A escrita está na rua

PorDina Salústio,10 ago 2020 7:46

A crónica de hoje, lembrando as mulheres-família da paragem do autocarro e pensando nas crianças, naquela criança que não podemos deixar para trás.

Em tempo de restrições e sufocos eu vejo e oiço outras vidas enquanto aguardo o transporte. Com distanciamento estão três cabo-verdianas possivelmente regressando do primeiro trabalho. Os homens usam outros circuitos para as obras da construção civil. As mulheres falam do desemprego, da terra, da dificuldade de conseguirem “mandar uma encomenda” para Cabo Verde e da preocupação com as ilhas. A ilha surge na conversa e nos meus ouvidos como se fosse um indivíduo, alguém tão importante que não precisa de um nome ou de outra referência que o identifique. Também não dizem a palavra família e a minha intuição diz-me que, se calhar, a palavra é pequena demais, ou imensamente redutora para traduzir o que na verdade as pessoas que ficaram na terra significam. Com mais tempo e falas deduzo que afinal há muito mais mundo escondido do que eu imaginava nas longas hesitações, na saudade e nas palavras. Para aquelas mulheres quem ficou na ilha são a mãe, os filhos, a avó. Família são elas próprias que fizeram a viagem; é a força que lhes permite o quotidiano, o pensamento e o olhar. Não há desalento nas vozes e sinto-me confortável quando retomo o passeio.

Ouvindo essas mulheres concordo que o ensino tem de facultar aos jovens o conhecimento sobre a solidariedade profunda que existe por parte de uma grande parte dos cabo-verdianos emigrados. Além de ser uma forma de conhecerem o país real também lhes permitirá participar, de forma consciente, na gratidão que devemos ter pelos que de longe ajudam a sobrevivência dos parentes e o desenvolvimento do país.

Não acho que seja indicador de uma atitude miserabilista assumir ou reconhecer que a sobrevivência de muitas famílias depende dos emigrantes. Infelizmente é assim e não tenho vergonha em reconhecê-lo, porque como as nossas ilhas devemos ter os pés no chão, ou bem fincados no mar. Neste contexto, não tenho vergonha da palavra sobrevivência, embora tenha raiva. Quem não tem ódio pelas suas limitações e desgosto pelos seus medos?

Penso que são essas fraquezas que nos motivam a querer esquecer a pandemia, a inventar alegrias e a adaptarmo-nos ao silêncio que cresce à nossa volta, procurando dar outro tom à escrita ou outro respiro às palavras.

E pelas mesmas razões vamos dizendo e ouvindo dizer sobre outros momentos difíceis das nossas vidas e da nossa História, alguns trágicos, que nos arrasaram e que, no entanto, não nos impediram de hoje cá estar. Todos esses comportamentos não passam de estratégias de sobrevivência e uma tentativa de esquecer até que a solução chegue.

No entanto, mais lúcida, eu acho que, embora doa, temos de falar do que nos atormenta e atormenta a sociedade; temos de discutir e provocar discussões e dramatizações públicas para nos prepararmos melhor e preparar os jovens e crianças para o convívio com a pandemia. É chato? É. Mais do que isso: é terrível. Mas a vida real está aqui do nosso lado, pedindo soluções, escusando desculpas e exigindo a verdade. Os próximos meses, talvez anos, vão ser de alerta e temos todos de estar mais preparados e com mais defesas. A abertura do ano letivo é para daqui a pouco e temos a obrigação de preparar as crianças pelo que vai vir.

Em maio, numa crónica para a revista portuguesa Presença e para a alemã LCB Diplomatique, no contexto da Covid19, escrevi sobre o drama que os países passaram e passam com a falta de meios para atender todos os doentes, situação visível em televisões do mundo inteiro onde profissionais da saúde atormentados explicavam o desespero de terem de escolher entre dois pacientes qual teria mais condições de se salvar pelo acesso a um ventilador e qual teria de ficar para trás.

… “Ventiladores? Camas? Máscaras? …

No meu país tenho a certeza que é um drama para os decisores terem de escolher em cada orçamento anual, ao longo desses quarenta e cinco anos de independência, as populações que vão ficar fora das oportunidades de trabalho, normalmente oportunidades de uma vida…

… De facto há temas que eu não sei como tratar sem ferir o nosso sagrado ou sem beliscar nossas feridas, nossas fraquezas e cobardias”.

Termino a crónica de hoje, lembrando as mulheres-família da paragem do autocarro e pensando nas crianças, naquela criança que não podemos deixar para trás.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 975 de 5 de Agosto de 2020.  

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Autoria:Dina Salústio,10 ago 2020 7:46

Editado porSara Almeida  em  10 ago 2020 7:46

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