Vamos sobreviver

PorDina Salústio,21 abr 2020 7:17

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“Mantenha-se afastado dos possíveis focos de contaminação”, “Fique em casa”.

A quarentena apanhou-me longe das ilhas e por isso a crónica passa-se numa Europa com as inquietações, preocupações e dores, as mesmas que percorrem o mundo.

Olhando à volta parece que estamos dentro de um filme de ficção e tudo parece com sentido dúbio ou mesmo sem sentido nenhum. Nada está assegurado. Nós é que no jogo da sobrevivência emocional ou social precisamos de nos agarrar a determinados ganhos e certezas para nos mantermos equilibrados. Apenas isso.

Nunca, na nossa existência, sentimos de forma tão assertiva a vida coletiva gritando e exigindo o seu direito de viver. De repente é como se ela tomasse um corpo, diria universal, e exigisse a cada um de nós – independentemente do sítio e oceano em que nos encontramos – comportamentos e atitudes que a mantenham desperta e ela dissesse, qual animal acossado: “Mantenha-se afastado dos possíveis focos de contaminação”, “Fique em casa”.

Escuto um ruído esquisito que parece percorrer as veias do meu prédio. Não sinto os elevadores. Não há correrias das crianças pelos corredores e o senhor do andar de cima que me chateia com uma serra de cortar mármore (eu acho que é isso) a fazer artesanato o dia todo, parece que se ausentou para parte incerta. Os estudantes não se ouvem e o correio não chegou, pontualmente, entre as doze e as doze e trinta. Não há cheiros de estufados e os pequenos cachorros não latem, apenas restos dos odores dos produtos de limpeza e um aviso que o serviço passa a ser feito a meio da noite. – Bastaram dois dias nas Urgências para se silenciar o prédio – concluo.

Vou à padaria. Uma jovem apressada agarra o pão e antes de sair manda-me um olhar como quem pergunta: o que faz uma idosa na rua? Não a levo a mal. Estou tolerante. Pouco depois, já em casa, chega o meu filho de armas e bagagens: – Vim para fazer a quarentena contigo – diz, enquanto se lava, muda de roupa, desinfeta, torna a lavar as mãos e a desinfetar-se. Pede-me detalhes sobre a minha saúde e, como os amigos com quem falo sobre a minha estada no Hospital, as perguntas soam como se eu tivesse facilitado uma transgressão. Lembro o médico de São Vicente que me diz: – Procura não ir às urgências. Aguenta enquanto puderes. Muitas milhas nos separam e as recomendações são como medicamento.

Não vale a pena tentar explicar que a culpa não é tua, porque ninguém te escuta, e dizer tipo “sou culpada, mas…” não adianta porque toda a gente sabe que queiramos ou não há sempre uma necessidade de dividir culpas, de partilhar responsabilidades ou irresponsabilidades, de repartir falhas. Não, não, com as idas ao hospital sem se estar com a Covid19 não vale tentar justificativas, nem dizer o que todos sabem: que há outras doenças que não a Covid19, e por isso vamos às urgências.

Estamos a atravessar um tempo bastante complicado e todos estamos um pouco perdidos, conscientes de que logo que esta fase acabar nada será como dantes. Todos nos lembramos de acontecimentos neste século XXI que mudaram o mundo. É necessário que aprendamos rapidamente as boas práticas de defesa e proteção que, obviamente, nos vão ser exigidas.

Nenhum país estava preparado para esta pandemia e, com lucidez, se atendermos ao nosso território arquipelágico, às possibilidades económicas e às muitas regiões mal cobertas face à proteção da saúde, naturalmente ficam à vista as nossas maiores fragilidades. Temos que concordar que não é fácil para grande parte da população. Para outros, muitos, não será cómodo, mas com esses, possivelmente meus companheiros, não me preocupo.

Os cabo-verdianos estão habituados a lutar com sucesso pela sobrevivência e, neste momento, é isso o que está em causa: a nossa sobrevivência. Portanto, cumprir as decisões dos Serviços de Saúde, ou sejam a Prevenção e a Quarentena (a fase atual em que estamos) são essenciais. Esta é uma altura ideal para os meios de comunicação e para as redes sociais apoiarem os indivíduos e comunidades, com um papel particular para a Rádio, em virtude da proximidade, encorajando-os, suportando-os, divertindo-os.

Como música de fundo para esta crónica, a canção “I will survive” que passa numa Rádio.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 959 de 15 de Abril de 2020. 

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Autoria:Dina Salústio,21 abr 2020 7:17

Editado porSara Almeida  em  22 abr 2020 22:46

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