A partir da pergunta de partida, com respeito ao mérito dos trabalhos até hoje realizados neste campo cultural, faz-se uma digressão de natureza ontológico-estética, tanto quanto ela se revela capaz de ajudar a compreender este género musical como instrumento de manifestação da identidade crioula caboverdiana e que, ao nascer, algures, terá sido baptizado como Morna. Procura-se descobrir o que de específico ou particular tem, que lhe faz alcançar as razões de tão grande veneração dentro do país, como a rainha da música nacional caboverdiana e o que de universal tem, passível de compartilhar com o mundo e fascinar qualquer pessoa, independentemente da sua origem, durante a sua performance através da sua execução e/ou fruição, aceitando o objecto referido, quando tais aspectos idênticos se estendem, entrelaçam, cruzam e unem os horizontes culturais dos participantes. É a alma crioula, fragmentariamente existente no referido objecto identitário da Morna, revelada pela mestria no traçar e reunião da pluralidade das suas características de crioulo, na projeção dos seus diversos estados de alma definida pela natureza arquipelágica e sociológica da sua proveniência, no conhecimento dos reveses do destino do seu país e ainda no alcance do que comunga com o mundo todo e que lhe confere o carimbo da globalidade. É o hino que ao eclodir-se, entoa-se no compasso binário e, em uníssono, a voz de todos se conflui num único leito de um mundo agora de todos que se revelam iguais e pertencentes a um mundo que se torna também de todos, sem diferenças de espécie nenhuma.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 922 de 31 de Julho de 2019. 

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Autoria:José Martins,8 ago 2019 6:28

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  8 ago 2019 6:28

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