A música de intervenção do século XXI

PorGláucia Nogueira,11 abr 2022 8:16

É uma discussão antiga aquela sobre o papel da arte na sociedade: se a produção artística deve ter algum objetivo – como promover mudança social, através da crítica, esclarecimento, catarse, etc. – ou se deve prevalecer a ideia de “arte pela arte”, ou seja, a ideia de que a criação artística tem valor em si, pelo simples facto de existir, sem que se deva esperar dela qualquer função para lá de expressar o talento, a criatividade e a subjetividade dos criadores.

Discussão teórica à parte, temos por outro lado a questão do mercado, que se manifesta em qualquer forma de arte que queiramos abordar.

Seja na literatura, nas partes plásticas, no teatro, no cinema, na música, sempre houve e sempre haverá obras que se propõem ser entretenimento simplesmente (como a música de dança ou as comédias românticas, por exemplo) e aquelas que procuram, através do seu conteúdo temático, da mensagem que passam e por vezes das próprias opções estéticas, defender alguma causa ou ter alguma influência na sociedade.

Claro que as duas coisas não são incompatíveis, pois a mais alegre das músicas, ótima para dançar, pode ter uma letra engajada – veja-se algumas koladeras do período da luta de libertação, como por exemplo “Nho Keitone”, de Manuel Faustino. Assim como a morna mais romântica e sentimental pode ter nas entrelinhas um sentido profundamente político – por exemplo, “Nova Aurora”, de Waldemar Lopes da Silva, em que o futuro desejado para um casal apaixonado é na verdade a aurora de um novo tempo: o da independência conquistada.

Também é verdade que por vezes o compositor, ao criar uma letra, tem uma intenção deliberada de tecer uma crítica e outras vezes ele simplesmente conta uma história, baseada na sua experiência pessoal, e cada um de nós, ao ouvir a composição, irá interpretá-la segundo a própria subjetividade, atribuindo-lhe sentidos a partir também das referências que tiver do contexto em que se insere a música. Penso, no primeiro caso, em composições como “Entri Spada i Paredi” (de Zezé di Nha Reinalda) ou “Apocalipse” (de Manuel d’ Novas), que são mais explícitas; e no segundo, “Fome 47” (Codé di Dona) e “Fidjo Magoado” (Jotamonte). Codé di Dona não fala abertamente da fome e Jotamonte fala apenas da sua tristeza, mas sabemos a que se referem.

E temos ainda a arte que exorta a determinadas ações, com um claro propósito de intervenção – por exemplo, no teatro, o trabalho do grupo Kaoguiamo em que o título já diz tudo: Korda Skrabu!, ou as peças do Korda Kuberdi, liderado por Kwame Kondé. Ou ainda a poesia de Kaoberdiano Dambará: “Labanta bo anda fidjo d’Afrika / Lebanta negro, obi gritu’l Pobo: Afrika, Djustissa, Liberdadi (…)”.

A música que se propõe intervir na sociedade é sempre uma chamada à ação política, social (ainda que muitas vezes possa passar a sua mensagem de forma sutil, não tão explícita) cuja razão de ser pode ser tanto a necessidade de participar de uma luta armada como a construção de um novo país, ou de um Novo Homem, como desejou Amílcar Cabral. Aí se encaixa, por exemplo, “Trabadja, estuda”, tema de Kaká Barboza, dos primeiros anos a seguir à independência, com o qual ele exortava a juventude de então a fazer o seu papel naquele momento de erigir a recém-nascida República de Cabo Verde.

Toda esta introdução para falar de Terreru, um coletivo de pessoas interessadas não apenas em música, mas em intervir socialmente, através da educação, de projetos sociais e outras possibilidades que as suas ideias fervilhantes poderão trazer à luz a qualquer momento. Para quem ainda não conhece, Terreru é formado por quatro músicos/compositores (Maruka Tavares, Calu di Guida, Djinho Barbosa e Djoy Amado) e um empresário. Com exceção de Djoy, que vive na Praia, encontram-se todos nos Estados Unidos.

