Os Jogos Atípicos de Tokyo 2020

PorJosé Gonçalves,9 ago 2021 8:18

Antigo Ministro no Governo da IX Legislatura de Cabo Verde. Foi o segundo Chefe de Departamento mais jovem e Vice-Presidente Associado do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984.
Antigo Ministro no Governo da IX Legislatura de Cabo Verde. Foi o segundo Chefe de Departamento mais jovem e Vice-Presidente Associado do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984.

No dia 23 de julho de 2021, pelas 20:00 horas locais de Tokyo, Japão (10:00 h de Cabo Verde), eclodiu a Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos da XXXIIª Olimpíada, apesar das reticências e incertezas que têm ensombrado este evento durante os últimos dois anos em período de plena pandemia.

Até as últimas semanas, pairavam dúvidas se esse dia chegaria mesmo. A verdade é que cerca de 80% da população do Japão é contra a realização dos Jogos nesta quadra de pandemia. Diariamente, não faltam inúmeros protestos contra a sua realização. Em abono da verdade, estes Jogos Olímpicos são sui generis e para usar uma palavra muito em voga essesdias “Atípicos”. Embora no passado, três Jogos Olímpicos foram cancelados (1916, 1940 e 1944) por causa das duas Grande Guerras, esta é a primeira vez da Era Olímpica Moderna, desde 1896, que os Jogos Olímpicos são adiados por um ano e são os primeiros Jogos a serem celebrados sem espetadores! Mas graças aos avanços da tecnologia de informação e comunicação, os Jogos Olímpicos de Tokyo avançam a bom ritmo e já estão a dar os seus frutos que é a celebração do desporto amador no quadro do ideal olímpico cujo lema centenar é Citius, Altius, Fortius!

Na noite do dia 23 de Julho, um contingente de 206 nações desfilaram orgulhosamente no Estádio Olímpico durante a Cerimónia de Abertura, bandeira nacional empunhada por um atleta masculino e outra feminina, incluindo Cabo Verde, com o seu maior número de atletas de sempre - 6. Apesar das vicissitudes, espera-se que esses Jogos, com o terceiro maior números de atletas de sempre, cera de 11.500, número esse só ultrapassado pelos Jogos Olímpicos de Londres em 2012 e Rio de Janeiro em 2016, com 14.957 e 13.692 atletas, respetivamente. Infelizmente, para pesar dos organizadores, os bilhetes de entrada cujo preço máximo rondava os 288.000 Ienes (US $2,600), só veio acumular aos prejuízos do primeiro Jogos Olímpicos sem espetadores e consequentemente sem venda de bilhetes cuja estimativa em receitas rondava os US $800-$900 milhões. De todos os modos, como as perdas financeiras já são avultadas e seria muito mais custoso ainda não realizar os Jogos da XXXIIª Olimpíada, qual é o problema gastar cerca de US $100 milhões só com fogos de artifício durante a Cerimónia de Abertura?! Assim, estes Jogos são para TV e media.

Sem dúvida, os Jogos Olímpicos de Tokyo 2020, são os Jogos de verão mais caros de que há registo. O seu orçamento é de US $15,4 mil milhões. Contudo a própria auditoria interna do governo japonês calcula que o seu real valor poderá vir a ser superior aos US $20,0 mil milhões! A título comparativo, os anteriores Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016 registaram um custo também elevado de US $13,7 mil milhões, logo atrás dos Jogos de Londres de 2012, com custos totais de quase US $15,0 mil milhões. Mas o record de Jogos Olímpicos mais caros de sempre são os Jogos de Inverno de Sochi, Rússia, 2014, cujo custo total ultrapassou os US $50,0 mil milhões, ou seja, qualquer coisa como 25 PIBs anuais de Cabo Verde em 2019! Porque as receitas em contratos televisivos e demais media, grandes patrocínios e vendas de bilhetes cobrem uma pequena parte dos custos cada vez mais astronómicos, o ónus principal de financiar os Jogos Olímpicos cabe aos governos municipais, metropolitanos e centrais de países anfitriões. O caso de Sochi foi uma exceção pois os Oligarcas russos foram “encorajados” a custear os custos desses Jogos.

