Santa Bárbara

PorSónia Morais,18 ago 2020 7:05

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Durante muitos anos Santo Antão era, para mim, sinónimo de férias. A partir dos meus dez anos comecei a ir religiosamente passar as férias grandes a Santa Bárbara, propriedade situada em frente à Povoação da Ribeira Grande. O dia 10 de Junho, final do ano lectivo, era ansiosamente aguardado.

Os dias imediatamente a seguir eram passados com o ouvido colado à Rádio Barlavento, para saber se o mar estava de pequena vaga ou encrespado porque, daí a pouco, seria a viagem para três meses de delícias e saburas sem fim. Actualmente a viagem dura uma hora mas naquele tempo levava sempre um dia inteiro. Tínhamos de acordar cedo, numa grande atribulação, tomar café para não ficar com o estômago vazio e logo a seguir engolir um Veganine contra enjoo. A seguir, o embarque no cais da Alfândega, a descida dos degraus do cais e o salto para o bote a remos, a curta viagem até ao barco fundeado não muito longe, a subida ao colo de algum marinheiro para dentro do barco. E depois de uma longa espera dentro do barco, geralmente mal acomodadas em cima de alguns sacos ou caixotes, já o sol ia alto quando finalmente largávamos.

A viagem era sempre longa e má, no Gilica, Nauta ou Carvalho era tudo o mesmo, (a preocupação da minha mãe era saber se o mar estava azul?!) toda a gente enjoava e só o pensamento fixo nos banhos de tanque e outras delícias que nos esperavam do outro lado nos animavam. O desembarque era igualmente horrível fosse na Boca de Pistola, Ponta do Sol, ou no Paço, Paúl. Em ambos os casos lembro-me do pavor que sentia quando era atirada dos braços de um marinheiro para outro, do barco para o bote que nos levaria ao pequeno cais onde tínhamos de “tirar jazida” para dar o salto final, sãos e salvos, para terra firme.

Lá em cima Vô Lela aguardava-nos imponente e impaciente, do alto da sua enorme estatura e cara de respeito, dando ordens e brigando com os bagageiros, e quando finalmente todas as maletas, bolsas e cartõezinhos, estavam desembarcados, lá nos metíamos no jeep Willis para dar início à aventura seguinte: a viagem pela estrada velha do Paúl à Ribeira Grande. O que para a maioria das pessoas adultas era uma coisa medonha, para nós resultava divertidíssimo seguir o Vô Lela que “guiava” ao lado do chofer, dando instruções o tempo todo: devagar, atenção, mete reforço, buzina..., ou então a observar as senhoras tapando os olhos de medo quando o jeep começava a subir as íngremes e estreitas rampas que terminavam lá em cima numa curva em cotovelo que ninguém sabia de antemão onde ia dar. E quando finalmente chegávamos a Santa Bárbara, lá estavam Vô Lisa, Tia Derreis e Tia Nina, Maria Constança e todo o pessoal da casa fazendo a recepção de honra, com grande alarido e contenteza.

E lá passávamos os três ou quatro meses das férias grandes, com mais ou menos malta, adultos ou jovens, mas sempre muito divertidos, entre banhos de tanque e passeios às outras ribeiras, visitando parentes. Subir a Ribeira do Paúl era um deslumbramento, a imponência das montanhas e o verde intenso depois das chuvas deixava a todos encantados. E lá em cima, no Campo de Cão, esperava-nos sempre um belo almoço e Nanobre, já velhinha, na varanda da casa grande que dava para o mais belo jardim de roseiras de que tenho lembrança. Atrás ficava o curral onde o trapiche ainda era puxado a bois e ficávamos a ver os homens a “cantá boi”, tapando um ouvido com o dedo indicador, enquanto iam seguindo a roda. E bebíamos calda fresca até enfastiar enquanto os adultos degustavam os belíssimos licores e certamente alguma aguardente velha especialíssima. Mais abaixo, na Vila das Pombas, era infalível a paragem na propriedade do primo António Augusto, de onde nunca saíamos sem uma aula de botânica, depois de uma longa volta pelo jardim, onde havia sempre uma nova espécie de filodendrum ou de rosa da china para mostrar.

