O apaixonante mundo da Aviação

PorJoão Chantre,13 set 2021 8:30

O sucesso de uma pequena economia como a nossa passa em parte, por criar uma cultura de gestores Internacionais/negociadores, tecnicamente bem formados, líderes fortes, que tomam decisões, criam riqueza e sobretudo pessoas sérias, dedicadas à causa e muito criativas...

Infelizmente uma outra escola de Management conseguiu impor no país, salvo as raras exceções. O processo de tomada de decisão paradoxalmente foi conectado no país como criador de anticorpos e o porreirismo bloqueou a criatividade. Agravado pelo fato de termos cultivado ao longo dos anos, uma cultura de ausência de estabelecimento de metas e a não responsabilização. Infelizmente, desbaratamos a função do gestor, e o resultado deste amadorismo transformou-se no maior problema fiscal pelo custo fiscal que ele arrasta num país onde o dinheiro não abunda. O país não chove, a agricultura e a pesca são atividades tradicionais e de subsistência, a indústria é inexpressiva e o tecido empresarial é sobretudo formado por pequenas e médias empresas (PME) muitas vezes informais. Portanto, não é por acaso que há décadas que somos um país dependente das receitas do turismo, das remessas dos emigrantes e da ajuda ao desenvolvimento, via a Cooperação Internacional. Por isso, saber gerir o dinheiro não se trata de tarefa fácil e nem sequer é algo que deve ser entregue a qualquer cidadão desatento. Ora, é muito bom sermos orgulhosos ao ritmo da música da nossa independência, mas convém não perder o horizonte e a consciência da nossa dependência. Temos que ter em conta que os desafios são do tamanho do mundo, as oportunidades estão estacionadas no horizonte e hoje, as incertezas são um dado adquirido.

A história repete-se!

A milenária sabedoria oriental, ensina-nos que a história se repete e que se aprende com os erros cometidos. Na filosofia lusófona, a história não se repete, mas os erros são sempre repetidos (refira-me os 7 da família lusófona). É doloroso recordar a TACV, uma marca em coma profunda há décadas, mas que não morre por estar ligada diretamente ao coração dos cabo-verdianos. Uma herança da era colonial, fundada em 1956. Esta é uma referência histórica muito importante. Contudo, a TACV viria a sofrer a sua primeira revolução operacional quando em 1996 foi introduzido o primeiro jato na frota da companhia. Uma recomendação do consultor de aviação, especialista Internacional e de longa experiência no mundo da aviação civil, Mr. Lal Sika, e a abertura e engajamento do seu líder e da sua equipa na altura. Foram momentos de glória e orgulho de toda uma Nação. Como ponto forte, nessa altura a empresa era dotada de um vasto leque de quadros técnicos jovens (a maioria da grande escola de aviação da Ex-URSS), altamente motivados. Engenheiros, Economistas e Pilotos que tiveram a oportunidade de acompanhar o processo de encomenda do Boing, 757-200 na origem e foram devidamente treinados e qualificados pela Boeing para assumirem a gestão operacional da aeronave. Quem não se lembra do B 757-200, o B. Leza! É bom recordar que uma carreira especializada na aviação civil requer uma formação universitária e no mínimo oito anos de dedicação, estudo e experiência na indústria. Ademais, na altura a empresa apostava fortemente nos seus quadros e havia sempre gente a seguir para formações especializadas da IATA. Ou seja, se hoje o país conta com um leque de especialistas na área da aviação espalhada pelo mundo, é graças à escola da TACV e um enorme investimento da empresa nos seus técnicos. Um investimento que requereu avultados esforços financeiros. Infelizmente todo esse capital humano foi destruído quase que premeditadamente e hoje muitos encontram-se espalhados no país e fora. Um erro estratégico incomensurável. Se houvesse melhor cuidado na defesa dos interesses nacionais, hoje Cabo Verde era uma referência no Continente Africano e um Hub de formação na área da aviação. Não faltou projetos e propostas de parceiros estratégicos de referência e credibilidade internacional. Mas interesses pessoais e egoísmo destruíram tudo. Mas este universo destruído, acarreta um elevado custo ao país que dificilmente será recuperado. O problema da TACV foi sempre e sim, um problema de Gestão e interesses outros...Havendo possibilidades, não se deveria repetir os erros do passado. De 2001 a 2015, a gestão foi caótica e de 2016 a 2021 a gestão foi desastrosa (com um pequeno período de glória onde a gestão foi assumida pelo menos por dois especialistas). A história da TACV deve ser escrita para que o tempo esclareça as dúvidas. Somos todos culpados!

