De Ancara vê-se Santo Antão

PorJoão Chantre,1 mar 2021 8:06

As janelas da minha casa em Povoçon, agora Cidade da Ribeira Grande, atrás do Pelourinho, são vedadas pela vista de frente pelo gigantesco e imortal pé de borracha, uma árvore centenária que nunca parou de crescer.

Uma vez até por decisão administrativa, um senhor tentou decapitá-la, mas a árvore berrava tanto que não houve outra forma de combatê-la se não libertá-la. A árvore já funcionou como uma autêntica plateia de cinema, ou mesmo um autêntico geral. Nos dias de projecção de filmes no Quintalona era uma corrida ao geral e quando a polícia se aproximava, havia um desabar de pessoas entre os ramos, coisa jamais vista e imaginável em qualquer ponto do arquipélago. Naquele tempo, o Quintalona era o nosso cinema, uma arena construída com trabalho voluntário. Também era usado como recinto desportivo, sala de tudo o que era espetáculos, sala de grandes bailes quando havia grandes grupos musicais que tocavam música ao vivo com alma e paixão. E as pessoas dançavam entusiasticamente. Acredito que muita rapaziada lá se encontraram, por lá namoraram e gerou-se muitos noivados e casamentos. Também presumo que muitos corações ficaram despedaçados silenciosamente. Sem falar dos rebentos que são fruto dessa cooperação horizontal.

Contudo, a vista da frente é uma vista incomensurável e infinita, onde com olhares de criança via-se o mar, a linha do horizonte que sempre confundi com o fim do mundo e a curiosidade de descortinar esse oceano de mistério. Sempre jurei que um dia teria que desafiar esse mistério, correr em cima dele, chegar até o fim do mundo, pisar o chão do fim do mundo, abraçar as suas gentes e descobrir os mistérios do fim do mundo…promessa é dívida! Assim diz o ditado popular.

E assim comecei o caminho…1982! Era eu menino. Primeiros jogos escolares de cabo-verde na Praia. Fomos todos transportados em aviões militares e a maioria da malta instalou-se no Parque 5 de Julho em tendas. Era só gozo…transportados nos pássaros gigantes que passam pelo arquipélago e têm sempre a tendência em desaparecer milagrosamente nas ilhas e hibernarem-se em outras paragens! Foi sempre assim e assim será…

O caminho

Na Universidade onde estudamos, peço desculpas mas gosto de chamá-lo pelo seu nome de baptismo, Fernando Pessoa que me perdoe: University of Macau! Inicialmente era University of East Asian. Depois foi rebaptizada. Quando lá chegamos eramos os pioneiros, tínhamos começado uma nova aventura que não tínhamos a certeza no que iria dar. Nesse dia pisamos bem rijo o planeta. Descolamos da ilha das salinas, voamos até as terras lusas onde dormimos uma noite, passamos 24 horas em Frankfurt quando de repente perdemos a ligação para Hong Kong, voamos até Hong Kong e um dia chegamos à cidade do Santo nome Deus de Macau. Nesse dia deu-me vontade de continuar a voar, chegar até Narita, mudar de pássaro, descolar em direção à Houston e continuar até DC. Fi-lo em 92. Foram 7 anos! Quem viveu em Macau nunca pára de viajar, as viagens fazem parte da cultura exótica do território. Vira cultura, um estilo de vida, uma riqueza cultural e histórica. Um dia fartei-me de rir de um amigo que depois de ver-me numa fotografia algures no planeta, começou a ladrar que era esbanjamento público…enganou-se! É vício de viajar, viajamos para estudar história, cultura, culinária e estar com os povos do mundo…Que sorte! Que riqueza! Quem viaja sabe que não existe nenhuma outra formação mais bem qualificada que viajar. Portugal mudou quando apostou no Erasmo. Esse amigo tinha falhado! E tem falhado. Mas no fundo é bom rapaz. E também gosta muito de viajar, mas viajar tem os seus custos. Que Deus o abençoe lá onde estiver.

A nossa terapia

Não falha, às 20:30, quando as nuvens desaparecem e a cidade fica completamente iluminada, sentamos em frente da grande janela para apreciar a cidade. Que cidade! Tem uma vista magnífica. Consigo alcançá-la a 180º graus. Ela é maravilhosa, brilha e tem muito charme. Do lado esquerdo, a emblemática torre Atakule, uma magnífica obra de arquitectura com a sua rotação a 360º. Mais em baixo a torre do Hotel Sharaton uma réplica de uma garrafa de vinho eternizando as videiras que deram origem à cidade capital. Como a rotação leva tempo, mais ao fundo e um pouco desviado para a direita conseguimos ver o imponente palácio Anitkabir em memória ao pai da Nação turca, Kemal Atatürk. E um pouco mais em frente, a imponente mesquita Kotapete de quatro torres completamente vestida de luz. Mais a direita, e um pouco mais ao fundo, a gigantesca bandeira vermelha da meia-lua e a cruz branca. Eis o postal ideal â noite, a nossa terapia. De dia o cenário repete-se, mas a fotografia introduz um elemento muito importante e tinha que ser. De Ancara também vê-se Santo Antão. Quando o tempo está claro sentamo-nos para apreciar as montanhas lá no fundo carregadas de simbolismo. E evocamos com legitimidade o direito ao património imaterial de todos os cabo-verdianos, que tantas vezes foi lavrado como versos na poesia e musicado por grandes intérpretes da nossa música. Contudo, a noite é uma coisa e não se vê Santo Antão, e de dia é outra coisa e pode-se ver a Ilha das Montanhas. Logo, Ancara não pode ser confundido com Istambul!

Ora, a beleza de uma cidade respira-se através da sua arquitectura, da sua história, da sua cultura, da sua culinária e das suas gentes. Ela, de facto, tem esses valores. Uma cidade magnífica, acolhedora, de gente trabalhadora, de excelentes vendedores e de bem servir. A digitalização invadiu a cidade e o país, e esta a um click das nossas mãos. Quem não produz, quem não cria, não vende, não poupa, não prospera. Não basta as chuvas torrenciais de verbalização que tem inundado as nossas ilhas. Tanto assim é que a maior parte da carga de água acaba por dirigir-se em direção ao oceano. Esta crónica é vossa, sirvam-se dela, uma crónica das ilhas, longe das ilhas. It´s time… 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1004 de 24 de Fevereiro de 2021.

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Autoria:João Chantre,1 mar 2021 8:06

Editado porAndre Amaral  em  1 mar 2021 8:06

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