Quem nunca perde com a realização dos Jogos Olímpicos é o seu patrono, o Comité Olímpico Internacional, que não assume risco algum mas é o primeiro a receber as chorudas receitas provenientes de contratos gargantuescos de direitos de divulgação televisiva e mediática bem como grandes patrocínios. Por isso mesmo, muitas cidades estão a pensar duas ou três vezes se entrar nessa aventura de realizar Jogos Olímpicos. Algumas como Boston, USA, até declinou a organização dos Jogos de 2024, alegando razões de riscos incomportáveis. Por isso, há uma crise profunda no seio do movimento olímpico internacional a questionar do porque os Jogos têm de custar tanto e como financiar os mesmos. Os Jogos de Tokyo começaram com um orçamento de US $7,4 mil milhões em 2013 que foi revisto em 2019 para US $12,6 mil milhões e agora está oficialmente projetada para mais de US $15,4 mil milhões. O certo é que tendo em conta a tendência dos custos dos Jogos mais recentes todos têm mais que duplicado o orçamento inicial. Paris 2024 projeta o seu orçamento para cerca de US $5,0 mil milhões, mas o mais provável é que custará pelo menos o dobro.

Interessantemente, a descoberta de que os Jogos Olímpicos eram uma verdadeira mina de ouro data da realização dos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984, de que o autor, teve a honra de participar na sua organização. Antes de Los Angeles, os Jogos Olímpicos eram eventos desportivos internacionais relativamente modestos que não atraiam muita atenção dos grandes financiadores. Mas quando o Comité Organizador celebrou um contrato televisivo de US $225 milhões, quase três vezes mais do que os anteriores Jogos de Moscovo de 1980 e mais de nove vezes o valor dos Jogos Olímpicos de Montreal de 1976, foi evidente que os tempos tinham mudado e que os Jogos Olímpicos passariam a ser negócio a sério. Porque os Jogos da XXIIIª Olimpíada foram os primeiros organizados Jogos por uma ONG que não podia contar com o suporte do erário público, o valor criado e a sua gestão foram exemplares. Assim, com um relativo minúsculo orçamento de apenas US $719 milhões, mesmo para a época (Munich 1972, US $1.0 mil milhões; Montreal 1976, US $6.1 mil milhões e Moscovo US $6,33 mil milhões), o superavit deixado foi de US $215 milhões! Mais do que qualquer Jogos Olímpicos antes ou depois. Este legado financeiro serviu para financiar em perpetuidade uma Fundação para a Promoção do Desporto no Sul da Califórnia, criada para apoiar sobretudo os jovens menos privilegiados da vasta região do “Estado Dourado”.

Mas voltando aos Jogos Olímpicos de Tokyo 2020/2021, para altura de publicação deste artigo, estaremos no 12º dia após a sua abertura a 23 de Julho. Apesar de tudo, os atletas zelam para atingir os seus sonhos de citius, altius fortius, tendo centenas já sido coroados com medalhas de ouro, prata ou bronze. A vasta maioria, porém, regressam a casa sem alcançar o sonho de conquistar uma medalha. Tal é o caso dos 6 atletas cabo-verdianos que não tiveram a sorte de avançar muito nas suas provas. Alguns, porém, mostram promessas de alcançar maior proezas nos Jogos de Paris 2024. Fazemos votos que então tenham a boaventura de poder subir ao pódio para honra e glória pessoal e nacional, assim como atletas de outros pequenos países insulares tal Jamaica. Porém, os grandes países têm-se destacados na coleção de medalhas. Tal é o caso dos USA, com maior número de medalhas e a China, logo a seguir, com maior número de medalhas de ouro. Ainda faltam quatro dias para se chegar ao final dos Jogos Olímpicos que será coroado pelo evento mais emblemático, a Maratona, normalmente conquistado por atletas africanos do corno da África. Se a Cerimónia de Abertura se realizou debaixo de chuvas de fogos de artifício, sob o lema “United by Emotions”, “Unidos por Emoções”, a Cerimónia de Encerramento fechará no dia 8 de agosto sob o lema, “Moving Forward”, quer dizer, “Avançando”, no sentido otimista do termo. E certamente o final será igualmente coroado sob chuvas de fogos de artifício.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1027 de 4 de Agosto de 2021.

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Autoria:José Gonçalves,9 ago 2021 8:18

Editado porSara Almeida  em  9 ago 2021 8:18

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