Ah Batuco! GÉNERO MUSICAL - UNIÃO DA ALMA CRIOULA!

PorJosé Manuel Soares Tavares,1 ago 2021 11:46

Em princípio, tudo parecia a desmoronar com a pandemia de Covid-19. Ainda bem que se fez uma jornada de retiro para o batuco. Como disse o poeta, alma é força do batuco. Podemos claramente distinguir as causas e os efeitos da proclamação do dia 31 de Julho como Dia Nacional do Batuco, já antes declarado património nacional.

De entre as previsões modificadas pelo surto da pandemia, a grande parte das iniciativas principais na luta contra a pandemia foram da Assembleia Nacional, traduzida em ações de resposta à crise. Na verdade, com esta ação, o parlamento cabo-verdiano, instou o Governo a tomar iniciativas neste sentido. Aliás, o trabalho dos parlamentares mereceu a nota positiva. No entanto, urge destacar uma particularidade.

Na verdade, o protagonismo do parlamento durante a crise também, deve ser creditado também à sociedade civil, traduzida numa iniciativa parlamentar com a minha coautoria: estamos a falar do Projeto de Lei que institui o dia Nacional do Batuco.

Com efeito, em conversa com um amigo santiaguense sobre tal projeto este recitou: ah batuco! O batuco é uma poesia lírica, capaz de acalmar o vento, o ascendo do mar e até o pulsar político do parlamento”.

Não hesitei em concordar com o ilustre santiaguense. Na verdade, evidentes foram os discursos produzidos ao longo da discussão do projeto, o que provavelmente, terá gerado uma interferência nos seguidores das forças políticas representadas, pois, estes mergulhados na sublime magia do batuco, esqueceram as rivalidades políticas, o antagonismo e curvaram ante esta poderosa obra-prima da tradição crioula, outrora hostilizada, e apelidada como música de cafres e pecaminosa.

Ah Batuco!

Proibido noutros tempos, na sua versão expressão musical-coreográfica, pelo governador colonial, Joaquim Salema de Saldanha, a 13 de setembro de 1772, por ser considerado “nocivos aos bons costumes”, virou património cultural nacional.

Assim, o efeito dionisíaco apoderou-se da casa das leis onde o discurso tocante, comovente e enternecedor dos protagonistas em honra ao homenageado, amanhou a sensibilidade dos presentes, de entre eles, as curiosas batucadeiras.

Ah Batuco! Nha flan kusê ki batuco?

Batuco é música, batuco é dança, batuco é literatura oral, batuco é tradição de Cabo Verde. Batuco é uma homenagem a resistência. Batuco é resiliência, alma é força do batuco.

Estas e outras afirmações de exaltação para enaltecer o batuco, influenciaram efetivamente a disposição dos atores políticos, e o convívio parlamentar, desvanecendo em esgrima praticada com palavras de elogios, congratulações, e aplausos dos intervenientes. Pois, o momento da discussão da iniciativa e a aprovação da mesma, serviu para acalmar os ânimos entre diferentes atores, o que fazia falta, pacificou e preparou a sociedade para um clima de paz e sentido de pertença e criou condições para um bom ambiente social e político.

E assim foi, nos dias seguintes, mas antes, as batucadeiras tiveram a oportunidade de demonstrar as suas capacidades antes de deixar o parlamento, deixando o encanto no ar no interior do palácio.

Ah Batuco!

Batuco de Nha Guida Mendi, de Nha Bibinha Cabral, de Nha Nácia Gomi, assimilado com mais força depois dos anos noventa, com a abertura democrática torna um gênero musical sonho do mundo crioulo e com direito a participar em grandes eventos nacionais e internacionais.

Desta forma, a fúria patriótica dos populistas e oportunistas que fazia eco nos jornais da praça e outros meios de imprensa, no intuito de ganhar dividendos de vária ordem, face à pandemia provocada pela Covid-19, também foi contida pelo enigma do batuco.

O poder mágico do batuco brilhou nos céus de Cabo Verde, trouxe tranquilidade, paz e uma sensação de justiça. Elevou a nossa frequência de forma profícua. Se o mal está em nós, o batuco nos leva mais além.

Ah batuco! Batuco é um mistério. Batuco é coisa do Orfeu.

Batuco - UNIÃO DA ALMA CRIOULA!

José Manuel Soares Tavares

Tarrafal, aos 29 de Julho de 2021.

▪ Poema dedicado no âmbito da Comemoração e contextualização do DIA NACIONAL DO BATUCO – 31 DE JULHO.

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Autoria:José Manuel Soares Tavares,1 ago 2021 11:46

Editado porAntónio Monteiro  em  2 ago 2021 8:06

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