Cabo Verde na rota da Globalização

PorEdson Brito,28 jul 2021 14:33

Historiador
Historiador

A expansão europeia iniciada no século XV, inaugurou uma nova fase de globalização com base na navegação interoceânica. Cabo Verde nasceu sob o signo desta globalização, desempenhando, doravante, um papel neste processo, por vezes como um player ativo outras nem tanto.

Com efeito, o arquipélago ficou tacitamente ligado ao primeiro tratado que dividiu o mundo em duas partes, acordo este celebrado em 1494, entre Castela e Portugal com o beneplácito da Santa Sé. O Tratado de Tordesilhas estipulava uma linha imaginária que passaria a 370 léguas a Oeste de Santo Antão, o que garantiu para Portugal o domínio sobre as terras de Vera Cruz.

Assim, propomos um olhar sobre Cabo Verde, de acordo como os motores da globalização defendidos pelo Professor Jeffrey Sachs, formulando algumas questões implícitas quais sejam: A implosão do sistema-mundo decorrente dos avanços das navegações europeias nos finais do século XV e inícios de XVI, não seria retardada sem este outpost no atlântico? Os mesmos avanços seriam possíveis, em função da Revolução Industrial, com os navios a vapor ou com a inauguração da aviação? Quais os contributos que Cabo Verde ou os cabo-verdianos deram na inovação e difusão de ideias, ciência, cultura, comércio, política entre outros? Com estes quesitos orientadores pretendemos elencar múltiplas respostas, enfatizando o papel das nossas ilhas, muitas vezes ignorado, no processo da globalização.

A localização geoestratégica de Cabo Verde tem sido um diferencial desde da sua génese até aos nossos dias. Aliás, um país de parcos recursos, somente despoletou interesse aos portugueses pela sua localização, relativamente próxima da Costa Africana – que acelerava o saque e resgate de escravos – no entanto, suficientemente afastada para livrarem-se dos motins ou ataques das tribos africanas e, por outro, armazenar/aprisionar, eficazmente, os escravos que não tinham muito por onde fugir. Deste modo, foi em Cabo Verde que Portugal estabeleceu a sua hegemonia no Golfo da Guiné, em detrimento de uma tentativa de conquista que estaria sempre condenada ao insucesso.

Por outro lado, a sua localização constituía um posto avançado de apoio às embarcações. Com efeito, pelos nossos ancoradouros passaram distintas figuras nas suas sendas aventureiras, entre elas Vasco da Gama ou Pedro Alvares Cabral com destinos à India e ao Brasil, respetivamente, ou o próprio Cristóvão Colombo na sua terceira viagem para as Caraíbas. Assim, a florescente Ribeira Grande acolhia embarcações de todas as nacionalidades, para reparações, quando estes eram fustigados pela fúria do vento ou, simplesmente, para se abastecerem de água e/ou alimentos frescos.

Nos meados do século XIX, é a vez do Mindelo centralizar, no Porto Grande, as movimentações marítimas no Atlântico. Os navios que se dirigiam para os oceanos índico, pacifico ou atlântico sul, eram obrigados a seguirem pela rota de Cabo Verde, quanto mais não seja que a alternativa só apareceria, posteriormente, com a abertura do canal de Suez. O intenso tráfego marítimo, que nos períodos áureos chegou a registar uma média anual de 1800 embarcações, devia-se sobretudo às demandas dos vapores para o reabastecimento do carvão e para o acesso aos serviços do telégrafo.

Não menos importante, embora de pouca duração, foi a hidrobase instalada na baia da Calheta de São Martinho, na ilha de Santiago, aquando das primeiras experiências com voos de longo alcance. Começou a ser construída em 1927, pela Companhia Geral da Aeropostal, antecessora da Air France, e foi concluída em fevereiro do ano seguinte. Durante a sua vigência funcionou como derradeiro destino dos correios enviados da Europa e África e, reencaminhados depois de barco para América do Sul. Mesmo após a sua desativação continuou a ser um «farol» que guiava aviões fruto de uma estação de rádio de grande potência, que aí foi instalada. Ainda no campo da navegação aérea não podemos negligenciar a função desempenhada pela ilha do Sal, nos meados do século XX, com a instalação da primeira FIR Oceânica do Sal (Região de Informação de Voo) relativas às rotas dos tráfegos aéreos que se desenrolavam no atlântico.

