Humildade, virtude na liderança

PorEurídice Monteiro,15 mar 2021 7:10

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Há gente humilde com hombridade. Há gente humilde com integridade. Há gente humilde com a paz de espírito necessária para a liderança. Um líder humilde e autêntico congrega, acolhe e lidera com eficácia. É esse o tipo de líder que vai longe, porque não está só.

Ser humilde não significa ser fraco, nem pôr-se na pele daquele arquétipo de coitadinho. Ser humilde não significa ser inferior em relação a ninguém, nem aceitar a condição de subalternidade ou sujeitar-se aos que pretensamente estão por cima. Há gente humilde com hombridade. Há gente humilde com integridade. Há gente humilde com a paz de espírito necessária para a liderança. Um líder humilde e autêntico congrega, acolhe e lidera com eficácia. É esse o tipo de líder que vai longe, porque não está só.

Há gente sonsa, que finge ser muito humilde usando, ao extremo, o estilo de um coitadinho que nem sabe espantar uma mosca. Gente sonsa se faz de inocente, esconde as suas intenções e dissimula permanentemente com vista a alcançar um objectivo prático. Trata-se de uma das espécies de pessoa fingida, dissimulada e manhosa. Já dizia João Vário que «não se pode ser manhento e culto ao mesmo tempo, salvo o diabo por deformação profissional.» A manha é um estratagema recorrente, mas não de uso exclusivo por parte de gente sonsa. Há também gente irremediavelmente arrogante que usa o aconchegante disfarce da falsa modéstia, chegando a dissimular até alguma timidez. E há ainda gente hipócrita.

Gente humilde sabe e gosta de escutar. Gente humilde tem o cuidado de escutar muito mais do que falar. Gente humilde cultiva naturalmente a capacidade de escutar. Gente humilde, ao escutar o outro, reconhece o ponto de vista do outro e fá-lo sentir que o seu ponto de vista é válido e é tomado muito a sério. Gente humilde quer ouvir sempre, mas não com aquela arrogância congénita de se pôr por cima de todos e, então, fingir-se detentora de alguma humildade e generosidade para enfim abrir uma brecha, uma espécie de concessão, aos que estrategicamente podem ser ouvidos e ao que precisa de ouvir. Gente humilde não ouve apenas o que deseja ouvir. Gente humilde não ouve apenas para consagrar a sua própria opinião com vista a um fim prático do seu interesse. Gente humilde, quando ouve os que consulta, não influencia a resposta para o lado que melhor lhe convém. Gente humilde não finge escutar.

Gente humilde não rebaixa nem desvalida a opinião contrária. Gente humilde não deita abaixo os que pensam de modo diferente. Gente humilde coloca-se acima das lutas mesquinhas, das intrigas e das trapaças. Para gente humilde, há sempre uma luz no fundo do túnel.

A humildade é uma virtude essencial. A humildade não é o sinal de fraqueza. Pelo contrário, a humildade é o sinal de confiança. Autoconfiança. Gente humilde não padece de falta de confiança e de falta de amor-próprio. Gente humilde possui amor-próprio e é suficientemente confiante para não sentir a necessidade de se gabar e, nesta senda, de menosprezar as pessoas que o rodeiam. Gente humilde não se vangloria das suas vitórias, dos seus méritos ou das suas habilidades. Mesmo quando em posição de liderança, gente humilde não exige deferência, muito menos a obediência inquestionável.

Por falar nisso, lembro-me da ironia mordaz que Eça usa para captar a vida social e os seus contratempos. Gosto de ler Eça de Queiroz. Como ler ainda não é pecado mesmo em tempo quaresmal e mesmo quanto a autores que suscitam interpretações díspares, posso adiantar que um dos livros do Eça que me dá gozo é A Cidade e as Serras. Deixo cá um trecho para meditação quaresmal:

«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.

No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua Quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº.202.

Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o “D. Galião”, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente dum muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto - até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:

– Ó Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?

E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. Miguel!

Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do “seu Salvador”, enfeitado de palmitos como um retábulo e, pôr baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.»

Na mesma linha do trecho supracitado há muitos outros onde Eça ilustra o modo como a arrogância, a altivez, a soberba, o orgulho, a sobranceria e a prepotência deitam tudo por terra.

Um bom líder tem que ser humilde, sem ser sonso. Gente humilde cultiva a clama. Contudo, manter-se calmo não significa ser covarde. Da mesma forma que ser confiante não significa ser grosseiro.

Em síntese, a humildade é uma virtude essencial.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1006 de 10 de Março de 2021. 

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Autoria:Eurídice Monteiro,15 mar 2021 7:10

Editado porAndre Amaral  em  17 mar 2021 5:00

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