O Potencial da Diáspora enquanto instrumento de Diplomacia Cultural e Pública

PorMiriam Cruz Dembo*,22 nov 2021 8:12

​Uma Nação Global. É com esta conotação que Cabo Verde tem se procurado projetar, como um país com os olhos voltados para o mundo, um modelo de referência de democracia em Africa e um parceiro estável e confiável a nível da cooperação internacional.

A medida que estas características tem sido fundamentais na projeção do país no panorama internacional, é urgente refletir como se pode desenvolver uma política externa que dê centralidade àquilo que realmente nos concede o carácter de Nação Global: a nossa Diáspora.

Enquanto que ao longo dos anos a Diáspora tem sido destacada nos discursos políticos como um instrumento catalisador da projeção de Cabo Verde no mundo e fundamental para o desenvolvimento, as provisões institucionais criadas para consolidar os laços com a mesma não têm sido guiadas por políticas coerentes de engajamento. É oportuno lembrar que a nível institucional, foi criado em 2001 o Instituto das Comunidades, seguido pelo Ministério das Comunidades (2011), sendo este último absorvido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades em 2016; as constantes mudanças institucionais motivadas pelas oscilações no poder entre partidos e alinhadas com os interesses circunstanciais dos atores estatais em cumprir as suas agendas, dificultaram a definição e a prática de políticas consistentes de engajamento, resultando na negligência do papel da Diáspora num mundo globalizado, remetendo-a a uma condição de potencial latente, necessitando portanto de condições especificas para se tornar ativa, visível e plenamente desenvolvida no panorama da Diplomacia nacional.

É neste contexto que o restabelecimento do Ministério das Comunidades em Maio deste ano levanta a questão se estaremos perante uma mudança de paradigma. Num momento no qual o mundo olha para além das complexidades e implicações desta pandemia global e o engajamento com a Diáspora está a ser posicionado na frente e no centro da recuperação económica de pequenos países, o novo Ministério propõe-se a implementar uma nova visão na abordagem da Diáspora como um potencial de afirmação internacional de Cabo Verde, reconhecendo a necessidade de estabelecer um sistema de desenvolvimento sustentável de engajamento e de facilitar uma agenda proactiva que inclua um diálogo para que as comunidades se sintam ouvidas e parte efetiva da Nação Cabo-Verdiana. A Conferência Internacional das Comunidades, realizada a 29 de Outubro sob o lema “Integração dos Cabo-Verdianos nos Países de Acolhimento e em Cabo Verde” e na qual participaram vários membros da Diáspora, evidenciou o interesse do Ministério no estabelecimento de novas formas de relacionamento e diálogo com a mesma. Sob tal enfoque, e na sequência do reconhecimento da importância da dimensão cultural das nossas comunidades, é fundamental fazer breves considerações sobre o que foi definido como o elemento unificador da Nação e que orgulhosamente chamamos de nossa bandeira: a nossa Cultura. A nossa Diáspora tem desempenhado um papel de liderança a nível da sua preservação e promoção, usando os seus próprios recursos para defender os elementos essenciais do património cultural Cabo-Verdiano dentro da comunidade e na sua interação com públicos estrangeiros, ao mesmo tempo que cria estruturas para cultivar um sentimento de pertença nas novas gerações. É neste sentido que ela tem feito o que o Ministro da Cultura Abraão Vicente apropriadamente referiu como “diplomacia gratuita”. Tal constatação expõe a necessidade de um reconhecimento de que é vital a adoção de uma diplomacia formal, que inclua a Diáspora como uma matriz que combina simultaneamente uma Diplomacia Cultural e uma Diplomacia Pública, e projeta a imagem de Cabo Verde no contexto de ambas as diplomacias.

É nesta esfera que é necessário refletir nas palavras de Amílcar Cabral sobre “Pensar com as nossas próprias cabeças”. Embora o Estado continue a ser o principal responsável e executor da política externa, ele não é o único que pode impactar os resultados da diplomacia. Numa conjuntura de um “Cabo Verde aberto ao mundo”, o exercício de uma diplomacia num contexto de globalização deve integrar a cooperação das nossas comunidades que têm atuado como instrumentos de afirmação cultural e estão numa posição singular em termos da sua visão única sobre a prática da cultura num contexto de imigração, e tem a capacidade de serem uma ponte entre Cabo Verde e o país de acolhimento. Para um país insular, com recursos limitados e sem peso económico para se projetar na arena internacional, a diplomacia cultural prefigura uma vertente incontornável para Cabo Verde usar os seus recursos estratégicos, isto é, o seu capital humano existente na Diáspora para projetar o nosso país no mundo e transformar os nossos elementos culturais únicos numa fonte de riqueza para o país.

