O glorioso futebolista do Benfica e histórias de gente conhecida da Praia

PorCarlos Filipe Gonçalves,11 abr 2020 7:22

Músico e Jornalista
Músico e Jornalista

Um dos primeiros grandes jogadores do Benfica era crioulo? Nááá! Incrível, mas é verdade! Quem me enviou os dados desta «estória de dias há» foi o meu prezado amigo Artur Mendes, classificado por um outro nosso amigo como «um incansável pesquisador, que tem resgatado da poeira dos arquivos, tudo o que possa contribuir para edificar o património das nossas memórias colectivas»!

Artur é um português (ou crioulo?) que viveu longos anos aqui neste nosso Cabo Verde, mas agora vive em Portugal… Exactamente o contrário de Fortunato, um crioulo que o pai enviou para estudar em Lisboa e que se tornou numa grande estrela do futebol! Dias há, na munde!

Reza a história que quando em 28 de Fevereiro de 1904, foi fundado o Clube Benfica, Fortunato Levy (o nosso crioulo) não sendo um dos 24 fundadores, foi dos primeiros a aderir ao novo clube! Na época, contava quase 20 anos idade e já estava em Lisboa, pelo menos desde 1902, para concluir a formação escolar, vivendo em casa de familiares e estudando na Escola Académica, no Rossio. É mais ou menos desta forma que começa esta história fabulosa que liga o SLB a Cabo Verde e que consta do blogue, de António Melo – um benfiquista empedernido, claro – que tem como objectivo divulgar, defender o seu clube e contar a sua Gloriosa História. Encontrar esse «site» no ciberespaço depois desta introdução é facílimo, depois claro se de ter as palavras-chave para acionar o Dr. Google! Mas mesmo assim, e com a vossa permissão vou contar resumidamente a «estória». Os curiosos que quiserem saber dos pormenores de jogos de há mais de 100 anos e ver documentação da época em profusão, como prova, encontrarão no final deste artigo o endereço completo do blog.

Como todo o jovem na flor de idade, Fortunato Levy dedicava-se com empenho ao desporto e actividade física, com destaque para o futebol, comparecia com regularidade aos treinos, enfim, era dedicado. Ainda durante a época de 1903/04, entre 28 de Fevereiro e 3 de Julho participou em dez, dos vinte e quatro jogos que se realizaram. Na época 1906/07 Fortunato Levy foi eleito para capitanear a 1.ª categoria! Um jovem de 22 anos, negro, a capitanear o Sport Lisboa causou espanto em Lisboa! Com a época de jogos a começar tarde, estreou-se como capitão, em 22 de Janeiro de 1907, num jogo para o campeonato regional, organizado pela “Liga de Futebol Association”. Para além de futebol, coube-lhe em 3 de Junho de 1906, representar pela primeira vez o clube num outro desporto, o velocipedismo ou ciclismo na terminologia actual.

Esta, uma pequeníssima parte dos sucessos deste futebolista (crioulo) que teve o seu nome escrito em muitos jornais, envolvido nas peripécias ligadas aos acontecimentos decorrentes de jogos, disputas e campeonatos! O final da época de 1906/07 coincidiu com o término dos seus estudos em Lisboa. Em 5 de Abril de 1907 o Benfica ofereceu-lhe um jantar como homenagem de apreço pelas qualidades evidenciadas durante as quatro épocas – três em competição – enquanto esteve no Clube. Voltou então para Cabo Verde, onde viveu como um ilustre desconhecido, a nível desportivo pois ninguém sabia ou imaginava o sucesso que tinha feito em Portugal! Faleceu aos 81 anos aqui na sua Cidade da Praia onde nasceu em 21 de Abril de 1884.

