Amor? Ao próprio

PorAntónia Môsso,15 set 2021 7:32

​Tenho reparado com alguma inquietação, que rondam por aí uns vírus muito mais contagiosos que o Covid-19. Para descanso das nossas almas (já demasiadamente angustiadas pelas privações atuais impostas pelo corona) estes não matam. Mas não é por não matar (pelo menos vidas) que não quer dizer que não devamos ter alguma precaução. Evitar o risco de contaminação.

Refiro-me à vaidade e ao narcisismo. Sendo a vaidade pecado capital, por estas paragens mais aparenta ser a mais virtuosa de todas as qualidades humanas. Mesmo admitindo que a vaidade seja uma característica universal nos seres humanos, é preciso doseá-la pois é a dose que faz o veneno.

É imprescindível ser-se notado. Um pesadelo ser-se tomado por “qualquer um” ou confundir-se com os restantes seres mortais. Há muita gente ferozmente apaixonada por si própria, numa competição desenfreada com o brilho solar. A única diferença é que o sol conhece o seu lugar e dá tréguas (pelo menos a partir de determinadas horas), a vaidade e o narcisismo, não.

A massificação das redes sociais, serviu de alavanca para a revelação dos outrora inefáveis dotes. A esfera privada viu-se destronada pela pública. E com isso, o mar entrou no rio turvando as águas do que deve ser resguardado (privado) e do que deve ser exposto a milhares de olhares (público).

Banida a discrição, vidas/atributos são expostas em escaparates. Corpos, intencionalmente exibindo a sua sensualidade ou virilidade. E mentes desesperadas em rebentar na cara de toda a gente o seu estrondoso currículo vitae e a sua alta performance profissional.

Portadores de infindáveis credenciais (umas reais outras imaginárias), unem-se em torno da necessidade de ostentar, de se autopromover e de obter admiração, reconhecimento social. (likes e comentários abonatórios).

Ter uma certa dose de autoestima é bom. Pois, quem se ama, por norma, valoriza-se, cuida-se, respeita-se e deve ser intolerante a relações tóxicas, abusivas, e violações de direitos. Está mais defendido. Mas o excessivo enamoramento da pessoa consigo própria, para além de ser um transtorno de personalidade, comporta em si aspetos bizarros e altamente perniciosos.

Por exemplo, o vaidoso priva o outro de o elogiar porque já se antecipou. E o que a outra pessoa faz com as ossadas dos elogios que restaram? Nada. Porque já foi tudo dito.

Um outro risco que essa característica acarreta é a de revelar a ausência de consciência de si próprio. Uma certa disfuncionalidade na autoimagem. Será que a forma como se perceciona corresponde de fato àquilo que é? Reparem que temos a tendência de achar que o inferno são os outros (são ELES os maus, os invejosos, os incompetentes, as cobras, os egoístas, os gananciosos, os ignorantes) e é trabalhoso, para não dizer extremamente doloroso, assumirmos as nossas inaptidões, debilidades e “avarias”.

O vaidoso, para além de idolatrar-se vezes sem conta, entende que é insubstituível. Normalmente, é ELE e exclusivamente ELE, sozinho, que faz as coisas andarem. Ausentando- se, colapsa tudo. Cai a qualidade. Deixa-se de bombar o sangue e os órgãos entram em falência, é a morte.

Por outro lado, e para mal dos nossos pecados, a vaidade é fértil. Uma das suas filhas é a arrogância. O arrogante é maldoso. Resvala para comportamentos degradantes como tratar terceiros com inferioridade e desprezo, humilhar, esmagar direitos dos que dele dependem, para além de, por achar-se muito especial, acreditar poder impunemente violar as regras sociais e leis em vigor (quem não se cruzou com seres humanos assim p.f. que levante a mão). Relacionar-se com um vaidoso e narcisista é tarefa espinhosa que requer muita cautela, mesmo para aqueles que se vangloriam de ter um bom anjo da guarda.

Não é por acaso, que os psicólogos traçando o perfil do narcisista, distinguem essas quatro dimensões:

- Superioridade / arrogância (sobrestima as suas próprias capacidades, temas subjacentes de superioridade e grandiosidade);

- Liderança/ Autoridade (gostar de ser um líder e de ser visto como uma autoridade);

- Egocentrismo/ autoadmiração (admirar a sua própria aparência física e personalidade);

- Carácter explorador (manipulação interpessoal, expectativas de favores, exploração dos outros).

O mito de Narciso - Dorian Gray, Brás Cubas, entre outras personagens ficcionárias, saltam da literatura diretamente para as nossas camas, casas, ruas, escolas, locais de trabalho, espaços de convívio. Tudo príncipes, como já ironizava o poeta Fernando Pessoa no seu poema em linha reta.

Cabo Verde nunca fabricou tantos “génios” como atualmente. E já era tempo dessa elevada produção de genialidade per capita repercutisse no PIB, no desenvolvimento e transformação do país. De fazer a diferença. Contribuir para a melhoria da realidade existente. Não vejo sinais disso! Muito pelo contrário.

A militância da vaidade pelo menos devia desencadear atitudes altruístas, mais cuidado ao próximo, humanidade. Mas não. Nota-se inclusive que esse culto da vaidade e da arrogância, acaba lesando, entre outras coisas, a já muito debilitada democracia e os direitos humanos. Os vaidosos, por norma, cercam-se de bajuladores. Diria até mais, fortalecem-se graças ao “patrocínio” de bajuladores. E, por razões óbvias, devolvem com hostilidade as críticas e apreciações negativas que lhes são feitas mesmo de forma justa e respeitosa. Não podem ser contrariados. Coartam as liberdades individuais de pensamento, de expressão e opinião, impondo um pensamento e discurso único: o seu. O “quem discorda de mim está contra mim e é meu inimigo”. Abortam qualquer possibilidade de eclosão de novas alternativas, abordagens e soluções plausíveis. Alvejam subtilmente, mas de forma certeira o peito da democracia com a censura. O silenciamento de vozes divergentes. O amedrontamento de pessoas.

Controlar a vaidade, o narcisismo, não se faz com vacinas, nem com medidas sanitárias (embora acredito que algum isolamento social em determinadas situações poderia resultar nem que fosse para se ganhar juízo). Nos casos mais crónicos, e visto tratar-se de um trastorno de personalidade, talvez ajude acompanhamento especializado. Nos restantes casos mais ligeiros, talvez baste um trabalho introspetivo intenso, promoção de valores e de virtudes cívicas (o Estado de Cabo Verde, embora não pareça, também possui essa obrigação). O despertar da consciência individual e de um maior investimento no “self made man”.

Contrariamente aos restantes animais, possuímos a capacidade e a liberdade de fazermos de nós próprios o que quisermos, de nos construirmos. O que significa que abre sobre cada um de nós uma gigantesca porta de esperança e possibilidades de aprimoramento como seres humanos. Não a desperdicemos entrando apressadamente num comboio de destino desconhecido só porque a maioria já lá está dentro.

Há quem diga que a vaidade em vez de ser alimentada devia ser deixada a morrer de fome. É pena que num país pobre como o nosso haja quem ainda prive seu corpo e mente de alimentos para dar à vaidade comidinha à boca.

Antónia Môsso

Mindelo, 14/09/2021

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Autoria:Antónia Môsso,15 set 2021 7:32

Editado porSara Almeida  em  15 set 2021 9:09

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