Uma crise com rosto de mulher

PorAntónio Guterres,8 mar 2021 9:05

Enquanto o mundo marca o Dia Internacional da Mulher em meio a uma pandemia global, um facto absoluto é claro: a crise da COVID-19 tem o rosto de uma mulher.

A pandemia está a piorar as já profundas desigualdades enfrentadas por mulheres e meninas, apagando anos de progresso rumo à igualdade de género.

As mulheres têm maior probabilidade de trabalhar nos setores mais afetados pela pandemia. A maior parte dos trabalhadores essenciais na linha de frente é formada por mulheres – muitas de grupos étnicos e raciais marginalizados e no fim da escala econômica.

As mulheres são 24% mais vulneráveis a perderem os seus trabalhos e a sofrer grandes perdas de rendimento. A lacuna de género nos rendimentos, já alta, ampliou-se, incluindo no setor de saúde.

O cuidado não pago aumentou dramaticamente devido às orientações de permanecer em casa e ao encerramento das escolas e creches. Milhões de meninas podem nunca mais retornar a uma sala de aulas. Mães – especialmente as mães solteiras – têm enfrentado adversidades severas e ansiedade.

A pandemia também provocou uma epidemia paralela de violência contra as mulheres em todo o mundo, com escalada de abuso doméstico, tráfico, exploração sexual e casamento infantil.

Enquanto isso, embora as mulheres representem a maioria dos trabalhadores no sector da saúde, um estudo recente revelou que apenas 3,5% das forças de trabalho na luta contra a COVID-19 têm igual número de homens e mulheres. Na cobertura dos noticiários globais da pandemia, apenas um em cada cinco fontes de especialistas são mulheres.

Toda esta exclusão é, em si, uma emergência. O mundo precisa de um novo esforço para avançar na liderança das mulheres e na participação igualitária. E está claro que tal ação irá beneficiar a todos.

A resposta à COVID-19 tem destacado o poder e a eficácia da liderança feminina. No ano passado, países com mulheres líderes tiveram as menores taxas de transmissão e estão, com frequência, em melhor posição para a recuperação. As organizações de mulheres ocuparam espaços cruciais para ofertar serviços críticos e informação, especialmente a nível comunitário.

Globalmente, quando as mulheres lideram o governo, vemos maiores investimentos em proteção social e maiores incursões contra a pobreza. Quando as mulheres estão no parlamento, países adotam políticas mais rigorosas contra as mudanças climáticas. Quando as mulheres estão nas mesas de negociação de paz, os acordos são mais duradouros.

Ainda assim, as mulheres são apenas um quarto dos legisladores nacionais em todo o mundo, um terço dos membros de governo locais e apenas um quinto dos ministros. Na trajetória atual, a paridade de género não será alcançada em legislaturas nacionais antes de 2063. A paridade entre chefes de governo levaria bem mais do que um século.

Um futuro melhor depende de enfrentar este desequilíbrio de poder. As mulheres têm igual direito de falar com autoridade sobre as decisões que afetam suas vidas. Tenho orgulho de ter alcançado a igualdade de género entre as lideranças das Nações Unidas.

A recuperação da pandemia é nossa chance de traçar um novo e igualitário caminho. Apoio a pacotes de estímulo devem beneficiar especificamente mulheres e meninas, incluindo através do aumento do investimento na infraestrutura de cuidado. A economia formal só funciona porque é subsidiada pelo trabalho não remunerado das mulheres como cuidadoras.

Enquanto nos recuperamos desta crise, devemos traçar um caminho para um futuro inclusivo, verde e resiliente. Convoco todos os líderes para colocar em prática seis alicerces fundamentais:

Primeiro, garantir igual representatividade – de diretorias de empresas a parlamentos, de educação superior a instituições públicas – através de medidas especiais e quotas.

Segundo investir significativamente na economia do cuidado e proteção social e redefinir o Produto Interno Bruto (PIB) para fazer o trabalho doméstico visível e contabilizado.

Terceiro, remover as barreiras para inclusão total das mulheres na economia, incluindo através do acesso ao mercado de trabalho, direitos de propriedade e investimentos e crédito específicos.

Quarto, revogar todas as leis discriminatórias em todas as esferas – de direitos trabalhistas e de propriedade até de status pessoal e proteções contra a violência.

Quinto, cada país deveria adotar um plano de resposta de emergência que enfrente a violência contra mulheres e meninas e seguir com financiamento, políticas e vontade política para acabar com este flagelo.

Sexto, mudar mentalidades, provocar consciência pública e chamar atenção para o preconceito sistêmico.

O mundo tem a oportunidade de deixar para trás gerações de discriminação sistêmica e enraizada. É tempo de construir um futuro igualitário.

(*) António Guterres é secretário-geral da ONU

O autor escreve segundo o AO de 1990

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Autoria:António Guterres,8 mar 2021 9:05

Editado porSara Almeida  em  12 abr 2021 23:21

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