Norberto Tavares e o seu canto à esperança

PorPaulo Lobo Linhares,31 mar 2020 8:19

​Soa pelas ruas da nossa cidade uma campanha, que adverte para os perigos do coronavírus, propondo as medidas que deverão ser tomadas.

Há um combate a ser feito onde a formula “cada um de nós e todos” é absolutamente fundamental. Há um perigo eminente. Mas… também há a tal luta que está a ser travada, pela esperança de dias melhores. Assim, de forma mais do que acertada, foi escolhida o tema “Nos Cabo Verde di sperança” de Norberto Tavares, que quando o ca(o)ntou, obviamente que em contexto completamente diferente, não imaginava a atualidade que o tema viria a ter.

Atualidade, no sentido de nos agarrarmos e acreditarmos numa esperança, tão necessária, e que também depende da luta dos Cabo-verdianos…

Ensinou-nos, a ter sempre a dose necessária de esperança, talvez como a única fórmula de suplantar algum medo.

Norberto Tavares nasce na Assomada e emigra para Portugal, onde integra um dos mais significativos grupos, de um dos mais interessantes períodos da nossa música – o conjunto “Black Power”. Os palcos da música de Cabo Verde, pertenciam a Portugal e Holanda, onde a produção era considerável. Com o grupo grava “Black Power – vol.1”, “Mornas e Coladeiras”, “Nos Cabo Verde di sperança” e “Black Power is back”

Assume definitivamente a profissão de músico quando parte para os U.S.A. onde funda os “Tropical Power”, com os quais grava dois discos: “Mundo sta di boita” e “Tropical Power em acção”

Nessa época, edita o seu primeiro disco a solo, o célebre LP “Volta pa fonti” e mais tarde “Jornada di um badiu” e “Hino di unificação”.

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Não seria exagerado se afirmasse que Tavares foi dos primeiros a mexer nos ritmos do Batuku e inclusive do Funaná (veja-se o tema “Mariazinha”). Da música que começa a ouvir no violão do pai, até a vivência observada do interior de Santiago, passando por uma enorme dose de autodidatismo musical, tudo terá contribuído para levar consigo uma amálgama de sonoridades, muito assente em ritmos de Santiago, que acredito não ter sido o primeiro a divulgar tais sons tradicionais em formato eléctrico…por acaso… Na verdade, fica a pergunta: … não o terá sido?…

Voltando ao nosso tema – “Nos Cabo Verde di sperança” – aparece no LP dos “Black Power” com o mesmo nome, gravado em Lisboa.

Não muito tempo foi preciso para passar a ser referência dos Cabo-Verdianos, sobretudo da emigração, quase que um dos “hinos” da nossa música e da representação de Cabo Verde (na época em que foi gravado e certamente ainda hoje…).

A particularidade de uma enorme transversalidade social e musical é preciosa.

Canta a esperança do cabo-verdiano indo mais além incutindo-lhe muita acção. E tanto precisamos desta mistura…

Assim, como acima referido, apesar do tema ter sido escrito para contexto diferente, a maneira sábia com que toca no significado da palavra esperança, leva-me a propor que o tenhamos sempre por perto para audição, ainda mais em dias como os que vivemos. Sigamos, pois, com muita da esperança cantada por Norberto Tavares – Referência para artistas e ouvintes das mais diversas gerações…quiçá pouco divulgado…

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 955 de 25 de Março de 2020. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,31 mar 2020 8:19

Editado porSara Almeida  em  31 mar 2020 8:19

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