E nas noites de lua cheia fazíamos pickupadas no terraço com um gira-discos a pilhas e discos de Adamo e Elvis Presley. Depois do jantar eram as jogatinas de bisca e sete e meio com as velhotas e, apesar da maior das batotas, não conseguíamos evitar que a Tia Nina ganhasse, perguntando no fim à irmã, muito candidamente: “Ó Elisa o quê que era trunfo?” Sorte assim é demais, berrava o Cuca, desesperado. Não adianta fazer batota nem roubar cartas, ela ganha sempre e nem sequer sabe qual é o trunfo. Judeu e basta...E quando íamos para a cama ficávamos a ler, às escondidas, à luz de velas até que vinha a Maria Constança ou a Vó Lisa para as apagar. E dormíamos instantaneamente um sono de pedra que nem sentíamos os caroços dos colchões de florzinha. No dia seguinte bem cedo, acordávamos com o cacarejar das galinhas e dos patos e os brados das comadres que se cumprimentavam dum lado para o outro da ribeira. “Ó Meriiiiiiiiiiiia!”, bradava uma, “bom brigada e booooooooô?” respondia Maria do outro lado do vale. E não havia sabura maior que o café da manhã com a cachupa guisada da Maria Constança, com linguicinha e ovos mexidos, às vezes uma mandioquinha frita ou uns pastéis de fruta-pão. Depois íamos atrás das galinhas, à procura de ovos para vender à Vó Lisa, que nos dava alegremente um tostão por cada ovo, e brincávamos com os cabritinhos no curral, os mesmos que, tranquilamente, comeríamos depois ao almoço, com feijão ervilha verde.

As tardes eram passadas ao baloiço, embaixo da enorme amendoeira à frente da casa, a ler revistas aos quadradinhos, de preferência Bolinhas e Luluzinhas, ou então a brincar na própria árvore que adorávamos trepar e que servia de acesso rápido ao terraço, principalmente para os rapazes quando desenfiavam à noite para ir à Povoação, fora de horas. Nessa mesma frente de casa onde muitas vezes aparecia o Antoninho Travadinha, quando ainda não era famoso, e o seu companheiro Carciano, a fazer belas serenatas de violino e algumas palhaçadas para passar o tempo.

Aos domingos era sagrado irmos à missa na Igreja da Povoação e às vezes até apanhávamos alguma procissão, e ficávamos embuchadas de riso a contar o número de pessoas, adultos e crianças, que iam calçadas com os sapatos trocados. E não podiam nunca faltar os passeios à Ponta do Sol, “a terra mais linda do mundo” para os naturais da Vila e um almoço na Chã, em casa dos Serras. Ou uma volta a pé até Coculi, visitando amigas e ficávamos a contar partidas e às vezes até fincávamos um baile na sala enquanto esperávamos pelo cuscuz quente do lanche.

Mas nem tudo foi sempre alegria. Houve um ano de desgraças, quando ruiu uma parte da estrada para o Porto Novo, que estava a ser cortada na rocha, e um enorme pedregulho rolou pela zona da Ladeira e abafou uma série de casas. Houve vários mortos e lembro-me de estarmos a assistir, apavoradas, à passagem dos corpos embrulhados em lençóis, sobre padiolas, a atravessar a ribeira aos ombros de homens com água pelos joelhos, para serem enterrados na Ponta do Sol. E às vezes ficávamos isolados quando a ribeira corria forte destruindo alguns muros e levando parte de terras e plantações. Quando as águas clareavam, tomávamos banhos na ribeira chupando manguinhas de terra, araçás e goiabas e, por qualquer tuta-e-meia, comprávamos camarões de água doce acabadinhos de apanhar.

E quando finalmente regressávamos a S. Vicente, depois de quase quatro meses, vínhamos brancas, loiras e barrigudas, e íamos a correr para a Matiota tomar um pouco de cor, antes de recomeçar as aulas.

Bem hajam Carocha, Zezinha, Bila, João Manuel, Zezé, meus irmãos, Armindo e Bernardo, Soninha e Cuca, Zezinha Santos, Fatú Leão e todos com quem compartilhei tantas coisas boas. Aos que já não estão connosco a minha eterna recordação. Aos meus inestimáveis primos, compadres, quase-pais, Zinha e Aníbal Lopes da Silva, que me proporcionaram alguns dos anos mais felizes da minha vida e sempre me fizeram sentir como verdadeira sobrinha, dedico esta crónica com toda a minha gratidão e estima. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 976 de 12 de Agosto de 2020.

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Autoria:Sónia Morais,18 ago 2020 7:05

Editado porSara Almeida  em  18 ago 2020 9:29

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