As fraquezas do pragmatismo e a necessidade de uma formação humanística do “homo politicus” 1.ª parte

PorCasimiro De Pina,9 dez 2019 9:08

Alguns analistas costumam alegar por aí, sem uma fundamentação convincente, é certo, que a nossa era representa simplesmente “o fim das ideologias” e, sobretudo, o fim da clássica distinção entre a Esquerda e a Direita, tralha discursiva “ultrapassada” e, retorquem ainda esses luminares, típica do período da “Guerra Fria”

Há que evitar polémicas desagradáveis. Superar fantasmas. 

Peace and love, minha gente! Carpe diem. 

Acabou a longa noite (medieval?) das velhas ideologias. Brindemos. 

Chegou, finalmente, o Admirável Mundo Novo da despreocupação total. Relax, relax. O que está a dar é, neste momento, o Zen Budismo!

O importante agora, julgam esses profetas deslumbrados do “pragmatismo”, é celebrar as novas tecnologias, o 5G, o Bitcoin e, claro, esquecer as disputas ideológicas do passado. Desse triste passado…

Celebremos, então, este novíssimo e delicioso “fim da história”, num sentido não previsto embora por Georg Wilhelm Friedrich Hegel. 

Mas será mesmo assim? 

A humanidade poderá sobreviver sem ideologias, sem disputas políticas e sem Governos e Parlamentos? Não. Não é possível. Seria o fim da própria Polis e da nossa humanidade comum. 

A Polis – o Estado, a República, etc. – é, queira-se ou não, o palco das nossas aspirações mais sublimes. O locus da “amizade cívica”, lembrando um Maritain. 

Como fábula, o pragmatismo (antiideológico) é realmente interessante. Mas não passa disso mesmo: uma fábula. 

Aliás, incoerente e bem saloia! Para começar, o pragmatismo é também uma…ideologia. Com o seu corpo de crenças, mitos e expectativas. 

Normalmente desemboca na tecnocracia e na tentativa, fútil, de abolir a cultura política.

As suas raízes modernas podem encontrar-se, creio eu, em Auguste Comte (1798-1857), o chefe-de-fila do positivismo francês, apostado em abolir a Religião e os resquícios de épocas históricas mais recuadas. 

A Metafísica também devia ser combatida.

Comte interessa-me, agora, muito mais que William James ou Charles Sanders Peirce, cujas contribuições, doutra subtileza, não serão avaliadas neste artigo. 

AC é um dos “pais” da sociologia, com a sua conhecida teoria, ou lei, dos três estados. O antigo aluno da École Polytechnique queria inventar uma nova “religião da humanidade”.

A bandeira do Brasil é claramente Comteana, espelhando o seu lema de Ordem e Progresso. O progresso é uma linha recta, dir-se-ia. 

Comte acreditava, ingenuamente, no poder da ciência e na sua capacidade de “regenerar” a humanidade (se tivesse vivido, cerca de dois séculos depois das suas elucubrações teóricas, as experiências totalitárias do século XX, a revolução comunista russa e a barbárie hitleriana, nomeadamente, saberia que, historicamente, pode ser exactamente o contrário: uma ciência desprovida de alma, isto é, sem valores mais altos, pode conduzir as sociedades humanas ao descalabro, à pobreza, aos gulags e à mais completa tirania). 

O “pragmatismo” é uma ideologia incoerente e uma bússola política pouco recomendável.

É altamente imprudente, porque ignora as fundações. E imensamente perigoso, no seu radical facilitismo. 

Podemos ver isso na altura da II Guerra Mundial. 

O grande “pragmático” era o senhor Neville Chamberlain. O que fez? 

Tentou silenciar as disputas mais profundas. Tentou apaziguar Hitler. Com isso, lançou o seu país na guerra, permitiu a ascensão tranquila de um tirano sem escrúpulos, e pôs em perigo a própria civilização da liberdade. 

Felizmente, apareceu um estadista chamado Winston Churchill, um liberal-conservador da velha escola, versado em Estudos Humanísticos de alto nível, para combater, em boa hora, Hitler e a loucura do III Reich. 

Os grandes líderes são capazes de sondar os conflitos profundos que existem na alma humana, e os seus reflexos decisivos na Polis.

As ideologias não vão acabar tão cedo. 

E também não acabou a distinção entre a Esquerda e a Direita. Desiludam-se. 

No meu 2.º livro, editado em 2016, dediquei alguns ensaios a esta temática. 

O que alguns palpiteiros não percebem é que, para além das pequenas querelas à volta de “mais ou menos Estado na economia”, opondo, enfim, keynesianos e hayekianos, existe um outro ponto de confronto essencial, mais importante, radicado na leitura mesma do Tempo histórico. 

