Sejamos capazes de olhar, ver, escutar e amar as Saras da vida

PorLígia Dias Fonseca,23 nov 2019 7:43

A incapacidade de ouvirmos os gritos silenciosos, os olhares suplicantes, os gestos anómalos, esses sinais todos de pedido de ajuda que são tão visíveis e que não vemos, parece que é uma característica dos tempos de hoje.

Por estes dias, muito temos ouvido falar do recém-nascido abandonado num ecoponto, do sem abrigo que alertou para a situação, da jovem mãe que abandonou o bebé, dos advogados que por iniciativa própria tentam uma estratégia para libertar essa mãe. Enfim, somos inundados de todos os contornos desta tragédia, cada órgão de comunicação social querendo ser o primeiro a dar a notícia, a revelar o pormenor interessante. Entre nós, cidadãos, todos temos uma opinião sobre essa mulher que gerou o bebé abandonado: mãe desnaturada, mãe desesperada, qual mãe?!. Eu própria emiti a minha opinião com toda a convicção de quem tudo sabe sem nada saber, igualzinha a todos os outros. E como tudo muda ao minuto, ao segundo, o que parecia uma coisa, talvez seja outra, o herói do alerta afinal tem outros companheiros heróis, a pressa em libertar a jovem talvez seja apressada.

Esta é uma tragédia humana que em vez de nos horrorizar, nos anima. Aliás, o horrível desperta sempre mais a nossa atenção. Tem de haver sangue, morte, para nos importamos com a vida. A jovem Sara entrou em muitas, em milhares, de casas, em Setembro passado, através de uma reportagem de uma televisão portuguesa sobre os sem abrigo. Não vi essa reportagem e só hoje fiquei a saber da mesma. Nela, a Sara dizia que não queria a vida que tinha, que queria estudar, queria cuidar da mãe. Algumas imagens dela, nessa entrevista, mostram-nos uma criança. Uma miúda que, penso, podia ser minha filha. Tem 22 anos . Já estava grávida, a imagem mostra perfeitamente isso, mas ninguém reparou na altura. E a questão é mesmo esta, ninguém reparou , ninguém podia reparar, porque ninguém queria saber da Sara! 

Uma miúda que diz na televisão que não quer aquela vida, que quer estudar, está a pedir a nossa atenção, Está-nos a dizer que precisa do nosso apoio. Mas , oh que pena, ela há-de desenrascar-se. A reportagem termina, seguimos as nossas vidas, e acreditamos que nada há a fazer ! Na nossa soberba, achamo-nos tão mais importantes que seguimos em frente porque Deus, esse nosso eterno servidor, fará , pensamos, o que nós não temos tempo, nem vontade de fazer! 

Há dias, passei pela primeira vez em Bruxelas. Era já início da noite . A Grand-Place e as ruas que a ela conduzem estavam cheias de gente, luz, tudo muito bonito e já com os primeiros cheirinhos do Natal que se aproxima. Mas os meus olhos não se conseguiam desviar de tantos grupos de mulheres com filhos pequenos, sentados no chão, envoltos em cobertores, mendigando. Essas imagens, qual imagens! essas pessoas, não ficavam bem naquele cenário, de uma bela cidade da Europa. Mas porquê que têm de estar ali para estragar toda a beleza do lugar? Mas estão lá. Estendem a mão pedindo a nossa ajuda. Sabemos que uns não precisam de lá estar e que o negócio deles é mesmo esse. Mas sabemos, também, que o negócio de muitos é também explorar a miséria e a dificuldade de outras pessoas e por isso as põem na rua. 

Com estas crianças embrulhadas, com os narizes vermelhos do frio, sempre no meu pensamento, sobrepondo-se, contra a minha vontade, sobre todas as belas imagens de lugares lindos que conheci na Bélgica, só me pergunto: que Europa é essa que não consegue cuidar desta pobreza? Que Europa é esta que convive indiferentemente com a desgraça diária de tantas mulheres, crianças e homens? Não existem políticas públicas capazes de acolher os pobres e sem abrigo?

E a Sara que deitou o seu bebé num ecoponto na bela cidade de Lisboa. A Sara que é cabo-verdiana, que disse na televisão que não queria aquela vida, e que nenhum de nós ouviu. Será que alguma das muitíssimas vezes que estou em Lisboa já virei as costas à Sara? 

A incapacidade de ouvirmos os gritos silenciosos, os olhares suplicantes, os gestos anómalos, esses sinais todos de pedido de ajuda que são tão visíveis e que não vemos, parece que é uma característica dos tempos de hoje. 

Os companheiros não se ouvem, os pais não vêm os filhos, os amigos não se interessam, os filhos acham que os pais não têm necessidade de atenção. Vivemos todos bem uns com os outros, fazemos declarações de amor e de BFFE no FB , no Instragram e no Twiter e nem reparamos que quem dizemos que amamos está quase a dar um tiro na cabeça porque se sente desesperado, incompreendido, frustrado, derrotado.

O aumento das taxas de suicídio está ai para demonstrar a indiferença que nos está caracterizar . Claro que muitos dizem que é o respeito pela privacidade. Oiço uma pessoa aos berros na casa ao lado e fico quieto, não te metas na vida do vizinho. Vejo uma criança triste e passo sem questionar porque é filho de gente grande. Um colega tranca-se no gabinete o dia todo e ninguém bate na porta para não incomodar. Somos todos muito finos e não nos intrometemos no espaço dos outros. Até dá jeito e assim podemos nos concentrar mais em nós, nas nossas vitórias, e planos de futuro cheio de casas, carros, modas, smarts, até ao dia em que sentimos que nos falta aquele abraço, aquele olhar de amigo que nos diz : não estás sozinho. 

A Sara agora conseguiu ser ouvida. Agora sabemos o nome dela. Agora estamos todos prontos para ajudar. Felizmente não houve sangue, somente o sangue umbilical que carrega tanta vida. 

Sejamos capazes de olhar, ver , escutar e amar todas as Saras que cruzam connosco na vida.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 938 de 20 de Novembro de 2019. 

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Autoria:Lígia Dias Fonseca,23 nov 2019 7:43

Editado porFretson Rocha  em  23 nov 2019 7:43

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