Mas voltemos à Ribeira Grande e aos privilégios régios dos seus moradores aos quais eram assegurados benefícios significativos que lhes permitiam resgatar escravos no continente africano fronteiro. No seu auge, durante o século XVI, tornou-se no mais importante hub esclavagista internacional, adquirindo e armazenando mão-de-obra escrava, não para o trabalho nas ilhas, mas, sobretudo, para posterior reexportação para as Américas.

Os dados relativos ao tráfico de escravos são escassos, no entanto, os que existem dão uma ideia do ocorrido. No período de três anos 1513-15, 29 barcos trouxeram 2.966 escravos para Santiago. Foi sensivelmente por esta altura que os primeiros escravos foram enviados para o Brasil, contudo, a maioria seria destinado as Américas espanholas, o mais lucrativo mercado do comércio triangular. Philip D. Curtin calcula que entre 1526 a 1550 cerca de 80% dos escravos que chegaram ao Novo Mundo seriam oriundos das ilhas da Guiné – entende-se Cabo Verde. Entre 1609-10 documentos de embarque da Ribeira Grande indicam que 8 barcos partiram de Santiago transportando cerca 4.439 peças (escravos) uns com destino as Índias Ocidentais, outros para as Canárias.

A tendência de reexportação de escravos tende a diminuir à medida que Ribeira Grande vai perdendo a centralidade oceânica, durante o século XVII. Contudo, a sociedade que se forjou, decorrentes do cruzamento cultural e racial entre o europeu e o africano, aliada à grande movimentação demográfica contribuíram, decisivamente, para influenciar a língua, religião, música culinária, farmacopeia e técnicas artesanais e agrárias de outros povos. A exemplo disso, o papiamento utilizado no Caribe Neerlandês que se assemelha ao crioulo de Santiago.

As experiências realizadas na fauna e na flora permitirão permutas em grande escala. O gado grosso (bovino e equestre) e o miúdo (caprino e ovino) passarão a ser conhecidos por todo o continente americano enquanto a batata-doce, mandioca, cacau, tabaco, e o milho deixarão de ser exclusividade destes últimos e, em sentido inverso, a cana sacarina e o café serão introduzidos no Novo Mundo. De Cabo Verde foram levados segundo Gabriel Soares de Sousa no seu Tratado descritivo do Brasil, de 1587, o inhame. A fábula da primeira vaca no Brasil pode não ser só um exercício de mera abstração. Se se tivermos em conta o encurtamento de espaço, Cabo Verde encontra-se melhor posicionado em relação aos demais arquipélagos atlânticos, para que os animais chegassem aos seus destinos em condições menos desfavoráveis. Ressalva-se, porém, que este papel de laboratório, não foi caso exclusivo de Cabo Verde sendo, também, experiências levadas a cabo nos arquipélagos da Madeira e Açores.

Aliás este papel de laboratório não se esgota no campo da biologia, mas estende-se também às instituições políticas. O sistema de capitanias instalados no Brasil foi diretamente importado dos arquipélagos do atlântico. Concomitantemente, o arquipélago não só influenciou as matrizes políticas do Novo Mundo, como também contribui para uma nova reorganização do xadrez político na África Ocidental. A criação de cavalos nestas ilhas, utilizados como moeda de troca no resgate de escravos, possibilitou que os povos da Guiné e da Senegâmbia ganhassem, na cavalaria, uma força militar eficaz para contestar a hegemonia do Império do Mali. Quando os portugueses chegaram nesta região, o império já estava em decadência, mas a constante drenagem de escravos em troca de cavalos e o aparecimento das caravelas em detrimento das caravanas veio acelerar este processo de enfraquecimento do Mali e a transferência do poder para os Songhay.

Cabo Verde funcionou, igualmente, como um polo de difusão do cristianismo tanto no continente africano como no americano. A missionação da Costa africana partiu, em grande medida, das bases dos jesuítas e dos franciscanos existentes em Cabo Verde, e não menos importante, a sede do bispado na Ribeira Grande de Santiago, criado em 1533, tinha uma alçada que ia até ao Benim ou Serra Leoa.

