Em busca da alma caboverdiana

PorJosé Martins,16 out 2019 6:10

Há que saber despoletar ou aproveitar a força centrípeta da melodia em execução, deixar arrastar-se para dentro da mansão cultural existente no seu seio e reencontrar o que lhe confere beleza própria.

Para o alcance do já referido “objecto” veiculado pela Morna como instrumento de comunicação e difusão da cultura caboverdiana, torna-se portanto necessário, de acordo com o artigo anterior sobre a riqueza simbólica da Morna e publicado no Expresso das Ilhas n.º 922 de 31 de Julho de 2019, poder desvendar ou retratar a alma crioula existente no tal “objecto” transportado pela Morna, cuja tessitura se encontra misturada de forma encriptada no intrincado de valores identitários da caboverdianidade que fazem dele um tesouro de todos. Para o alcance desse objecto elaborou-se o referido questionário orientado a partir da questão central “ Em que medida funciona a morna como veículo de comunicação cultural caboverdiana”? Com esta pergunta, a funcionar como ferramenta principal da pesquisa, reforçada com algumas outras questões subsidiárias (de que se falará oportunamente para dissipação de dúvidas suscitadas pela questão central) parte-se para o campo, faz-se o desbravamento do terreno e eis que se toca ‘naquilo’ que se procura: o “tesouro” de natureza identitária existente no seio da Morna. 

É sempre difícil um trabalho desta natureza devido às características do objecto de pesquisa, à imaterialidade dos elementos da sua composição em transformação permanente; ao carácter abstracto da sua existência marcada pelo seu manuseio de forma inconsciente pelo músico crioulo; e a outras particularidades advenientes da marca da criatividade e inovação permanentes no melting pot caboverdiano. 

Tendo em conta o fenómeno actual da aceitação e posicionamento da Morna num dos lugares cimeiros da World Music e, estando certo que ela carrega no seio os referidos aspectos da identidade caboverdiana que, aliás, se revelam durante a sua execução, formulou-se a pergunta, após uma reflexão com amigos e colegas do curso de Mestrado em Património e Desenvolvimento, sobre a necessidade de indagar e trazer à luz do conhecimento o que de real e mágico existe na Morna que, em termos identitários, congrega os caboverdianos e, ao mesmo tempo, catapulta a Morna para o nível em que se encontra hoje. Só conhecendo o objecto cultural, alcançando-o através da execução sui generis da Morna; só com a capacidade de o identificar, interpretar ou produzir, destacando-o com clarividência; só podendo delimitar a Morna, com a consciência da sua similitude com outros géneros e, em termos performativos, durante a execução, destacar a sua própria especificidade, se é capaz de se sentir preparado para a interpretar, (re)criando, compondo, cantando, tocando. Só deste modo se poderá ser capaz de apreender e retratar a alma caboverdiana, ou reconhecê-la como tal. Há que saber despoletar ou aproveitar a força centrípeta da melodia em execução, deixar arrastar-se para dentro da mansão cultural existente no seu seio e reencontrar o que lhe confere beleza própria, completude na criação e plenitude na sua performance, alcançando a alma crioula-caboverdiana con­­ti­da no objecto.

Como peças do dispositivo metodológico recomendado por QUIVY (2003, 4), para além da questão central acima referida, criada como ferramenta principal da pesquisa, questões subsidiárias a enformar o guião de entrevista foram preparadas de modo a facilitarem uma abordagem satisfatória da questão central, no sentido de conduzir os entrevistados ao cerne da questão, à natureza especifica dos elementos da caboverdianidade compartilháveis através da Morna, nomeadamente: (i) temas que, como fenómenos da vida colectiva caboverdiana, e.g. a dolência, saudade e amorosidade (Sousa 1973) têm ao longo dos tempos servido de base para a afirmação do caboverdiano dentro e fora do país (ii) o referido “objecto” que se expõe na e pela morna, que flutua invisível entre os intérpretes, se troca e difunde (iii) representações sociais, i.e. testemunhos do quotidiano caboverdiano que exprimem formas de estar, hábitos e tradições que se revelam e veiculam através da Morna e que devem ser preservados como valores culturais (iv) medidas a serem tomadas para a preservação da integridade ou pureza (?) da morna e evitar ou compreender a actual influência “não benigna” ou inevitável de ritmos e músicas de outras paragens. 

Antes de mais, é bom que se saiba que, para esta dissertação, tema significa, não o título de uma canção, ou de um poema, mas a emoção ou estado da alma caboverdiana que extravasa os limites de uma canção, surge e ressurge num leque de criações musicais ao longo da existência, como um leitmotiv da narrativa da vida caboverdiana. Assim tema é a separação por razões impostas pela emigração, a saudade e a dolência daí resultantes que acompanham a gente crioula desde os primeiros tempos da sua existência, refletindo todos os cenários de dor e dissabores que marcam a vida de quem, por exemplo, sem querer, se separa da terra e dos entes queridos. 

Os tópicos básicos do questionário acima referido constituem linhas de força e guias para a recolha de informações, que ajudam a compreender o papel da Morna na sociedade caboverdiana. E a partir das recolhas feitas, vem-se produzindo, à luz de análises críticas de natureza enriquecedora (não necessariamente contestatária) algo do que até hoje terá vindo a ser feito, em termos epistemológicos, procurando dar um contributo, o mais objectivo possível, para um aprofundamento do conhecimento do género musical, espelho da dinâmica da miscigenação caboverdiana, da sua magia aglutinadora e potencial factor do desenvolvimento nacional.

De natureza exploratória, a entrevista baseou-se na pergunta axial acima referida, norteada pela intenção de desvendar nos interlocutores a percepção do tal objecto, a temática e estética na morna, apreensíveis através da sua fruição, de forma similar à leitura de um texto verbal, um conto impregnado de valores da caboverdianidade. 

Mau grado alguma penosidade desta pesquisa, fatigante para alguns, devido à natureza das questões, merecendo alguma crítica, silêncio ou reprovação de outros, para os quais Morna não é a Rainha, eis que do universo dos entrevistados, sem se darem conta, a luz em focos multicolores traça e perpassa os raios quais relâmpagos por sobre o perfil do que se revela e se crê e se orgulha de ser a alma crioula caboverdiana.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 932 de 09de Outubro de 2019. 

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Autoria:José Martins,16 out 2019 6:10

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  16 out 2019 6:10

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