Um Estado dentro de outro Estado

A TACV é sim um Estado dentro de outro estado com todo o poder político, social e financeiro capaz de destronar qualquer governo e bloquear o país. Uma companhia aérea possui aeronaves que decolam em grande velocidade, deslocam em alta velocidade e cada segundo da sua existência consome elevados recursos financeiros, quer esteja estacionado nos aeroportos ou quer esteja a voar. Consequentemente, convém relembrarmos que em 2017 foi criada a New Co onde foi armazenado todo o passivo acumulado da TACV durante décadas, aproximadamente 100 milhões de USD, cujo destino acaba sempre por ser a dívida pública do país em crescimento exponencial. Como alternativa, a venda de 51% das ações a um parceiro estratégico não foi bem-sucedida e estima-se que o Estado tenha injetado cerca de 60 milhões de USD apenas para manter a sua funcionalidade. A sua re-nacionalização e a nova descolagem poderão custar ao país no mínimo, mais 40 milhões de USD. Mas a grande questão é sem dúvida o day after! O mercado se constrói com tempo e elevados investimentos no Marketing, e não se trata de uma varinha mágica. Por mais que o segmento da diáspora seja um segmento importante no ecossistema, não deixa de ser um segmento sazonal e que por si só não viabiliza a TACV!

As grandes áreas de uma companhia aérea

A área do Marketing e das Vendas é o coração de uma companhia aérea, sobretudo na era digital. “O Marketing é tudo, o resto são custos”, numa curta alusão, ao brilhante guru de Management, o célebre Peter Drucker. Aliada a ela, vem a importância estratégica do departamento de Relações com os Clientes, fundamental para qualquer empresa na era moderna e sobretudo numa companhia aérea. O planeamento comercial é determinante na definição das rotas e na previsão das receitas. A competitividade e a criatividade nas vendas continuam a ser o pilar do sucesso de qualquer companhia. Como é natural a engenharia é fundamental para que os aviões decolam, e só podem decolar com assinatura de um engenheiro. O investimento num engenheiro/mecânico qualificado, exige tempo e avultados recursos financeiros. E na aviação, um engenheiro, não cuida apenas da engenharia, terá que especializar-se em contratos e no domínio da engenharia dos custos. Não menos importante, é a engenharia das operações de voos. Sem pilotos e a sua equipa não há aviões que decolam. Mais uma vez estamos perante uma classe que exige tempo, experiência e grandes investimentos. Por último, existe uma direção Financeira da empresa que tem a grande missão de gerir o cash flow numa indústria de capital intensivo. Um grande desafio. Custos sem receitas são insustentáveis! E a área dos recursos humanos, um pilar importante e de capital importância e de valor estratégico.

Em suma, a TACV, enfrenta uma decolagem de risco, onde presumo que tudo deve ser reconstruído de novo, depois de uma história de 65 anos de aviação nas ilhas. E as incertezas são grandes! Mas é verdade que a nova equipa de Gestão conta com um dos mais qualificados e experientes quadros da aviação do país, o Eng. Pereira que sozinho corre o risco de morrer mergulhado no trabalho perante os desafios que se avizinham. A grande questão não será a recuperação operacional da empresa, isto com dinheiro nao sera dificil, pagará os cabo verdianos. Mas sim, o grande desafio será voltar a desenvolver um mercado competitivo e sustentável que requer tempo em ser construído e que cada segundo da sua existência consome milhões de USD. Infelizmente somos um país excluído das bazucas financeiras! Mas boa sorte e sucessos, é o mínimo que os colegas merecem e o país deseja. It ‘s time. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1032 de 8 de Setembro de 2021.

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Autoria:João Chantre,13 set 2021 8:30

Editado porAndre Amaral  em  13 set 2021 8:30

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