No meu entendimento, a solidificação desta Nação Globalexige muito mais do que a definição de uma agenda comum. As instituições governamentais precisam reconsiderar o seu uso de soft power referido por Joseph Nye, ou seja, a habilidade do Estado em influenciar indiretamente o comportamento e interesse de outros Estados através de meios culturais ou ideológicos. Numa diplomacia colaborativa, este soft power pode ser efetivado por utilizar a dimensão cultural das comunidades, que é exercido através das lentes de pertença e identidade, e tirando partido do seu potencial como embaixadores culturais e promotores da imagem Cabo Verde como forma de fomentar oportunidades de desenvolvimento sustentável. A parceria com as comunidades é igualmente essencial para cumprir a Agenda Internacional, estando em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (Agenda 2030), em particular o 17: Parcerias e Meios de Implementação.

Para que a Diáspora seja utilizada como um instrumento de soft power, ela deve ser empoderada; neste sentido, é fundamental que o Ministério das Comunidades continue a se empenhar em Conhecer a sua Diáspora, através de um mapeamento eficiente e coerente; a Dialogar com a Diáspora, por institucionalizar canais de colaboração e diálogo, seguido por medidas de monitorização das repercussões das suas atividades culturais dentro da comunidade em que atuam; entender o Potencial da Diáspora, pensando não apenas em como ela pode ajudar Cabo Verde mas também como Cabo Verde pode ajudar a Diáspora. Um engajamento eficaz passa pelo reconhecimento das comunidades como um recurso que tem de ser abraçado e não apenas explorado. Enquanto que a contribuição económica constitui um fator preponderante, a problemática é olhar para a Diáspora como apenas isso. É necessário capacitar o potencial humano e o conhecimento adquirido pela Diáspora no mundo científico e académico e permitir que ela possa contribuir para o desenvolvimento humano, académico e cultural do País. É igualmente necessário investir no treinamento de diplomatas no que diz respeito ao engajamento com as comunidades. Por último, é primordial continuar a trabalhar nesta relação biunívoca, transitando do Nós e Eles para apenas Nós. Não existe o Nós e o Eles. Existe a Nação, que só e Nação Global por causa da Diáspora.

Em conclusão, para haver um engajamento eficaz, este tem de ser definido em cooperação com a Diáspora. Se somos parte da mesma Nação Global, as nossas comunidades precisam ter um lugar a mesa quanto às políticas que a ela se aplicam. Enquanto que os recursos financeiros são limitados, a vontade das comunidades em descentralizar a cultura e internacionalizá-la nas ilhas virtuais é uma alavanca que não deve ser desperdiçada, realçando a importância da cultura como uma diplomacia reconhecida. Contudo, a materialização de uma diplomacia cultural e pública eficaz só será desencadeada à medida que o Governo engaja de forma eficaz para gerir esse fluxo cultural de duas vias, com o objetivo de impulsionar os interesses nacionais de uma Nação Global dos dois lados das fronteiras. É mais importante o que se faz do que onde se está. Cada pessoa na Diáspora tem o potencial de ser e representar Cabo Verde, uma nação desterriorializada[1] que mal ocupa espaço no mapa, e que simultaneamente, tem o poder catalisador de ocupar o mundo com a sua cultura, a sua resiliência e o seu enorme capital humano.

_____________________________________________________

*Licenciada em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas em Lisboa e mestranda em Política e Diplomacia Cultural na Goldsmiths University em Londres. Membro da Direção da Associação Cabo Verdiana do Reino Unido.


[1] Conceito aplicado no contexto do fenómeno de emigração e globalização cultural, no qual um individuo deixa fisicamente um território, mas motivado por um sentimento de pertença, transporta os elementos culturais para o seu novo destino e promove o seu país de origem, levando a uma extensão figurativa do território físico e implicando a presença crescente de formas sociais de contacto e envolvimento que se estendem alem dos limites do território.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1042 de 17 de Novembro de 2021.

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Autoria:Miriam Cruz Dembo*,22 nov 2021 8:12

Editado porAndre Amaral  em  22 nov 2021 8:12

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