O processo de ladinização, que incluía o batismo do escravo, teve um enorme impacto nos novos países por onde eles eram enviados. Atualmente a virgem de Lujan, padroeira da Argentina, só tem aquela dimensão graças à fé de um escravo saído da Cidade Velha no século XVII, conhecido como el Negro Manel devoto e guardião da santa a quem foi atribuída um serie de milagres. Diligências tem sido levada a cabo pelo Papa Francisco, tendo como finalidade a canonização deste escravo. Com efeito, a comunidade católica existente atualmente ao longo da Costa Ocidental Africana e no universo Latino-americano muito se deve a ação de agentes religiosos, com epicentro em Cabo Verde.

Ainda no campo da religião não podemos deixar de referir ao bravense Marcelino Manuel da Graça, nascido em 1881, que seguindo as peugadas dos seus conterrâneos emigrou para os EUA. Daddy Grace como ficou conhecido, fundou uma religião, ou pelo menos uma seita, «United house of prayer for all people», que conta, atualmente, com cerca de 50.000 membros. A ufania produzida pelas centenas de instrumentos de sopro nas suas liturgias, teve eco na história da música norte-americana, e concretamente, no jazz.

Modelos de bases científicas, que atualmente temos como adquiridos, emergiram em Cabo Verde. Exemplos disso são os casos de Charles Darwin que ao estudar as conchas fossilizadas na ilha de Santiago começou a despertar para o que mais adiante seria o postulado das ideias evolucionista. Ou, ainda, o périplo pelo mundo realizado pela frota de Fernão Magalhães que no seu regresso passaram por Ribeira Grande tendo os marinheiros reparado que ganharam um dia por se deslocarem sempre para o Oeste e haverem retornado ao mesmo lugar. Daí ter emergido a necessidade de fazer uma correção para compensar a navegação ao redor do mundo, criando-se, por mútuo acordo, a Linha Internacional de Data, que se estende a partir da ilha de Guam, no Oceano Pacífico.

Se nos casos acima mencionados o país esteve indiretamente ligado aos avanços científicos o mesmo não sucede com o notável químico Roberto Duarte Silva nascido em Santo Antão, em 1837. Da vasta obra do Professor de uma das mais prestigiadas escolas de Paris «École de Physique et Chemie» e Presidente da Sociedade de Química de Paris, destacam-se os trabalhos inovadores realizados com amina e propanol. As aminas são usadas na produção de medicamentos, na industria alimentar, na produção de lubrificantes, na vulcanização da borracha e em alguns produtos cosméticos. Enquanto que o propanol é empregue em perfumes, soluções de corantes, anticongelantes, produtos de limpeza entre outros. Juntamente com o etanol é usado como fonte de combustível diminuindo assim os impactos ambientais provocados pelos derivados do petróleo.

Não obstante, a pequenez e os fracos recursos que apresentam, a afirmação destas ilhas, no processo conducente à globalização, tanto no passado como no presente, é prova insofismável. Com efeito, revelamos um espaço insular que marcou pela positiva o conhecimento científico do espaço atlântico, e manteve-se como um suporte relevante à navegação geradas pelas redes de circulação transatlântica sendo entreposto e escala. A própria identidade cultural cabo-verdiana não está alheia a este fenómeno tendo sido forjada em espaços geográficos distantes. Contudo, considerando que a estrada das influências cultural é de dois sentidos, Cabo Verde tanto recebeu como emprestou múltiplas manifestações aos quais se encontram resquícios espalhados um pouco por toda a «banheira cultural» que é o atlântico.

A despeito, dos argumentos que relativizam a mais-valia que é localização de Cabo Verde, atribuindo-a alguma intermitência, ao longo do nosso devir histórico, não devemos, contudo, negligenciar esta potencialidade. Afinal qualquer aspeto estruturante perfila-se, simultaneamente, quer como sustentáculo quer como obstáculo. Nesta senda, os próximos desafios passam por capitalizar esforços para que as nossas ilhas continuem a desempenhar o papel de pontes ou trampolins, para outros rumos e paredeiros, aproveitando a sua potencialidade máxima – a sua posição geoestratégica. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1025 de 21 de Julho de 2021.

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Autoria:Edson Brito,28 jul 2021 14:33

Editado porSara Almeida  em  28 jul 2021 14:33

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