O percurso profissional de cada um deles e a atividade que exercem no momento seria mais que suficiente para que, ao fim de um dia de trabalho, simplesmente quisessem repousar. Jacinto Fernandes, empresário a atuar dos dois lados do Atlântico, ligando os EUA e Cabo Verde pela via do comércio, tem forte interesse na área cultural, como mecenas e a promover a carreira musical da sua filha Desiree Fernandes. Maruka, enfermeiro, no momento frequenta um doutoramento na área da saúde mental; Calu exerce um alto cargo na área financeira numa grande empresa norte-americana; Djinho, especialista em gestão da informação e antigo quadro no Ministério das Finanças, além de ter estado na primeira equipa reitoral da Uni-CV, dirige agora o Pedro Pires Institute for Cabo Verdean Studies, na Bridgewater State University. Djoy, economista voltado para o desenvolvimento social, é funcionário do Ministério da Agricultura e Ambiente.

Contudo, não repousam depois do trabalho. Criam música em conjunto, propondo, a partir das suas fortes raízes culturais, lançar-se em voos criativos que não os amarrem à repetição de formas consagradas pela tradição. Criam letras que trazem mensagens com as quais querem provocar reflexões (RefleSon é o título do segundo álbum do grupo, lançado no final de março), querem criticar situações duvidosas na realidade cabo-verdiana, querem questionar atitudes.

Temas que vão da inveja e mesquinhez (“Kela ke Algen”) a questões bem concretas como o drama do alcoolismo (“1 ideia”) ou o controverso comércio de terrenos na cidade da Praia (“Praia Maria, Afinal”) surgem neste segundo trabalho. No primeiro, editado há quase um ano, intitulado TestaSon, encontramos o questionamento sobre determinados modos de vida da contemporaneidade (“Lunátikus”, “Sakuta”), um poema de Kaká Barboza musicado, em que se revela sua ligação à terra e a sua fé nos cabo-verdianos enquanto lutadores por um mundo melhor, entre outros temas. Kaká (1947-2020) é homenageado nesse primeiro álbum, enquanto no segundo os rapazes de Terreru homenageiam Catchás (1951-1988), duas figuras que lhes servem de guias, pelo trabalho realizado na cultura de Cabo Verde e pelo respeito que lhes dedicam.

Na sua intenção de intervir socialmente, o grupo já teve a felicidade de ver algo concretizado, como a professora Professora Zita Vieira, fundadora do English Language Learners (ELL), na Praia, que está a utilizar em sala de aula as músicas do Terreru, trabalhando com os alunos, em inglês e língua cabo-verdiana, a partir das ideias veiculadas. A escola como multiplicador deste contributo social é uma das apostas do grupo.

Há quase 25 anos, a primeira vez que entrevistei Kaká Barbosa, e como eu era uma novata em assuntos ligados à música de Cabo Verde, ele me explicou: assim como no Brasil existe Roberto Carlos, com as suas músicas românticas, e existe Chico Buarque, com outros temas mais complexos, aqui em Cabo Verde também temos os dois tipos de compositores. Está tudo dito.

Terreru é a música de intervenção do século XXI, trazendo as questões complexas que enfrentamos, e procurando fazer não apenas música, mas intervir na sociedade de forma concreta, lançando mão, para atingir os seus propósitos, dos recursos tecnológicos, pedagógicos, comunicacionais e outros que estiverem ao alcance. Mas com base, sobretudo, numa vontade de mudar o mundo. Começando pela escola, base de toda transformação. Seguindo o lema de Kaká Barbosa, “trabadja, bu estuda, leba Kabu Verdi pa dianti…” 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1062 de 6 de Abril de 2022.

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Autoria:Gláucia Nogueira,11 abr 2022 8:16

Editado porAndre Amaral  em  11 abr 2022 8:16

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