Dulce Almada: Inteligência e Dignidade

PorEurídice Monteiro,2 set 2019 6:10

Dulce Almada foi uma figura proeminente do seu tempo. Afirmou-se como uma intelectual exemplar, numa circunstância histórica em que muito raras eram as mulheres em Cabo Verde com acesso à educação e menos ainda a uma formação superior.

Acabou por se consagrar pela via dos seus contributos para o pensamento científico no particular domínio da linguística, para a cultura e para a identidade, tendo sido a autora da primeira tese académica escrita por uma mulher natural de Cabo Verde e primeira mulher a escrever um trabalho de fundamentação científica sobre o crioulo de Cabo Verde. É esse legado que a distingue no contexto da sua época e na circunstância histórica em que viveu.

Para além do seu contributo para o conhecimento científico e a afirmação progressiva da língua cabo-verdiana numa situação de bilinguismo com a língua portuguesa, da identidade nacional e da cultura das ilhas deste arquipélago da costa ocidental africana, Dulce Almada foi também uma das primeiras militantes da causa da independência.

Ainda nos primórdios da luta pela independência nacional, sob o comando do então emergente Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), ela teve a sorte de ter estado no momento certo e com a formação adequada para ao mais alto nível representar as pacatas ilhas de Cabo Verde. Basta relembrar que, numa conjuntura histórica bastante complexa principalmente por causa de duas outras questões particulares, foi ela quem defendeu a independência política de Cabo Verde na ONU em 1962 ao lado de Amílcar Cabral que por sua vez representou a vizinha província da Guiné-Bissau. Por um lado, é já por demais sabido que, naquele momento histórico, havia um discurso legitimador do Estado Novo Português, perante a comunidade internacional e a opinião pública mundial, de ocultação do facto colonial nas rebaptizadas Províncias Ultramarinas de Portugal e de ostentação de uma retórica salazarenta em torno da unificação da superpátria lusitânica do Minho a Timor, passando pelas ilhas atlânticas de Cabo Verde. Por outro, do ponto de vista económico e estratégico, havia também uma inquietação acentuada e dúvida existencial quanto à aplicação do direito de autodeterminação para o pequeno território arquipelágico de Cabo Verde.

Realce-se que, ao tempo, o caso da Guiné-Bissau suscitava poucas dúvidas e requeriase uma independência total e imediata para aquele território ancestral e multiétnico; mas, já quando se pensava no caso de Cabo Verde, eram muitas as reticências e eram vários os argumentos esgrimidos a favor do adiamento de uma decisão sobre a matéria da independência para um tempo indefinido e estavam já em gestação as ideias federalistas quanto à natureza do Estado que se viesse um dia a adoptar para a administração dos territórios da Guiné-Bissau e Cabo Verde, com base em narrativas, estribadas na racionalidade prática, que invocavam desde o factor económico ao geopolítico.

Foi nesse contexto independentista que Dulce Almada emergiu-se enquanto activista pela causa da independência e pôs ao serviço da luta os seus pergaminhos e a sua formação de vocação humanista. Nesse fundo histórico, foi uma intelectual engajada e, por esta via, comprometida com uma causa que era a mais patriótica do seu tempo. Sem margem de dúvida, foi uma intelectual exemplar. Recorda-se que, ela foi cursar Filologia Românica, em 1951, altura essa em que eram poucas as meninas naturais das então colónias africanas a entrarem pela porta-férrea da Universidade de Coimbra. Concluiu a sua formação em 1958 com a monografia sobre o crioulo de Cabo Verde, que viria a ser publicada em 1961 pela Junta de Investigações Científicas do Ultramar, depois de anos antes ter sido dada à estampa a obra pioneira de Baltasar Lopes da Silva sobre o então designado dialecto crioulo de Cabo Verde.

Desde que foi estudar Filologia Românica para Coimbra, Dulce Almada teria estado sempre ligada aos estudantes africanos e teria tido alguma actividade política, já nessa altura, juntamente com outros estudantes das antigas colónias portuguesas em África. Após a conclusão do ensino superior em Portugal, voltou para Cabo Verde, onde desempenhou a função de professora no Liceu Gil Eanes, tendo passado pelas suas aulas alunos com quem ela iria depois cruzar-se no PAIGC, movimento libertador da Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Posteriormente, encontrou-se com Abílio Duarte, que viria a ser seu marido e primeiro Presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde (1975-1991) e que tinha ido para Cabo Verde trabalhar na mobilização para a luta de libertação. No início de 1959, Dulce Almada começou a ter uma actividade política juntamente com Abílio Duarte. Em 1960, saiu de Cabo Verde e foi para França, com a intenção de se encontrar com Amílcar Cabral, mas só conseguiu contactar com Maria Helena, a primeira esposa deste.

Foi para Conacri em 1962 e lá viria a conhecer Amílcar Cabral. Nessa cidade ela trabalhou no secretariado do PAIGC, em diversas actividades, principalmente na confecção e tradução de textos para Francês que eram divulgados nos programas radiofónicos ou no jornal Libertação – órgão de informação do PAIGC.

Foi em Junho de 1962 que ela apresentou, perante o Comité Especial das Nações Unidas para a Descolonização dos territórios então administrados por Portugal, a questão da independência de Cabo Verde, enquanto Amílcar Cabral apresentava o caso da Guiné-Bissau.

Foi para Argel, em Maio de 1963, mas antes esteve no Senegal, em Julho de 1962, com Amílcar Cabral, Aristides Pereira e outros colegas do movimento a que pertenciam para abrirem a delegação do PAIGC, em Dakar.

Depois da independência de Cabo Verde, Dulce Almada Duarte continuou a dar o seu contributo a nível da política cultural e da língua no arquipélago. Não obstante, porque a Primeira República (1975-1990) só teve homens no governo, ela não conseguiu alcançar nenhuma posição política de superior interesse nacional. Certamente se houvesse lugar para mulher, uma das pessoas a ocupar lugar de ministra da república seria Dulce Almada Duarte. Perpetuou o seu legado como exímia intelectual, tendo sido uma senhora que cultivou a inteligência e a dignidade pelo tempo que passou.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 926 de 28 de Agosto de 2019. 

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Autoria:Eurídice Monteiro,2 set 2019 6:10

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  2 set 2019 6:10

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