Crónicas da Dina Salústio: Falar de Amor Sem Truques

PorDina Salústio,25 jan 2021 8:45

Escrever sobre o amor é tão ou mais difícil do que vivê-lo, porque ao escritor faltam redes que o aparem numa desilusão criativa, faltam os suportes físicos e emocionais que ditem a respiração da frase, o brilho de uma tarde na folha esguia ou a subtileza necessária para que o jogo prossiga.

Quando sou confrontada pelos estudantes sobre a razão por que não escrevo sobre o amor, geralmente a pergunta causa-me alguma estranheza, pois estou convencida que o meu tema de escrita de eleição é precisamente o amor. Muitas vezes enviesado, é verdade, normalmente de uma forma torta, é certo, mas está lá, mesmo que par une petite seconde, dans une petite phrase. (O francês é uma homenagem a alguém que eu julguei perdido).

Adivinho – porque já tive a idade deles - que esses jovens me questionam sobre o amor no seu formato arrebatador com finais felizes ou trágicos, sobre cálidos ou tórridos abraços, deceções, descobertas e traições, sobre caminhantes que se cruzam na vida, etc., etc., etc. Sim, desses momentos nunca falei e acho que nunca vou falar, apenas porque cada um de nós já os imaginou e ainda está a aguardá-los, já os sentiu ou viveu em todas as nuances de emoção e tudo o que eu possa dizer nunca teria as verdadeiras cores dos momentos compostos pelo próprio leitor. Possivelmente eu roubaria a lembrança, a expetativa ou a ternura a alguém e prefiro não alinhar nesse tipo de manobra.

Essa podia ser a única justificação para não enfrentar o tema de caras. No entanto, confesso que falar em amor na perspetiva dos jovens estudantes é difícil até porque, mesmo enquanto narradora, parece que as falas furam e fogem do papel, subjugam regras e intenções e estabelecem compromissos que soam como uma declaração de intenções que amarram o escritor e isso não me conforta.

Tudo porque escrever sobre o amor é difícil. Não pelas lembranças que as palavras provocam, pelas frustrações que recordam, pelo vazio a que nos podem remeter; não porque faltem verbos ou verdade e outras coisas, não. Nada disso.

Escrever sobre o amor é tão ou mais difícil do que vivê-lo, porque ao escritor faltam redes que o aparem numa desilusão criativa, faltam os suportes físicos e emocionais que ditem a respiração da frase, o brilho de uma tarde na folha esguia ou a subtileza necessária para que o jogo prossiga.

Mais fácil para quem escreve é, olhando para o amor, falar da falta dele, do abandono, das rivalidades, das escolhas, do crime. Mais fácil, porque como palavras e tinta usamos os gritos e o sangue das nossas, sim, minhas, tuas, mulheres espancadas, maltratadas, assassinadas pelos namorados ou companheiros ou ainda familiares e desconhecidos. Mais fácil porque as situações se avolumam e tornam-se mais frequentes.

Mais fácil para nós é escrever sobre o dia a dia da nossa sociedade espartilhada nas desigualdades e injustiças. Mais fácil para nós é denunciar, juntamente com centenas de outras vozes, a existência de vidas incompletas e sacrificadas de nossas meninas e mulheres cujos direitos vão ficando pelo caminho, às vezes à porta de uma escola, de um trabalho, de um teatro, da casa.

Para esses temas – que neste texto eu chamei de amores tortos – as enciclopédias e os volumosos códigos de todas as especialidades que orientam os comportamentos da sociedade têm enumeráveis palavras, arrebatadoras frases que prendem o leitor, sinónimos para cada gosto e esperança para cada momento ou gesto.

É mais fácil escrever sobre essas histórias que cada um dos leitores ouviu, tanto faz ontem como no mês passado. Elas andam por aí à solta e basta passarmos junto às urgências dos hospitais da cidade ou perto de uma esquadra da polícia, numa esquina ou em qualquer poiso para “lermos” histórias acabadas de escrever ou ouvir os sinais de que o amor, ou melhor, a sua falta por aí passou.

Sim, escrever sobre o amor é difícil, mas também o é falar sobre ele.

Hoje, nesta crónica, quando a situação sanitária do país e do mundo e o jornal implicitamente me obrigam a mais uma vez falar da Covid-19 repito, em reforço, as recomendações dos Serviços de Saúde sobre o uso da máscara, a desinfeção das mãos e o distanciamento social. Fazer isso é uma forma de amar. Sem truques. Haverá maior prova de amor do que proteger a Vida?

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 999 de 20 de Janeiro de 2021. 

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Autoria:Dina Salústio,25 jan 2021 8:45

Editado porAndre Amaral  em  25 jan 2021 8:45

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