Quem, é este ilustre esquecido pela história? Fortunato Monteiro Levy era o mais novo dos três filhos de um senhor, chamado Bento Levy (nascido em 11 Novembro de 1851 em Lagos, Portugal, pais originários de Marrocos). Quando emigrava de Lisboa para o Brasil, o navio em que seguia sofreu uma avaria. Teve de ser reparado aqui na cidade da Praia. Com a demora e mil um, outros problemas, fez contactos, resolveu estabelecer-se aqui, abriu uma loja e casou-se com Paula da Conceição Monteiro (que nasceu em São Nicolau Tolentino, São Domingos) uma descendente de gente do Fogo.

Mas, voltemos ao «futebolista» Fortunato Levy. Quando regressou à Praia, depois dos estudos em Lisboa, também constituiu família, foi figura de destaque na sociedade, exerceu a actividade de gerente comercial na empresa do pai, a «Casa Levy” situada no platô, bem no centro da praça principal aqui na cidade da Praia. Foi casar à ilha do Fogo, na vila de São Filipe, em 19 de Fevereiro de 1914, com quase 30 anos, com D. Maria Júlia de Medeiros Gomes Barbosa, nascida em 14 de Novembro de 1887. Três anos e seis meses mais nova, que o nosso Fortunato e falecida em 7 de Fevereiro de 1966, cerca de três anos antes do marido. Tiveram quatro filhos, um rapaz (Orlando nascido em 1915) e três raparigas Méry (nascida em 1917), Ester (em 1919) e Victoria Helena em 1922). Tudo gente conhecida desta nossa cidade da Praia! Todos com vidas longas e proveitosas, ou não “saíssem a Fortunato Levy”. O capitão do Benfica, aos 22 anos! Nota, Bento Levy que foi deputado no tempo colonial era sobrinho do Fortunato Levy.

Quando aqui na Praia, em cavaqueira amena, à porta da casa, o Fortunato dizia aos amigos e rapaziada: «Sabem que joguei no Benfica!?» Era a risada geral, até o dia, em que os mais velhos, souberam que era verdade. Agora, Fortunato era um homem desengonçado pela idade, de bengala e enrugado pela passagem dos anos… Depois do regresso de Portugal, continuara nas lides desportivas, mas como dirigente… e o insólito aconteceu: Agora não “era” de um clube filial do Benfica, o Clube Desportivo Travadores, mas pertencia um clube rival, o Vitória Futebol Clube, filial do Vitória setubalense! Note-se, o Clube Travadores foi fundado em 15 de Outubro de 1928 e em 1949 pediu a filiação no Sport Lisboa e Benfica! O seu filho Orlando Levy chegou a presidir a este clube que se equipa à Benfica! Mas…o pai Fortunato Levy preferia o Vitória Futebol Clube, do qual foi um dos fundadores em 1 de Junho de 1931! Nota: Bento Levy, figura conhecida da Praia, que foi deputado no tempo colonial, era sobrinho de Nhô Fortunato Levy que aqui descrevemos.

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Em jeito de comentário e análise, esta história ilustra a miscigenação que aqui correu com inúmeros povos, bem como as ligações com a Metrópole daquele tempo. Com a Independência Nacional, Cabo Verde passou a ter o relacionamento de Estado a Estado com a sua antiga potência colonial, através da diplomacia, cooperação, vistos de entrada etc. como é da praxe! O que engendrou/criou, uma distância… entre os dois Estados soberanos, entre muita gente e entre muitas histórias comuns! Depois, faleceu muita gente (é a lei da vida) ficaram muitas histórias, desconhecidas das novas gerações. Dessas histórias, algumas trazem muita mágoa, outras nem por isso… E muita gente não quer encarar o passado, porque simplesmente ficou a crença que devemos esquecer a tal «noite colonial … mas ela teima em nos perseguir e muitos dos seus personagens teimam em aparecer à luz dos dias de hoje. A finalizar, o prometido é devido eis o link: https://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2016/12/...

*Com a colaboração de Artur Mendes, texto com base num trabalho de António Melo; dados confirmados no site genealogia www.barrosbrito.com

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 984 de 8 de Outubro de 2020. 

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Autoria:Carlos Filipe Gonçalves,11 abr 2020 7:22

Editado porSara Almeida  em  13 out 2020 9:23

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