São duas percepções opostas da realidade. 

Ora, isso obriga-nos a mergulhar seriamente na História das Ideias. 

Autor de uma obra filosófica monumental, Olavo de Carvalho (Direita e esquerda, origem e fim, in http://olavodecarvalho.org/direita-e-esquerda-ori... usando, diríamos, o “método aristotélico”, observa que a distinção tem um sentido de permanência, na medida em que corresponde a uma espécie de “laicização” ou politização de um fenómeno Bíblico: o mito – mas mito como arquétipo fundador…– da Origem e do Fim. Génese e Apocalipse. 

Segundo o Filósofo brasileiro radicado na Virgínia, a moldura eterna só desaparece aí por volta dos séculos XVIII e XIX. Com as novas ideias de “progresso”, ciência “positiva”, etc., a eternidade bíblica dá lugar a uma como que herética interpretação, em que “…a dimensão temporal passa a ocupar todo o campo de visão socialmente dominante”. 

É neste terreno que se situa a fundamental distinção entre Esquerda e Direita, enquanto “politizações de símbolos mitológicos”.

A esquerda legitima-se através da ideia de um Futuro promissor e idílico, enquanto a direita busca a sua autoridade na experiência e na Antiguidade. 

Mas existem diferenças profundas no modo como cada sector concebe o seu adversário. 

Vale a pena escutarmos o grande pensador:

“É inevitável, também, que, pelo menos em certos momentos do processo, esquerdistas e direitistas se equivoquem profundamente no julgamento de si próprios ou de seus adversários. Da parte dos direitistas, tanto hoje como ao longo de todo o século XX, a grande ilusão é a da equivalência. Como estão acostumados à idéia de que direita e esquerda existem como dados mais ou menos estáveis da ordem democrática, acreditam que essa ordem pode ser preservada intacta e que para isso é possível “educar” os esquerdistas para que se afeiçoem às regras do jogo e não tentem mais destruir a ordem vigente. Pelo lado esquerdista, porém, essa acomodação é impossível. No mundo dos direitistas pode haver direitistas e esquerdistas, mas, no mundo dos esquerdistas, só esquerdistas têm o direito de existir: o advento do reino esquerdista consiste, essencialmente, na eliminação de todos os direitistas, na erradicação completa da autoridade do antigo. Foi por essas razões que os EUA retiraram pacificamente suas tropas dos países europeus ocupados depois da II Guerra Mundial, acreditando que os russos iam fazer o mesmo, quando os russos, ao contrário, tinham de ficar lá de qualquer modo, porque, na perspectiva da revolução, o fim de uma guerra era apenas o começo de outra e de outra e de outra, até à extinção final do capitalismo. A sucessão quase inacreditável de fracassos estratégicos da direita no mundo deve-se, no fundo, a uma limitação estrutural do direitismo: eliminar a esquerda completamente seria uma utopia, mas a direita não pode tornar-se utópica sem deixar de ser o que é e transformar-se ela própria em revolucionária, absorvendo valores e símbolos da esquerda ao ponto de destruir a própria ordem estabelecida que desejava preservar. O fascismo, como demonstrou Erik von Kuenhelt-Leddin no clássico Leftism: From De Sade and Marx to Hitler and Marcuse (1974), nasce da esquerda e arrebata a direita na ilusão suicida da revolução contra-revolucionária”.

Ora, analisando a actuação política da Esquerda por este mundo fora, percebem-se claramente os traços dessa radical intolerância.

A esquerda, digo eu, é o mundo da auto-ilusão e da infalibilidade papal.

Essa gente acredita que tem as “chaves da história”!

Algum dia viram um esquerdista sincero, capaz de reconhecer, por exemplo, os crimes aviltantes do comunismo (mais de 100 milhões de mortos no século XX, em tempos de paz) e de avaliar a essência totalitária do próprio socialismo?

O socialismo é intrinsecamente totalitário. Como apontou magistralmente Jean-François Revel, “Os partidos socialistas, nos regimes livres, são democráticos na proporção em que sejam menos socialistas”. 

Quando é que um socialista dirá: “Karl Marx foi apenas um charlatão rebuscado”? Nunca. Vide o exemplo português. Os “moderados” de esquerda recusam-se, até, a aceitar a comparação entre o comunismo e o nazismo, que eles acham um imenso exagero! 

O esquerdista é, pois, um ser alucinado, estruturalmente histérico, que não hesita em queimar os factos históricos na pira das suas majestosas crenças e utopias.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 940 de 04 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Casimiro De Pina,9 dez 2019 9:08

Editado porSara Almeida  em  29 ago 2020 23:21

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